14 de junho de 2013

montanha e mar


(os dois extremos, irreconciliáveis como a água e o fogo:  a montanha  pura e que esconde entre suas dobras os caminhos da libertação / o mar impuro e sem caminhos; o espaço da definição / o espaço da indefinição:  a montanha e sua ondulação petrificada: a permanência / o mar e suas montanhas instáveis: o movimento e suas miragens; a montanha feita à imagem do ser, manifestação sensível do princípio de identidade, imóvel como uma tautologia / o mar que se contradiz sem cessar, o mar crítico do ser e de si mesmo)

octavio paz, o mono gramático
(tradução: lenora de barros e josé simão)

13 de junho de 2013

receitas vegetarianas - a catar feijões

depois de descer do barco, prender a corda, ajudar todo mundo a chegar no seco e voltar pro barco, o orelha disse: aquela mulher veio no mesmo ônibus que a gente.
virei de propósito para o lado contrário de onde ela estava e perguntei: que mulher, orelha?
ele explicou. não me perguntava nada. por isso nem contei que já tinha, mesmo, visto tomando café com leite, depois olhando a estrada que se estendia madrugada e escuro. nem falei pra ele dos homens que se aproximaram e que se afastaram. não disse do tempo que fiquei ao lado dela, em silêncio. o orelha ali ocupado em arrumar o barco antes que a noite chegasse falava pelos cotovelos e eu sem dizer que tinha procurado por ela. com que cara ele ia me olhar se eu dissesse que tinha sonhado com aquela que ele me perguntava? sonhava com a voz: eu dormia, ela se aproximava a dizer coisas, no escuro dos olhos fechados no sono dentro do sonho. de manhã, na boca, um gosto que não se explica, um gosto de coisas acontecidas que se depositam na pele de algumas pessoas. como casca de laranja.
nem no dia seguinte o orelha perguntou e por isso eu não contei que agora sabia onde ela vivia e ela sabia que eu sabia. talvez eu quisesse dizer daquele fim de tarde que tinha passado sentado em silêncio numa sombra no quintal enquanto ela, ali, lia. e que eu tinha gostado. mas não consegui dizer.
então, quando um dia finalmente o orelha perguntou, eu já não queria responder. desconversei. não falei da primeira vez que dormi deitado na rede na sombra quase dela. dei por mim, ela trazia uma  massa com molho fresco de alho no azeite, tomate picado e manjericão. dois pratos, dois garfos, dois copos. um vinho. comi, bebi. era um silêncio e era bom. como eu ia dizer pro orelha daquele silêncio que permanecia ao longo dos dias? e o jantar sempre outro. espaguete com azeite e muito alho. parafuso ao molho de cebola frita, creme de leite e alecrim. talharim com molho de manjericão. gravatinha com abobrinha ralada e iogurte. cabelo de anjo com azeitonas picadas e parmesão. rúcula. queijos. o orelha, se soubesse, eu sei, diria: ninguém pode viver só de macarrão. mesmo sendo um pensamento do orelha, não dava pra não concordar.
