25 de outubro de 2012

receitas vegetarianas - passo a passo

porta de um prédio, noite, rua tranquila. um poste ilumina a calçada. ela chega caminhando,
guarda as chaves numa bolsa e toca o interfone.
pelo interfone, ouve-se a voz de um homem: oi.
ela: oi, sou eu.
ouve-se um barulho na porta do prédio.
pelo interfone ele pergunta: abriu?
e ela, que já tinha empurrado a porta e já tinha entrado, antes que a porta se feche, põe meio
corpo para fora, na direção do interfone, e grita: abriu!
a porta se fecha.

lado de dentro de um apartamento, enquadramento da porta similar ao enquadramento da
porta da rua, mas tudo estreito e penumbra. a porta está meio aberta. à esquerda da porta há
uma luz que vem de outro cômodo, que não vemos. à direita, há um móvel, uma espécie de
aparador.
ela entra diz: oi! e põe a bolsa sobre o móvel.
ele diz: ‘to aqui na cozinha.
ela fecha a porta e diz: já chego.
vai na direção da luz.

sobre a mesa da cozinha há cebolas picadas numa tábua. uma vasilha com água e batatas
cortadas em cubos médios. de um lado da vasilha, batatas com casca, uma tira de pimentão
vermelho, um pacote de cogumelos. na frente da vasilha, cascas de batatas e em outra tábua
meia batata descascada que ele corta em cubos com uma faca grande.
ela chega na cozinha, lava a mão na pia enquanto pergunta: precisa de ajuda?
- não, já estou terminando...
- só vim pegar o passaporte.
- não quer jantar? é simples, mas acho que vai ficar bom.
- não quero atrapalhar.
- não atrapalha.
- então, pode ser...
- pegou muito trânsito?
- não. me atrasei porque preferi separar as coisas da mala ainda hoje. não gosto de fazer
isso em cima da hora.
- claro. vocês vão amanhã?
- de noite.
- vai ser bom. faz tempo que vocês não viajam juntas, né?
- é... acho que ela ‘tava querendo viajar com você.
- comigo?
- acho que sim, pra ter deixado o passaporte dela aqui...
- ah, não... ela deixa sempre alguma coisa. é como se quisesse manter um vínculo com a
casa, não sei...
- isso é, lá em casa também tem muita coisa ainda...
- o passaporte tá em cima da mesa do escritório. já guarda, pra não esquecer.
- só faltava...
ela sai de cena.

enquanto isso, ele termina de picar as batatas e começa a picar os cogumelos em fatias
finas. pega uma caçarola, liga o fogo, coloca um fio de azeite. quando nota que está quente,
joga as cebolas picadas e a tira de pimentão.
nesse momento ela volta pra cozinha. ele entrega a ela uma colher de pau e diz: pode ir
mexendo devagarinho, pra não queimar?
ela diz: claro.
atenta ao movimento das cebolas no azeite quente, ela mexe de vez em quando.
silêncio. barulho da faca picando o cogumelo e do frigir da cebola.
ela: está quase bom...
ela tem lágrimas nos olhos.
ele: as cebolas te fizeram chorar?
ela: é...
ele escorre a água das batatas picadas.
ele põe as batatas na caçarola com a cebola. e diz: agora é só revirar de vez em quando.
ela: eu sei.
ele pega a páprica defumada e polvilha as batatas. pega o saleiro e põe sal nas batatas. pega
o kummel e joga uns grãos.
ela: posso mexer?
ele: pode.
ela revira as batatas enquanto ele joga fora as cascas que estavam sobre a pia e continua
picando os cogumelos.
quando ele termina de picar, pega um copo, enche com água da torneira, diz: vou pôr um
pouco de água. acho que já não precisa mexer.
ela entrega a colher de pau para ele. ele põe a água nas batatas e as revira um pouco. ele
pega mais um pouco de água, até que as batatas estejam cobertas de água, ou quase. pega
uma tampa e cobre a caçarola.
ela pergunta: e os cogumelos? vão aqui?
ele diz: vão, mas vou deixar as batatas cozinharem antes.
ela: quer que eu pique a salsinha?
ele: pode ser. você gosta, né?
ela fica no lugar dele, pega a faca, ajeita a tábua, lava os ramos de salsinha e começa
a picar. ele vai até a geladeira, abre a porta, pega uma cerveja. no armário ao lado da
geladeira, pega dois copos. abre a cerveja. derrama cerveja nos dois copos devagar para não
fazer muita espuma. coloca um dos copos ao lado dela, na pia. ela sorri, pega o copo, toma
um gole. ele espera.
ela: ouvi dizer que você tá namorando.
- já soube?
- o álvaro me ligou...
- ...
- na verdade, ele achou meio estranho. diz que é uma menina... que tem a idade da marina...
- o álvaro exagerou um pouco... mas ela é bem mais nova do que eu, mesmo.... e?
- e o quê?
- qual é o problema?
- como assim, qual é o problema?
- a gente se separou há tanto tempo, você já teve vários namorados, eu já tive várias
namoradas e nunca isso foi um problema. por que isso agora?

