16 de julho de 2012

receitas vegetarianas - 2

basta eu me deitar e fechar os olhos que tudo fica claro. sei o que quero dizer sei as frases exatas, as quantidades, o modo de preparo como se uma história fosse uma receita de comida. faço as frases. estão todos ali e eu poderia descrever cada um em seus gestos mínimos ou amplos em seus pensamentos medos coincidências. um homem estava no mar. um mar de pesadelos e naufrágios. depois, me reapareceu silencioso numa varanda com plantas em vasos velhos onde até a terra era velha. sei que busca uma mulher. ele a vê, ele a vê numa praça, cercada de crianças. ele volta a procurar.
há noites em que a mulher que ele procura parece morta. está morta? ele a acompanha numa cama, num hospital. ele diz alguma coisa que eu não consigo entender. quem é aquela mulher? ele a matou? não sei. ainda não sei. deixei de beber no jantar para entender melhor essas histórias que me tomam quando mal apago a luz e fecho os olhos. e no escuro na insônia são tão óbvias. se eu me levantasse e conseguisse escrever o que sei o que meus olhos vêm o que minhas mãos quase poderiam tocar, sei que nas linhas, se escritas, a história e seu homem estariam.
ao escrever o que sei, saberia também que ele prepara sua própria comida, prepara brigadeiros com paciência e saberia que um homem como ele faz suspiros aerados para os dias de festa. eu o veria fazer. eu o veria quebrar os ovos e separar gemas. eu o veria bater as claras firmemente até nevarem. acrescentar o açucar pouco a pouco e bater, bater, o arame no vidro som de tardes claras, sol de férias e azul. saberia que põe raspas da casca de um limão e por fim o veria formatando os pequenos picos pontiagudos na assadeira untada e polvilhada. o gesto do homem que na minha insônia se desespera no mar se acalma numa varanda que não conheço concentrando-se nesse afazer de duas colheres formatarem neves. um homem que faz suspiros assim poderia ter matado alguém? 
ao escrever saberia também o que não sei. que é um homem triste quando olha suas unhas, quando olha o jornal e as migalhas sobre a mesa, à espera de que o forno semiaberto e quase morno seque e endureça os suspiros leves nem sempre tão brancos quanto, mas nuvens rosa e alaranjadas de um fim de tarde e seu por de sol… quando meus olhos na casa ressonante encontram o homem, sei que nada posso lhe dizer. é na contemplação, no constatar como realiza cada coisa no vasto mundo, que conheço sua história.
nos intervalos do dia, à espera, me encolho, minúscula, onde tantas outras passam ocultas sua vida. ocupo dobras e desdobras dos lençóis que estico, bato travesseiros, estendo colchas cobertas abro cortinas e se a cada dia o pó como um pólen cinza se assenta eu também me encolho pó a desenhar com o dedo pequenas flores depois caminhos e por fim largas estradas e um pano empoeirado na casa limpa. eu me junto às vassouras aos rodos aos panos de chão escovas a limpar privadas em seu mais abjeto nas roupas intimas diluo minhas mãos em água tépida e sabão nos frisos ásperos do tanque e se durante o dia nada disso me oculta, declaro urgências e pães e bolos, conservas.
encosto a porta e naufrago no fio das facas no vapor dos cozidos e vinagres nas bolhas do fermento vou tateando o gosto das coisas em pequenos potes a cebola picadinha aqui o alho triturado os tomates sem pele as berinjelas os pimentões estufando-se de sua pele fina no forno  ali eu quebro uma noz na dobradiça da porta aqui descaroço uma azeitona e enquanto na vasilha misturo a farinha o fermento o açúcar a água e o sal e ponho a manteiga a crescer o pão enquanto em outra farofo farinha com manteiga e sal depois ovos, a quebrar um a um até dar liga e abrir a massa e a quiche espera seu recheio e já pico em rodelas descabeladas o alho poró que refogo e ralo a noz moscada em aroma de uma praia onde nunca fui e já despelo os pimentões e amasso as berinjelas e ponho o pão no forno enquanto misturo cebolas e azeite e nozes e o sal e uma pitada de açucar e lá vai a conserva para vidros enquanto os tomates cozinham no fogo baixo borbulhando grossuras mediterraneas trazidas da américa e bato ovos e o creme de leite e sal e junto o alho poró refogado e corto em pedacinhos o queijo de cabra e na palha e nas cinzas que o recobrem ficaram presos uns restos de folhas e raízes das plantas da varanda onde aquele homem olha os vasos as flores de maio e espera por alguém quem? e logo o pão em seu cheiro de assado e lá vai a quiche que leva tanto tempo o tempo de um bolo juntar a farinha ao fubá o açucar o fermento e outra vez sal e deixar ovos e leite e manteiga separados em outra vasilha para juntá-los na hora de levar ao forno.
quando tudo assado e temperado e organizado em cestas pratos vidros panos travessas repousar delicado e lento sobre a mesa da cozinha, volto a ficar à espera do novo momento de insônia que só vem quando tenho sono muito sono nunca nas noites descansadas quando desperta poderia anotar com calma as tantas coisas sobre este homem triste e a mulher que ele vela que ele espera que ele sonha como eu não sei deste homem que só saberei quando no papel as letras mas estou tão cansada agora trabalhei tanto durante o dia todo toda escondida em tantos cantos da casa veja que as minhas mãos, meus dedos, desajeitados, repare, talvez nunca nunca mais sejam capazes de segurar uma caneta, e pensar que tudo fica claro quando basta eu fechar os olhos. meus olhos e tudo tudo.

5 comentários:

Alvaro Vianna disse...

Água nas bocas famintas de uma literatura inovadora

bjs

Alvaro Vianna disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

pois: eu tinha lido, mas não tinha feito a ponte. ao menos não assim, uma ponte reta e firme. era só um trecho que li ontem, antes de dormir, e que me chamou a atenção. "prefiro escrever a ter escrito", é tão preciso!(o livro começa num fluxo de memórias de menino e, de repente, na segunda parte tudo muda e o escritor aparece!). (estou meio apaixonada pela literatura desse moço; pena que "la vida secreta de los árboles só chega em setembro"...).
mas sim, a ponte está aí, reta e firme. e é linda demais essa receita da falta de receita de escrever; puro artesanato, pura alquimia.
um beijo, também anônimo.

Mari Somdipincel disse...

fome.

veronika paulics disse...

DÍAS SIN MADRE / Jorge Pimentel Ibas a comprar al mercado y grandes bolsas caminaban y lloraban. Éramos el lagarto y la osa cubiertos de bistecks y alcachofas flotando entre zanahorias. Tal vez un helado o el encuentro famoso con cebollas, hacían de nuestras vidas grandes apios que los sábados giraban estupendamente. Luego nos íbamos en góndolas. Íbamos otra vez a un televisor en blanco y negro, a conocer otros supermercados y despavoridos cogíamos algunas revistas colgadas en anaqueles presuntuosos. Los días de mi madre eran barrer con un cepillo y lustrar para que no entre el demonio. Pero el demonio ya había entrado. Y me nacieron estas enormes manos. Estas enormes manos que no cesan de escribir.