no dia que cheguei carregando arroz feijão ovo queijo tomate almeirão, cerveja, palmito, ela  me seguiu até a cozinha, desconcertada. ficou parada no batente, cara de espanto. ela saiu. eu fiquei. coloquei uma medida de feijão catado e lavado para cozinhar na panela de pressão com três medidas de água e uma folha de louro. quarenta minutos. coloquei no forno já quente o palmito cortado ao meio, com azeite. cinquenta minutos. lavei e escorri o arroz. descasquei alho, lavei o maço de salsinha. lavei o almeirão e os tomates cortei em gomos. comecei a ralar o queijo que se misturaria aos ovos.
ela voltou. viu a tábua com a faca. sobre a pia viu o alho. viu a salsinha. picou o alho miudinho. picou com calma. juntou-o num canto da tábua. começou a picar a salsinha. nunca eu tinha visto alguém chorar com salsinha. ela, chorava.
contra tudo o que não tinha sido dito, naquele choro, me aproximei e a abracei. esperei ela se virar e virar um abraço de dois. no meu abraço ela soube a minha fome. no seu abraço, eu. depois ela se afastou. enxugou os olhos. abraço desfeito, eu sentia nos fios ocultos o tecido de um outro (novo) silêncio. e outra vez ela saiu.
também saí. me sentei na sombra, perto dela, que não lia, esperando o tempo dos tempos. chegou o tempo do feijão e voltei pra cozinha: fritei parte do alho juntei os grãos cozidos, depois seu caldo e acrescentei o sal. deixei ferver. noutra panela refoguei mais alho, uma medida de arroz, duas de água salgada e deixei em fogo bem baixo. temperei o almeirão e o tomate em salada. com o tempo do arroz chegou também o tempo do palmito. tirei do forno e sobre ele manteiga e muita, muita salsinha em águas. devolvi ao forno já desligado e ainda quente. por fim, o tempo dos ovos: mexidos no azeite. queijo de coalho ralado grosso por cima. tampei. esperei derreter. há tempos sutis. como eu poderia explicar também isso pro orelha?
levei pratos talheres e comidas pra mesa. copos e cerveja. a comida era quente e farta. a cerveja gelada. ela comeu. eu comi. ficou noite. eu fiquei.
sabia, então, que poderia contornar aquela mulher e eu a contornei. conheci a pele. os desertos. minhas mãos percorrendo também  lágrimas. depois, bem depois dos escuros e dos claros clarões de um relâmpago que estremece e anuncia, ouvi, enfim, a voz: um grito. e outra vez o silêncio e outra vez o silêncio era novo (e outro). abracei. meu corpo latejante. demorei pra dormir.
amanheceu chuvoso. esse novo silencio transbordava o mundo. fiz café e saí. ela dormia. seria um dia sem barco, sem turista, sem pergunta do orelha. o dia passaria compasso.
estatelado no sofá, esperava que as horas chegassem e o tempo decidisse por mim. ouvi o portão e os cachorros latindo. fingi dormir pra não ter que explicar aquilo. quem entrou fechou a porta e trancou. não era o orelha. ela, ali, a tirar o vestido. ela, ali, a beijar meus olhos, minha boca. ela, toda ela, beijava meu peito, meu ventre. me acariciava e me abraçava. como quem quer, sem querer, me acordar. eu, desperto, e ela, toda, ali, à minha volta, ela, aqui, eu, em seu dentro, ela, ali, eu, aqui, em volta.
o dia.
quando o orelha chegou, viu o papel sobre a mesa da cozinha. um desenho, uma palavra. e mesmo que isso, que nada disso eu explicasse, ainda que eu nem, como sempre, ele disse: já entendi tudo. e como podia? justo o orelha? dessa vez, guardei o papel e sorri.