- não sei, fiquei preocupada, por você... deve ser divertido namorar alguém muito mais
novo, mas é... não sei... uma espécie de retrocesso, sabe?
- não, não sei. retrocesso?
- é, uma pessoa muito mais nova deve te admirar muito e tudo, mas não sei, fico achando
que não acompanha o ritmo, da vida, sabe? seria o mesmo que você, agora que é um
cirurgião respeitado, conhecido, com um consultório num lugar bacana e tal, resolvesse
atender num pronto socorro público na putaqueopariu... entende o que eu quero dizer?
- não. o álvaro esqueceu de te dizer que eu estou atendendo num pronto socorro público. e é
meio longe daqui. nisso você tem razão...
- num pronto socorro? não entendo... pra que isso?
- pra quê? como assim “pra quê”?
levantou a tampa da caçarola, experimentou um pedacinho de batata. pegou os cogumelos e
os lançou por cima das batatas. não mexeu. tampou.
ele: tá quase pronto.
- e a salsinha?
- a salsinha a gente joga em cima na hora de comer.
- mudou um pouco a receita, então...
- no dia a dia a gente nem repara que a receita foi alterando aos poucos...
- é, pode ser... e a marina já sabe?
- sabe.
- e não me disse nada.
- pelo visto, ela não mudou muito...
e deu uma risada.

pegou pratos no armário, garfos, colocou sobre a mesa. guardanapos de papel, os copos de
cerveja e a tábua com a salsinha picada.
- vamos comer?
- ahã....

e ela se senta.
ele traz a panela e serve.
ela joga salsinha por cima da batata com cogumelos em seu prato e depois no prato dele.
ele coloca a panela de volta no fogão. se senta e diz: a gente é tão diferente, impressionante
a marina ter sobrevivido...
ela dá uma risada: vamos comer? tá com um cara ótima!

23 de outubro de 2012

palavra sem lugar

sobre os Guaranis Caiovás Ñe'ẽ – a palavra alma, da antropóloga Graciela Chamorro:
 
A palavra é a unidade mais densa que explica como se trama a vida para os povos chamados guarani e como eles imaginam o transcendente. As experiências da vida são experiências de palavra. Deus é palavra. (...) O nascimento, como o momento em que a palavra se senta ou provê para si um lugar no corpo da criança. A palavra circula pelo esqueleto humano. Ela é justamente o que nos mantém em pé, que nos humaniza. (...) Na cerimônia de nominação, o xamã revelará o nome da criança, marcando com isso a recepção oficial da nova palavra na comunidade. (...) As crises da vida – doenças, tristezas, inimizades etc. – são explicadas como um afastamento da pessoa de sua palavra divinizadora. Por isso, os rezadores e as rezadoras se esforçam para ‘trazer de volta’, ‘voltar a sentar’ a palavra na pessoa, devolvendo-lhe a saúde.(...) Quando a palavra não tem mais lugar ou assento, a pessoa morre e torna-se um devir, um não-ser, uma palavra-que-não-é-mais. (...) Ñe'ẽ e ayvu podem ser traduzidos tanto como ‘palavra’ como por ‘alma’, com o mesmo significado de ‘minha palavra sou eu’ ou ‘minha alma sou eu’. (...) Assim, alma e palavra podem adjetivar-se mutuamente, podendo-se falar em palavra-alma ou alma-palavra, sendo a alma não uma parte, mas a vida como um todo.

daqui

19 de outubro de 2012

vigilia

a mulher que por estes tempos dorme ao lado do caixa eletrônico passa os dias lendo.
as floriculturas continuam cheias de flores. estranhei. quando me aproximei vi que são flores artificiais.
agora chove. as árvores perdem as folhas, o mundo vai silenciando. como um fim de festa. se esquentar um pouco, será possível colher cogumelos.
para o dia de todos os santos, castanhas assadas, panellets e moscatel.

5 de outubro de 2012

outubros

nossos filhos nasceram em outubro. para mim outubro sempre foi primavera. mas o mundo é grande. onde um dia envelhece outro lugar amanhece. na grandeza do mundo também aprendo que é possível que as ruas sejam largas, que haja praças e todos se encontrem ao caminhar por elas. que não é preciso ter medo do medo do medo, sempre o medo. na minha cidade, aquela de onde venho e onde vivo, sei que tem sido difícil plantar uma horta, que nem todas as sementes brotaram como prometido, nem todas darão frutos enquanto ainda estivermos vivos. mesmo assim, confio no que se gesta no segredo da terra. é outono aqui, as folhas caem, mas vejam, aí, nesse momento: e tudo só está nascente.