1 de junho de 2013

receitas vegetarianas - eugenia uniflora l.


para patrícia e sua tortilha
ninguém que bate a porta leva a chave se não pensa em voltar e por isso ela esperou a primeira noite enquanto a chuva fina deixava o asfalto brilhante e os pneus dos carros chiavam gotas pequenas para o ar iluminado pelos postes e esperou de manhã enquanto fazia o café e batia o kefir com goiabas ou bananas ou pitangas e passava manteiga no pão ou no bolo ou na bolacha e também esperou enquanto escovava os dentes ou os cabelos e se vestia ou se calçava e saía e ainda esperava enquanto os dias transcorriam sim senhor ou não senhor ou a senhora vai querer o quê? aceitam um cafezinho? ou mais alguma coisa? ou posso trazer a conta? e na espera seus pés doíam ou inchavam e seus pés descansavam ou desinchavam para no outro dia outra vez à espera de outra volta na roda dentada do tempo a lembrá-la que ninguém bate a porta e leva a chave quando não pensa em voltar.
porque não se leva a chave quando não se quer voltar, ela esperou. a espera era um áspero paralisante contrário ao respirar trazedor de tempestade para o amplo do peito, dentro. ela. por muitos, muitos dias sol, e outros muitos dias vento, esperou, que ele entrasse e dissesse, e ele não vinha não entrava e nada dizia, a porta batida depois da discussão, o mesmo tema, sempre o mesmo tema, mas a cópia da chave permanecia naquelas mãos, ele voltaria e diria ao menos uma vez mais que a amava, porque ninguém leva a chave quando não pensa em voltar, e ela seguiu esperando no ônibus em seu trajeto sacolejante lento trânsito caótico, no restaurante que enchia e esvaziava, nas mesas onde o vinho se derramava como um lapso, um gesto mal calculado, lágrimas se juntavam e ela chorava, quase,  à espera, a espera distendida, ruminante espera, de um ir e vir sem alegrias, a espera que engendra o medo daquilo que nunca se realiza, ela seguia esperando no tempo das chuvas outra vez, e outra vez as noites secas, e outra vez dias de festas e outra vez frio nos caminhos e frutas amassadas nas calçadas vassouras e paina em algodão, uma outra vez pitangas verdes amarelas vermelhas negras, e ela, em sua espera, recolhida como um bicho de fruta que junto à semente também espera – ela – diluída na polpa resinosa da pitanga, juntando-se em tentativas de açúcar, trêmula geleia desencantada sem esquecer que não, que não se leva a chave quando não se quer voltar.
porque quem leva a chave pretende voltar, na longa espera, seu primeiro livro encontrou entre velhas pastas guardadas do tempo da escola. depois se seguiram outros que achava em cantos da casa antes esparsos e então arrumados em estante depois de lidos. e vieram os emprestados os doados os abandonados uns poucos comprados com referências. a espera preenchida de letras na leitura, a espera sem tempo que gestava a felicidade de acreditar que quem leva a chave pretende voltar.
numa larga prateleira da livraria incompleta, a chave. junichiro tanizaki. cento e tantas páginas. o nome no papel ela olha e confirma. ao estender a mão para o pequeno exemplar vermelho como as pitangas, uma outra mão – tão calma – se aproxima e pega o livro e ela sem esperar– ai! – ele olha, ela diz: eu peço pro livreiro buscar outro. entre sem graceza e timidez ele diz: não, fica você com esse. e logo os dois constrangidos e o livreiro diz lamento muito eu sinto é uma pena só temos um exemplar mas posso deixar anotada uma reserva em nome de quem? os dois dizem seus nomes e porque simultâneo ninguém entende e mais constrangimento e um sorriso e ele repete fica com este e finalmente ela diz que sim e ele volta a dizer o nome e um número para que se possa anotar e ponto. volta a ver livros numa prateleira outra qualquer.
então ela pagou o livro, segurou a chave como um escudo e foi até o homem que olhava outros livros. sem preâmbulo disse é pra você, de presente – e as mãos se tocaram um susto – ele agradeceu dizendo que era muita delicadeza da parte dela mas que não precisava. e ela respondeu que sabia que não precisava era porque queria, que o aceitasse. ele então aceitou e agradeceu novamente e sorriu e saiu levando a chave, e mal dando tempo para qualquer espera ele voltou e perguntou se ela aceitaria um café. ela olhou o relógio sem ver a hora, ele acrescentou não quero incomodar. ela respondeu que aceitava, sim, que podia, lembrando que era sexta, que o dia seguinte folga,talvez tempo de reduzir sua louca espera já quase esparsa, mas a chave: ninguém leva se.
antes de entrar em casa, sob a mornidão do sol, a pitangueira em flor, pétalas, abelhas. subiu as escadas, abriu a porta e viu: sobre a mesa um papel: leu: releu. e outra vez e mais uma, até saber de cor o que estava escrito ali, até saber aquela declaração, aquele amor, aquela declaração de amor. ela tinha esperado tanto. agora sabia que estava certa: quem leva a chave...
a chave!estou fodida.
se levantou aflita, e aflita foi até uma gaveta onde milhares de pequenos papéis como pássaros da sorte quase revoavam, e ela à procura, à procura. até separar um deles, até levar esse um separado em letra miúda à luz da janela. até teclar. até respirar. fundo.
alô, bom dia... preciso muito trocar uma fechadura... é ... é urgente, pode ser?

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