13 de junho de 2013

receitas vegetarianas - a catar feijões

depois de descer do barco, prender a corda, ajudar todo mundo a chegar no seco e voltar pro barco, o orelha disse: aquela mulher veio no mesmo ônibus que a gente.
virei de propósito para o lado contrário de onde ela estava e perguntei: que mulher, orelha?
ele explicou. não me perguntava nada. por isso nem contei que já tinha, mesmo, visto tomando café com leite, depois olhando a estrada que se estendia madrugada e escuro. nem falei pra ele dos homens que se aproximaram e que se afastaram. não disse do tempo que fiquei ao lado dela, em silêncio. o orelha ali ocupado em arrumar o barco antes que a noite chegasse falava pelos cotovelos e eu sem dizer que tinha procurado por ela. com que cara ele ia me olhar se eu dissesse que tinha sonhado com aquela que ele me perguntava? sonhava com a voz: eu dormia, ela se aproximava a dizer coisas, no escuro dos olhos fechados no sono dentro do sonho. de manhã, na boca, um gosto que não se explica, um gosto de coisas acontecidas que se depositam na pele de algumas pessoas. como casca de laranja.
nem no dia seguinte o orelha perguntou e por isso eu não contei que agora sabia onde ela vivia e ela sabia que eu sabia. talvez eu quisesse dizer daquele fim de tarde que tinha passado sentado em silêncio numa sombra no quintal enquanto ela, ali, lia. e que eu tinha gostado. mas não consegui dizer.
então, quando um dia finalmente o orelha perguntou, eu já não queria responder. desconversei. não falei da primeira vez que dormi deitado na rede na sombra quase dela. dei por mim, ela trazia uma  massa com molho fresco de alho no azeite, tomate picado e manjericão. dois pratos, dois garfos, dois copos. um vinho. comi, bebi. era um silêncio e era bom. como eu ia dizer pro orelha daquele silêncio que permanecia ao longo dos dias? e o jantar sempre outro. espaguete com azeite e muito alho. parafuso ao molho de cebola frita, creme de leite e alecrim. talharim com molho de manjericão. gravatinha com abobrinha ralada e iogurte. cabelo de anjo com azeitonas picadas e parmesão. rúcula. queijos. o orelha, se soubesse, eu sei, diria: ninguém pode viver só de macarrão. mesmo sendo um pensamento do orelha, não dava pra não concordar.
no dia que cheguei carregando arroz feijão ovo queijo tomate almeirão, cerveja, palmito, ela  me seguiu até a cozinha, desconcertada. ficou parada no batente, cara de espanto. ela saiu. eu fiquei. coloquei uma medida de feijão catado e lavado para cozinhar na panela de pressão com três medidas de água e uma folha de louro. quarenta minutos. coloquei no forno já quente o palmito cortado ao meio, com azeite. cinquenta minutos. lavei e escorri o arroz. descasquei alho, lavei o maço de salsinha. lavei o almeirão e os tomates cortei em gomos. comecei a ralar o queijo que se misturaria aos ovos.
ela voltou. viu a tábua com a faca. sobre a pia viu o alho. viu a salsinha. picou o alho miudinho. picou com calma. juntou-o num canto da tábua. começou a picar a salsinha. nunca eu tinha visto alguém chorar com salsinha. ela, chorava.
contra tudo o que não tinha sido dito, naquele choro, me aproximei e a abracei. esperei ela se virar e virar um abraço de dois. no meu abraço ela soube a minha fome. no seu abraço, eu. depois ela se afastou. enxugou os olhos. abraço desfeito, eu sentia nos fios ocultos o tecido de um outro (novo) silêncio. e outra vez ela saiu.
também saí. me sentei na sombra, perto dela, que não lia, esperando o tempo dos tempos. chegou o tempo do feijão e voltei pra cozinha: fritei parte do alho juntei os grãos cozidos, depois seu caldo e acrescentei o sal. deixei ferver. noutra panela refoguei mais alho, uma medida de arroz, duas de água salgada e deixei em fogo bem baixo. temperei o almeirão e o tomate em salada. com o tempo do arroz chegou também o tempo do palmito. tirei do forno e sobre ele manteiga e muita, muita salsinha em águas. devolvi ao forno já desligado e ainda quente. por fim, o tempo dos ovos: mexidos no azeite. queijo de coalho ralado grosso por cima. tampei. esperei derreter. há tempos sutis. como eu poderia explicar também isso pro orelha?
levei pratos talheres e comidas pra mesa. copos e cerveja. a comida era quente e farta. a cerveja gelada. ela comeu. eu comi. ficou noite. eu fiquei.
sabia, então, que poderia contornar aquela mulher e eu a contornei. conheci a pele. os desertos. minhas mãos percorrendo também  lágrimas. depois, bem depois dos escuros e dos claros clarões de um relâmpago que estremece e anuncia, ouvi, enfim, a voz: um grito. e outra vez o silêncio e outra vez o silêncio era novo (e outro). abracei. meu corpo latejante. demorei pra dormir.
amanheceu chuvoso. esse novo silencio transbordava o mundo. fiz café e saí. ela dormia. seria um dia sem barco, sem turista, sem pergunta do orelha. o dia passaria compasso.
estatelado no sofá, esperava que as horas chegassem e o tempo decidisse por mim. ouvi o portão e os cachorros latindo. fingi dormir pra não ter que explicar aquilo. quem entrou fechou a porta e trancou. não era o orelha. ela, ali, a tirar o vestido. ela, ali, a beijar meus olhos, minha boca. ela, toda ela, beijava meu peito, meu ventre. me acariciava e me abraçava. como quem quer, sem querer, me acordar. eu, desperto, e ela, toda, ali, à minha volta, ela, aqui, eu, em seu dentro, ela, ali, eu, aqui, em volta.
o dia.
quando o orelha chegou, viu o papel sobre a mesa da cozinha. um desenho, uma palavra. e mesmo que isso, que nada disso eu explicasse, ainda que eu nem, como sempre, ele disse: já entendi tudo. e como podia? justo o orelha? dessa vez, guardei o papel e sorri.

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