27 de setembro de 2013

das coisas mais doces que um homem pode ouvir e comer em sua curta vida

desdobrou o mapa. abriu. abriu novamente e mais uma vez até cobrir a mesa toda. no intrincado de caminhos que pareciam artérias e ondulações que sugeriam planaltos e planícies, ele disse: você está aqui. e apontou com o dedo: o onde eu estava era um ponto. se o lugar era quase invisível, eu era um nada. um suspiro na vastidão.
perguntei das estradas, as condições. ele explicou com calma, naquela luz oscilante, que não era claro se seria possível passar nas partes mais próximas ao rio, ali onde ele se expande. chovia. chovia sem parar. o frio. o argiloso. ardiloso. ácido.
meu olhar caiu desconsolado sobre o mapa, ele me propôs que eu passasse a noite ali, dormisse, no dia seguinte, seria sempre outro dia. aquilo era, por fim, uma coisa doce naquelas últimas horas. eu precisava. e aceitei.
ele me mostrou um quarto, que era uma espécie de depósito, com uma velha mesa de pebolim abandonada, um violão sem cordas, uma poltrona, caixas de conteúdos inexatos. entre a porta e o amontoado, uma cama, que me esperava desde sempre. depois ainda disse: tome uma ducha, se quiser. o banheiro é no final do corredor, já arrumo uma toalha.
saí do banho, a roupa era a mesma mas tudo agora aquecido. e bom. ouvi me chamar e o som vinha da sala onde antes o mapa sobre a mesa. agora, uma sopa grossa de abóbora. três pratos. colheres. faca. pão, manteiga numa vasilha com água. copos. vinho tinto. me apresentou a mulher. que me sorriu. e perguntou. e perguntou. e perguntou enquanto eu respondia, respondia, respondia. depois eles também contaram. e eu perguntei. e logo perguntas, histórias e respostas se confundiam no calor da sopa e do pão. lá fora chovia.
ele tirou os pratos, a panela, as colheres, a faca. ela e eu continuamos desfiando conversas que somos mais capazes com desconhecidos, numa noite fria e chuvosa, num lugar quase inexistente do mapa. ele voltou da cozinha trazendo quindins: amarelos-gema em pequenos pires brancos: como se ovos fritos em doçura. a doçura.
comi o primeiro. enquanto comia em êxtase perguntei – apenas para distraí-la – como se faz quindins assim? e ela me falou, quase num sussurro, de ovos, de separar as gemas, de açúcar fino pó, me falou de coco ralado e úmido. manteiga. eu ouvia, a chuva, a sala em luz obscura, eu via, um ponto no mapa que cresce. eu crescia também.
aos poucos, a doçura fazia fundir aquele cheiro de terra molhada ao vapor antigo da bosta das vacas que a gente pisava no curral, a memória vaga de um cuidado, de uma alegria, de uma solidão, da sombra oscilante de uma lamparina no copo com água no canto do quarto, a madrugada despontando em mugidos. lembrança de pecados e medos espalhados ao pé da cama.
nas mãos de pele fina riscada, as veias como um intrincado de estradas, sobreposição de mapas. o movimento que fazia para dizer em gestos o ralar bem fino o coco, o misturar ao açúcar, à manteiga. um creme. o peneirar as gemas a desviar com delicadeza a película que as envolve. o mexer e remexer, até a consistência de uma gemada.  e quando já comia o terceiro quindim, tudo em mim se perdoara, toda a dor. e ela a insistir nas forminhas: preencha, preencha cada uma, até a boca, sem medo: a chuva sempre preenche os rios. e só às vezes eles vazam.

Nenhum comentário: