5 de março de 2013

receitas vegetarianas - arroz com folha de louro

uma medida de arroz integral em duas de água fria e salgada.

a última vez que alguém tinha me visto pela primeira vez sem roupa eu não tinha filhos, peitos caídos, pentelhos brancos. tudo o que eu não queria era que ela estivesse no vestiário. menos ainda que me dissesse: suas pernas são bonitas: a curva das coxas.
olhei. levantei os olhos. depois consegui levantar também o rosto.
fiquei assustada. que o meu olhar desaguava o meu corpo naquele dia ela não disse, mas disse: te vi na piscina, nadando, as braçadas lentas, o movimento, vi.
deixei ela falando comigo como se falasse sozinha, enquanto eu mergulhava naquela delicadeza de corredor de armários, tudo estreito, o chão um pouco molhado, pés, havaianas, toucas, maiôs. me cobri com a toalha curta, peguei minha calcinha pedindo socorro: socorro.

ela se vestiu em seu ritmo outro: sem a minha pressa: pus o vestido sequei os cabelos coloquei tudo na bolsa imensa e me despedi baixinho – tchau.

desde aquele dia ela me olha e sorri. desde aquele dia eu a vejo. e vejo seus olhos. luminosamente azuis.


acrescento alho, louro.

vou andando pela beira da calçada. não quero, mas é nela que penso. talvez nem seja  nela que eu pense, mas naquilo que um dia ela me disse. penso, mesmo: como pode alguém me dizer aquela coisa, uma, me achar bonita? nadar era bom. era estar num oculto, lugar de pensamento perdido. depois daquilo, nada. não sei mais onde me esconder. de mim? se tudo o que eu queria era ser piscina bem definida, raias, braçadas, o tempo cronometrado de um lado a outro outro lado a um, respiração pausada e nada. e agora.


quando começa a ferver, baixo o fogo, o mais baixo possível sem deixar romper fervura.

deixei de ir à piscina. mas sei que percorro a cidade querendo a coincidência de a encontrar. eu a procuro, eu a quero ver. outra e outra e outra vez. cada pedaço de rua cresce infinitas camadas sobrepostas de tempo e possibilidades. nelas, ninguém. ela não está. nelas permaneço eu mesma e o que se permite para mim: esta, que decido ser, que se surpreende por ser um corpo ainda capaz de despertar-se desejo. não a vejo.


espero que consuma toda a água, que seque bem.

vou ao mar. toda manhã, seguindo o equilíbrio tênue de uma beira de calçada, chego no mar. precisada desta imprecisa margem, deste confuso e doce deslimite entre areia água céu. contemplo o que cada um não é. contemplo o que cada um não sou. demoro-me. ainda me detenho em porquês e não decifro o como. meu professor de natação dizia: o oceano, mesmo no raso, não é para principiantes.


isso pode levar uns quarenta minutos, tranquilamente. com trinta, já estará cozido,

na beira procuro respostas, a cada dia reflito, muitos dias a querer organizar este  inorganizável. quando. quando um abismo - como uma névoa uma nuvem um orvalho – vem pousar nos meus cabelos. deposita-se em mim, toma-me, envolve-me toda e sou isso que diante de mim abismo eu abismo e, além do abismo, ela mar e o seu imensamente azul.

poderia saltar. de uma margem a outra: sobrepassá-lo abismo. poderia talvez me equivocar no salto e mergulhar nisso que permanece escuro. ou posso, em silêncios, pelas margens procurar apoios e pés e, pouco a pouco, um depois de um passo outro um longo e lento mergulho até o que parecer obscuro revelar-se o de dentro de uma caverna uma casa uma caixa, todos desde dentro riquezas, todos sustos antes, quando vistos de fora.

depois, amanheci um dia sem saber se me faltava nadar ou me faltava aquele olhar a me fazer ser existente. mesmo sem querer eu queria vê-la e querendo não queria que ela estivesse ali e se estivesse não me visse, vendo. naquela manhã, ela estava. ali, naquela beira que substituía minha piscina. como se não me visse. como se nada nunca mais me dissesse. então fui eu, disse: gosto de te ver. seus olhos outra vez. e outra vez eu soube que não saberia mais o que fazer.


se tostar o fundo, melhor.

tempos depois. acendi um cigarro e pensei. esperei a fumaça e pensei. bati a cinza no vento e pensei. se ela estivesse aqui, comigo, eu diria que queria, sim, como uma parede que se ergue à minha frente, queria suas mãos nas minhas. nas minhas mãos. seu olhar em mim meu olhar. sua pele. tocar. pensei. quando terminei o cigarro, enchi de vinho o copo sobre a mesa: a campainha: puxa, logo agora a vizinha. abri e.

no vão da porta o abismo se mostrava obscura caverna casa caixa desde dentro. ali, aquela que me olhava. eu, a que não sabia que ela vinha. éramos aquelas que.

estenderiam a mão, claro, para se alcançar (mas não) ela que também mulher olhava. ela e ela. uma a pensar no que a esperava a outra a pensar no que sim no que não, estender, sim, a mão e tocar, sim, sem querer mais uma espera outra e, no entanto, tanto uma tanto outra olhavam, em espera e pés, o fundo que era aquele abismo, na beira do qual, no meio do qual elas, duas, por fim, estavam.

2 comentários:

Denise disse...

Vim buscar o arroz com sabor de louro. A mesa estava posta. E me consumi na ceia. Não faltou o vinho, tampouco o cigarro. Agora posso descansar. Que o autor também descanse!

Fernando Amaral disse...

Pustaquelospariles múltiplos de texto lindo. Agora, quase sei fazer arroz.