3 de junho de 2013

exercícios de aprender a viver



eu dizia não chore.
depois: ao falar para multidões lembre-se também do seu pé sobre a face da terra.
ou pense no que somos todos, tubos de fazer bosta.
quando for, bata o pó. deixe água em seu lugar.
eu também dizia não demore.

e eu também me dizia não chore.
e eu também me alertava sobre o pé, o pó, a bosta.
sobre a água que ficaria no meu lugar.
quando o  cachorro late, late e seus olhos amarelos me olham muito de perto, a natureza humana se dilui na multidão viva que como uma crosta cobre a terra ferida.
e eu digo não chore, não chore agora.
não chore depois.

1 de junho de 2013

receitas vegetarianas - eugenia uniflora l.


para patrícia e sua tortilha
ninguém que bate a porta leva a chave se não pensa em voltar e por isso ela esperou a primeira noite enquanto a chuva fina deixava o asfalto brilhante e os pneus dos carros chiavam gotas pequenas para o ar iluminado pelos postes e esperou de manhã enquanto fazia o café e batia o kefir com goiabas ou bananas ou pitangas e passava manteiga no pão ou no bolo ou na bolacha e também esperou enquanto escovava os dentes ou os cabelos e se vestia ou se calçava e saía e ainda esperava enquanto os dias transcorriam sim senhor ou não senhor ou a senhora vai querer o quê? aceitam um cafezinho? ou mais alguma coisa? ou posso trazer a conta? e na espera seus pés doíam ou inchavam e seus pés descansavam ou desinchavam para no outro dia outra vez à espera de outra volta na roda dentada do tempo a lembrá-la que ninguém bate a porta e leva a chave quando não pensa em voltar.
porque não se leva a chave quando não se quer voltar, ela esperou. a espera era um áspero paralisante contrário ao respirar trazedor de tempestade para o amplo do peito, dentro. ela. por muitos, muitos dias sol, e outros muitos dias vento, esperou, que ele entrasse e dissesse, e ele não vinha não entrava e nada dizia, a porta batida depois da discussão, o mesmo tema, sempre o mesmo tema, mas a cópia da chave permanecia naquelas mãos, ele voltaria e diria ao menos uma vez mais que a amava, porque ninguém leva a chave quando não pensa em voltar, e ela seguiu esperando no ônibus em seu trajeto sacolejante lento trânsito caótico, no restaurante que enchia e esvaziava, nas mesas onde o vinho se derramava como um lapso, um gesto mal calculado, lágrimas se juntavam e ela chorava, quase,  à espera, a espera distendida, ruminante espera, de um ir e vir sem alegrias, a espera que engendra o medo daquilo que nunca se realiza, ela seguia esperando no tempo das chuvas outra vez, e outra vez as noites secas, e outra vez dias de festas e outra vez frio nos caminhos e frutas amassadas nas calçadas vassouras e paina em algodão, uma outra vez pitangas verdes amarelas vermelhas negras, e ela, em sua espera, recolhida como um bicho de fruta que junto à semente também espera – ela – diluída na polpa resinosa da pitanga, juntando-se em tentativas de açúcar, trêmula geleia desencantada sem esquecer que não, que não se leva a chave quando não se quer voltar.
porque quem leva a chave pretende voltar, na longa espera, seu primeiro livro encontrou entre velhas pastas guardadas do tempo da escola. depois se seguiram outros que achava em cantos da casa antes esparsos e então arrumados em estante depois de lidos. e vieram os emprestados os doados os abandonados uns poucos comprados com referências. a espera preenchida de letras na leitura, a espera sem tempo que gestava a felicidade de acreditar que quem leva a chave pretende voltar.
numa larga prateleira da livraria incompleta, a chave. junichiro tanizaki. cento e tantas páginas. o nome no papel ela olha e confirma. ao estender a mão para o pequeno exemplar vermelho como as pitangas, uma outra mão – tão calma – se aproxima e pega o livro e ela sem esperar– ai! – ele olha, ela diz: eu peço pro livreiro buscar outro. entre sem graceza e timidez ele diz: não, fica você com esse. e logo os dois constrangidos e o livreiro diz lamento muito eu sinto é uma pena só temos um exemplar mas posso deixar anotada uma reserva em nome de quem? os dois dizem seus nomes e porque simultâneo ninguém entende e mais constrangimento e um sorriso e ele repete fica com este e finalmente ela diz que sim e ele volta a dizer o nome e um número para que se possa anotar e ponto. volta a ver livros numa prateleira outra qualquer.
então ela pagou o livro, segurou a chave como um escudo e foi até o homem que olhava outros livros. sem preâmbulo disse é pra você, de presente – e as mãos se tocaram um susto – ele agradeceu dizendo que era muita delicadeza da parte dela mas que não precisava. e ela respondeu que sabia que não precisava era porque queria, que o aceitasse. ele então aceitou e agradeceu novamente e sorriu e saiu levando a chave, e mal dando tempo para qualquer espera ele voltou e perguntou se ela aceitaria um café. ela olhou o relógio sem ver a hora, ele acrescentou não quero incomodar. ela respondeu que aceitava, sim, que podia, lembrando que era sexta, que o dia seguinte folga,talvez tempo de reduzir sua louca espera já quase esparsa, mas a chave: ninguém leva se.
antes de entrar em casa, sob a mornidão do sol, a pitangueira em flor, pétalas, abelhas. subiu as escadas, abriu a porta e viu: sobre a mesa um papel: leu: releu. e outra vez e mais uma, até saber de cor o que estava escrito ali, até saber aquela declaração, aquele amor, aquela declaração de amor. ela tinha esperado tanto. agora sabia que estava certa: quem leva a chave...
a chave!estou fodida.
se levantou aflita, e aflita foi até uma gaveta onde milhares de pequenos papéis como pássaros da sorte quase revoavam, e ela à procura, à procura. até separar um deles, até levar esse um separado em letra miúda à luz da janela. até teclar. até respirar. fundo.
alô, bom dia... preciso muito trocar uma fechadura... é ... é urgente, pode ser?