21 de maio de 2013

receitas vegetarianas - cítrico e doce

amanheci triste. profundamente triste. nesta tristeza do que não sei compreender, tudo é frio. tenho frio. muito frio.
se você pudesse me ouvir eu pediria que me abraçasse. na medida desta tristeza que me toma. e se a minha mão o pudesse alcançar, eu o tocaria, minhas mãos em sua testa, em seu rosto, em sua nuca, seus ombros. tocaria seus ombros com essas mãos. e as mãos deslizantes - ambas - se fariam abraço. largo, lento, como o primeiro abraço do primeiro ser vivo que se soube sozinho.
então, abraçados, o tempo seria todo o tempo do mundo e no cortar laranjas, o sumo de cada gomo - que dentro tem um gomo que dentro tem um gomo? –  nos esquentaria no lento fogo do mesmo abraço que ainda. e no suco fervente da laranja, pedaços de chocolate um tanto amargo. e como é mesmo muito frio este inverno cítrico e doce, como é mesmo muito profunda esta tristeza, eu poria flocos de pimenta calabresa, pó de cardamomo. acrescentaria noz moscada que nos levaria por caminhos talvez labirintos talvez encruzilhadas - favelas feiras livres grandes avenidas. nem perdidos.
eu me deitaria e você se deitaria neste nós de um mesmo abraço, tudo agora tão aquecido, eu poderia  lágrimas deslizantes pelo meu rosto, como no último dia em que nos vimos. chorando, em silêncio e abraço, eu contaria tudo tudo o que passei e pensei pro futuro, o que eu poria nas malas se um dia eu me reduzisse. quantas? você perguntaria. e eu, chorando, diria não sei. não sei. não sei. porque eu não saberia. porque sem a sua mão o frio é tanto. e nesse tanto frio, eu precisaria de uma casa. dentro da casa um tapete. sobre o tapete um colchão. sobre o colchão um cobertor. e na lareira um fogo a aquecer. porque assim, triste, é muito muito profundo o frio.
e porque amanheci tão triste, de dentro da casa, onde o tapete o colchão o cobertor, se você pudesse me ouvir eu pediria. e no conforto do abraço eu estenderia a mão a colher a maçã que assa ao lado da brasa. cortaria a maçã ao meio, e então canela, e então metades, eu o alimentaria com o calor todo da noite e me aqueceria quando você dissesse e eu pudesse ouvir: veja, não precisa chorar, nem labirintos nem encruzilhadas, venha, vamos olhar o mar. que mar? eu perguntaria. que mar?
e se eu pudesse ouvir, você me diria.

4 comentários:

noemi disse...

saudades.

Tatiana Sandim disse...

tristes sentimos muito frio mesmo. um frio que vem de dentro. mas, também vem de dentro um calorzinho que nasce/cresce e nos aquece suavemente. é preciso encontrá-lo...

Queiroz disse...

) :

sinto a mesma coisa às vezes, inclusive agora.

Alvaro Vianna disse...

Ainda hoje comentava com uma outra grande amiga escritora que a boa literatura do nosso tempo está dispersa em blogues. Pode ser uma tese abusada. Fato é que cada vez que venho aqui não sinto a falta de ter ido à livraria.

bj