11 de dezembro de 2012

receitas vegetarianas - como matar uma galinha

queria que esse cachorro fosse meu, pensou. alguém disse ele já é seu. entendeu que há muito seu pensamento não se continha espaço quintal próprio de pensamento e escapulia pelo buraco que se abria boca na cerca. é preciso mantê-la ocupada, a boca: palavra ou comida preenchem o vão. como ninguém disse nada, entendeu que ao abrir o portão pro pensamento o pensamento preferiu o galinhar em círculos o ciscar, ignorando o mundo fora.
uma galinha. percorreu o terreno com os olhos a mais gorda a nem tão velha. foi em sua direção como se passeio e a galinha a ciscar. buscou milho no cesto da porta da oficina e o milho quirera a se aproximar da galinha a galinha a se aproximar milho comida até que a ciscante ali próxima. então ele se abaixou e com a mão firme e segura num movimento rápido pegou a galinha pelos pés – os dois – e os pés dela presos entre os dedos dele de nós e ela nada. a galinha cabeça virada mundo abaixo nem se movia mais, esforço nenhum a olhar o mundo em seus olhos miúdos, nem um cisco.
pegou uma corda ali mesmo meio barbante, prendeu nos pés da galinha – os pés juntos – e logo a pendurou num galho da goiabeira onde nenhuma fruta. a galinha pendida, o sangue a se juntar na pequena cabeça a zonzear a galinha que já não cisca. alguém gritou pai, vai matar a galinha? ele pensou a lâmina lisa fio e firmeza no pescoço da galinha. o sangue a se esvair. e a galinha pendurada à espera. não respondeu.
cada vez que ela pedia preciso comprar umas roupas, e nunca, ainda que fosse, dizia calcinhas ou sutiãs, ele sabia, na palavra, que ela outra vez encantada­. para nenhum dos dois era fácil dizer coisas e só assim se diziam. como ela disse uma vez  nunca mais eu quero ir. ou nunca mais eu quero ver. e era um lugar que ela já tinha gostado tanto. agora nos olhos da galinha ele via o mesmo nunca mais quero de outras horas. eram muitos os nunca mais ao longo dos dias que viveram juntos.
galinha, por exemplo, não chora. seus olhos brilhantes são secos, ásperos e agudos. não há lágrimas nos olhos da galinha que pende da árvore. não há constatação do medo. vê o mundo do avesso e não se espanta? vê o mundo ou o mundo um conjunto de tons e cinzas que são terra e mato e sementes outra vez terra palha a juntar ninho. o que a galinha vê.
ele, quando pode, chora. por dentro também, e também os olhos, fora. vê a galinha e sua ausência de medo. as penas douradas quase. a pele sob a penugem. a espera. galinha pendida sobre o mundo. ele olha. também espera. não está pendido sobre o mundo? ou o mundo. o que ele vê além da galinha? os passos no quintal o cão que ele queria já sendo seu. o menino brincando nos blocos perto da oficina. a memória de uma filha quando era menina e esperava e buscava e brincava que era maior que o mundo. como ele agora. como a galinha que não se sabe mundo. ele espera. a galinha espera. a filha já não espera. ela também senhora de netos avó meio gorda e meio plácida de dedos todos doces. aquele menino ali, gerado no fio que ela, por ela, vida engendrada e espera.
sem notar, sabe que decide. pega a faca. rasca a faca na pedra grande de amolar. um lado. outro lado e ali o fio no metal. um frio a galinha pendida. a faca de lado e ele bate no pescoço da galinha para o sangue ainda mais pulsante, segura a cabeça e a puxa para o chão. na delicadeza, o estiramento de um arco a faca ponta flecha morte a disparar galinha. quando antevê, repensa. solta a cabeça da galinha, alivia o tenso do pescoço também dela. a galinha olha. quando uma galinha olha, um frango, um pinto que seja, a vida tem outro seguimento. nada de sangues a se derramar.
contempla a galinha ainda um tempo, depois desamarra a corda da goiabeira, desata os nós dos pés tortos e rudes e esporas da galinha que tonteia tonteia e por fim se equilibra na fronteira entre a espera a morte o movimento retomado o pé na terra. lá vai a galinha que segue galinha em circulação e sangue: um pé outro pé um cisco.
ele também rareia a mão no ar e vai buscar frescores na horta chuchus, abobrinhas, tomatinhos, cebolinhas, manjericões. e mornidões: uns ovos . se senta junto à mesa tosca e torta do puxadinho lá no fundo, a picar e picar coisas. depois, acende a boca de fogo única daquele fundo vazio de casa, e numa frigideira a frigir. o branco das cebolinhas em rodelas os tomates metades abobrinhas em fatias finas o chuchu pedacinhos e mais frigia. enquanto frigiam, batia os ovos e depois os acrescentava, revirava tudo, a frigir. depois o manjericão em seu aroma de verde inunda o mundo todo pensamento.
o menino vem para comer ao seu lado. mergulhado num  silêncio estranho de meninos.
dá uma garfada e sabe – meu pensamento já foi lobo devorando carneiros raposa comendo coelhos o gato um rato vaca pastando sol galinha ciscando o meu pensamento. meu pensamento.
o menino, uma garfada mastigando e outra já no ar a boca cheia olhos olhos diz: vô, aquela galinha ali ciscando, aquela galinha, ela sabia que ia morrer?

Um comentário:

Fabiana disse...

Apesar da margem de 2013, 2012 insiste e se demora a acabar. Nem consegui te escrever ainda, mas hei de, que as férias estão aí pra tecer costuras, reatar laços, lançar fios de palavras prum além mar que vai se estreitando. Muita saudade, muitas saudades. Beijo.