23 de julho de 2012

receitas vegetarianas - 3


quando o pai fechou a porta depois de desconversar a receita do brigadeiro, ela já tinha descido as escadas e saído. já tinha posto o capacete e montado na moto. saiu pela rua pequena até a avenida e então em linha quase reta entre faróis dos carros e postes de luz e viadutos.
no quinto ou sexto semáforo, fez um contorno quase abrupto e entrou no estacionamento de um supermercado. parou, tirou o capacete. entrou. foi até os laticínios e procurou um creme de leite fresco. na prateleira dos chocolates, pegou uma barra do meio amargo, depois açúcar. ao pegar uma caixa de ovos, abriu. um deles estava quebrado. abriu outra caixa. também ali havia um ovo quebrado. deixou uma caixa com dois ovos quebrados e pegou a caixa com todos os ovos inteiros. ainda abriu duas ou três caixas e encontrou mais dois ovos quebrados. fechou e seguiu.
já quase no caixa, voltou para os laticínios e pegou um leite e um queijo fresco. pegou café em pó e pacote. passou pelos pães murchos. não pegou. pegou bananas prata numa penca.
o caixa do supermercado estava mergulhado numa briga de casal na tevê ligada no som que preenchia todo o espaço e mais um pouco.
ela o tocou.
ele a viu e começou a passar os produtos pelo leitor de preços. ela disse há vários ovos quebrados. ele a olhou. abriu a caixa de ovos e disse não estão quebrados. ela disse estes não, claro, os que estão lá. ele a olhou sem ver.
ela pagou, pôs as compras na mochila, foi até a moto, pôs o capacete, saiu.
outra vez a larga avenida. vários cruzamentos, num deles virou à direita, outra vez à direita, entrou no estacionamento de um prédio de poucos andares. saiu a pé e sem capacete da garagem do predinho. seguiu uns metros pela calçada, entrou no jardim minúsculo de uma casa, passando por um portão sem chave e sem tranca, abriu a porta da casa.
pisou num bilhete não pude esperar te ligo mais tarde beijo.
ela ficou triste, entrou, fechou a porta. foi até a cozinha, deixou as compras na mesa, foi fazer xixi, tirou bota calça jaqueta. lavou o rosto, lavou as mãos.
voltou pra cozinha.
separou três ovos. separou o creme de leite fresco e o chocolate. separou o açúcar.
quebrou cada ovo gema para um lado e clara para o outro, derramou o creme de leite numa panela e o colocou em banho Maria, picou o chocolate.
na vasilha das gemas acrescentou o açúcar e bateu. reservou. na vasilha das claras, acrescentou uma pitada de sal e esperou. quando o creme de leite estava quente, tirou do fogo, acrescentou o chocolate picado e mexeu até dissolver. acrescentou a mistura de gemas e açúcar e voltou a mexer até incorporar tudo. reservou.
pegou a vasilha das claras e um batedor de arame e bateu, bateu, bateu, pacientemente, até formar picos que se mantinham quando afastava o batedor. nas claras em neve, foi derramando lentamente a mistura de creme de leite chocolate e gemas e misturando delicadamente movimento em câmera lenta até que as pequenas bolhas das claras se misturassem ao creme e cada pequena bolha envolta em marrom permanecesse bolha, quase oculta naquele mar doce. limpou a beira da vasilha e a colocou na parte mais fria da geladeira.
pegou o telefone da bolsa. olhou. colocou sobre a mesa.
pegou uma caçarola sob a pia e pôs azeite.
abriu o freezer e tirou um pote. molhou um pouco o fundo do pote na água da torneira. o fundo do pote se desprendeu. numa outra panela pôs o gelo marrom para esquentar.
enquanto o gelo se derretia em caldo de legumes e ervas, descascou quatro dentes de alho e segurando-os entre o polegar e o indicador, a faca em incisões certeiras a fazer fatias finíssimas longitudinais. jogou as fatias na caçarola com o azeite frio. acendeu o fogo no mínimo e ficou a ver o alho ate quase fritar. tirou os alhos e jogou no azeite uma fatia de pão de centeio que havia amanhecido no cesto sobre a pia e o deixou fritar no azeite. tirou dois ramos de salsinha da geladeira e os picou. e quando virou a fatia de pão para que torrasse também do outro lado voltou a picar a salsinha até que não fosse mais que uma purpurina verde um pó opaco sobre a tábua.
então tirou o pão e o colocou num prato fundo e jogou na caçarola onde antes pão onde antes alho o caldo que já fervia e quebrou o penúltimo ovo e o derramou devagarinho na fervura e quando as claras embranqueceram mas a gema ainda cremosa, derramou sopa e ovo sobre o pão e o polvilhou com a salsinha e um pouco de páprica mais pelo colorido que o picante mas também.
e se sentou.
e se levantou e escolheu uma música para aquelas fomes e sob o céu de missouri ela, pat e charlie jantaram.
quando terminou a sopa, se levantou e colocou o prato na pia num movimento oscilante de quem não sabe se o lava ou não. disse em voz alta eu também estou apaixonada por alguém quase trinta anos mais velho do que eu e também não sei o que fazer. não lavou o prato.
foi ao banheiro, escovou os dentes e foi ao quarto e se deitou. e se levantou, pegou o telefone e o deixou bem perto mas ele não tocou.
às quatro tocou a campainha depois ela ainda tonta de sono ouviu os nós do dedo dele no nó da madeira e ela então abriu e ele entrou e no abraço ele disse estava chegando quando me ligaram pra uma urgência, o domingos não conseguiria chegar a tempo e eu dobrei o plantão me desculpe. tudo bem ela disse e o pegou pela mão primeiro atravessando a sala na direção do quarto depois numa curva o passo os levou pra cozinha e na porta da geladeira ela parou e abriu e naquela luz quase lua pegou a musse aerada e firme e colocou a vasilha sobre a mesa pegou duas colheres uma de cada lado e eles se sentaram. e os dedos então cruzados uns da cor da vasilha outros cor da quase madrugada daquele quase conteúdo que pouco a pouco tomava a forma de um continente.


2 comentários:

Alvaro Vianna disse...

Pequeno milagre esse de tirar lágrimas com uma receita. bjs

Virgílio Moura disse...

Bom e belo gostei muuuito!