28 de abril de 2011

na liberdade

ali era a forca.
proibido acender velas coloridas.
chaguinhas um condenado por exigir o que era seu. o corpo lançado no ar. na primeira, a corda se rompeu. na segunda, a corda se rompeu. na terceira, a multidão a buscar os mistérios da santidade esperava aflita e a corda novamente se rompeu. na quarta, o laço de couro, não houve jeito. chaguinhas evadiu-se para a crença de todos e dos filhos dos todos.
a devoção e a mudança dos tempos fizeram a forca virar capela. o cemitério virou casas, restou o beco.
os aflitos que dialogam transcendência vão ali, com suas luzes. vermelha pra ogum verde pra oxóssi azul iemanjá amarela oxum laranja iansã. marrom para xangô.
no subterrâneo da capela velas brancas brilham pela memória dos amados. prontas para reciclagem, que uma vela de qualquer cor conspurcaria.
e no enquanto sempre todas oxalá.

27 de abril de 2011

tükörtojás




um dia ainda me lançarei no abismo:
apontarei o ideograma e nada pedirei de explicações.
talvez eu voe.
talvez eu simule um súbito mal estar.

(no amplo salão, sou a única a olhar para o vasto mínimo aquário onde peixes.
a única que não entende o doce emaranhado das ondas dos sons.
e vê noel chegar montado em dragões.)

será mais discreto do que quando entrei.
juro.

26 de abril de 2011

anyu

às vezes, acordo com saudades. ontem, olhando para o casal na mesa ao lado, nem sei bem por quê, me lembrei de nós juntas na estrada, no escuro os faróis do carro a iluminar poças ou poeiras, no calor da lenha as frutas se desfazendo, sopas, panquecas, lángos.
meus filhos nos seus braços. uma vez, numa única boca de gás, o melhor arroz com brócolis que já comi na vida.

25 de abril de 2011

a cada dia uma pequena revolução

em 1984 eu tinha quase vinte e não sabia quanto tempo uma ditadura pode permanecer entranhada depois de haver sido vencida. não me esqueço quando descobri sob uma garoa fina que o hino, que nos haviam feito cantar quase como uma imposição sempre antes de subirmos as escadas, seria, a partir daquela noite, a possibilidade de haver um mundo com espaço para todos nós. os nascidos, os trazidos, os chegados. os que tiveram que ir antes da hora.

20 de abril de 2011

ao mestre, com carinho

alguns dias, acordo mais sensível aos sons. todas melodias se confundem objetos.
conheci um homem que ouvia a música dos motores e queria afiná-los. sem sucesso.
outro me dizia que a primavera era de sons graves. nada de agudos ao violino. pai, vou ser mãe e isto encheu seu coração de alegrias ocultas.

18 de abril de 2011

no fio do son(h)o

à noite, fica mais intensa a fonte de perguntas que ele é. por que a gente morre quem inventou a gravidade como você sabe que é minha mãe por que não venta na lua como o vovô jimmy espirrava quando estou sozinho estou comigo mesmo, né, você me dá beijo quando sair? eu digo chega, é hora de dormir. e tudo se estanca. no silêncio da respiração que se finge pausada sei que perguntas aflitas encavalam na garganta. até que o sono vem e vence. palavras sem jorrar vida adentro pesadelam-nos por vezes madrugadas e escuros. no geral, embaralham-se lindos poemas. amém.

14 de abril de 2011

em tempos de guerra

na noite na cidade ocupada o inimigo bate à porta. bêbado, esmurra grita e quer uma mulher. elas no sótão, os homens de prontidão. no silêncio. seguram suas ferramentas únicas armas. um momento e o inimigo se afasta. saem os homens no escuro.
quando o dia, mais uma manhã mais uma jornada de trabalho mais um ancinho a menos para o feno.

13 de abril de 2011

hoje

às vezes nada mais há que se possa fazer eu digo chega você não está ponho as mãos no rosto nada nada que se possa vou dormir nada a fazer nada há uma pequena tristeza a escorrer lágrima na face mas nada que se faça nada chega nada não está nada nada nada um mantra que adormece o rosto e as mãos. que o nada às vezes me permanece.

9 de abril de 2011

saudade em casa de mim

minha vida um longo fio tricotado de mil jeitos tecido de outros e quando me afasto é como se a ponta do fio que sou ficasse preso ao onde você está e na distância ao se distender o fio vou me desfazendo do trançado que eu era vou soltando a tessitura do que me construo no mundo quando com você estou.

8 de abril de 2011

vento

algumas pessoas nascem esculturas prontas e resta ao tempo devastá-las. outras vêm ao mundo massa informe, e ao tempo cabe forjá-las, esculpi-las.
eola gostava de andar nas tardes claras de ventania quando o movimento do ar traça sulcos em gestos e rosto, como se erodisse planícies. o pensamento segue pedaços de painas no asfalto, ângulos exatos entre janela e céu, sombras na calçada, placas de trânsito invertidas, construções novas em terrenos antes vazios.
o seu tesouro o fundo de um vale nascente na gruta dos olhos nas mãos de veias salientes e dedos grossos.

6 de abril de 2011

as mulheres gulosas

no ônibus, uma senhora de pé. qualquer um pensa adivinhá-la no cabelo, na roupa contida, no calçado raso. óbvia.
ela se senta, então.
e no tornozelo descoberto, em letras mínimas, tatuado naquele quase pergaminho, um poema de drummond.