12 de setembro de 2013

receitas vegetarianas - que me faça andar



o medo, mãe, me paralisa. mãe, me dá uma comida que me faça andar?
meu filho, se há um penhasco às suas costas e um mar desconhecido à sua frente: espera, respira. não há mágica. que a vida siga seu curso.
esse fluir, mãe, preciso disso, que deixe fluir: que comida, mãe, transforma o mundo?
que mundo, meu filho, que mundo? o tanto de mundo que nos cabe é a vida vivida no fluxo, é essa respiração.
mas eu tenho medo, mãe, não consigo me acalmar. meus ouvidos doem.
ouça, ouça este nada, meu filho, o som do mar cada vez mais distante. ouça. o que pode se alimentar de distâncias e contemplações. coma silêncios, meu filho, comidas longas, que esperam no escuro, que esperam no fundo da terra, suspensas no tempo. coma, meu filho, o que sabe esperar sem medo.
uma comida assim, mãe, me dá?
uma polenta, meu filho. porque o milho, veja, os longos colmos a se abrir folhas, uma grama gigante. corredores esvoaçantes é o milharal. o pendão cresce sincronizado com os estigmas e as chuvas: cada pequena futura semente se liga em medo e fio à espera de um pólen, cabelos verdes avermelham e se alongam, estiram-se: pensa se cada uma não espera ávida? em terra seca, nada de grãos. e de nada adiantaria esse um fio, esta esperança. depois, pensa o grão seco: pilão, grão moído, fino, fubá. o medo que morava no grão. a suavidade que é ser fubá. pensa, meu filho, pensa. a água fervente e salgada. mistura o fubá macio com água – fria - e despeja esse creme, devagar para que ferva e permaneça fervente por uma hora, devagar, lento, como um abraço que também afasta o medo. não se esqueça: no fim de tudo, manteiga, que derreta.
a doçura amaina o medo, mãe? faz um bolo de fubá pra mim. doce e cremoso, faz?
meu filho, que doçura? se até os loucos têm medo. o medo preserva a vida como uma faca que se saiba usar. o medo é que dá coragem. sangue farto, gesto rápido e forte, resistência à dor. procure, aí dentro, esse bicho que grita, que relincha, revira, que bate os cascos.
esse bicho sou eu, mãe, fragilidade e ossos, ele não sabe seguir.
sabe, meu filho, esse bicho sabe seguir, e também morde, e mata, e nos faz perigosos. monte-o, meu filho, desmonte-se. entre na floresta escura do seu medo. deixe as armas sobre a mesa.
a faca, mãe, a faca eu sei usar.
com delicadeza, meu filho, não esse cavalo enlouquecido, esse fogo nos olhos. a fúria que ele contém.
a faca, mãe. uma comida que me faça andar.
ali, no chão, procure. os cogumelos não são aquilo que você vê. mas, agora,  procure o que se pode ver, essa quase floração de umidade e calor. uma floração inexata, busque, entre húmus e folhas secas. cuide dos seus passos, dos gestos impensados, não arranque o fino fio que desde baixo os sustém: estrutura que dorme invisível no fundo da terra, no fundo da matéria que orgânica vive sem a gente se dar conta, meu filho, e, mais que tudo, não se confunda, não traga veneno em vez de comida. ali será quase escuro, os olhos se acostumam, todos os sentidos, as mãos. enquanto esporos voam, se esparramam, e novos fios invisíveis sob a terra criarão novas teias, pequenas fissuras. as cores, a forma, meu filho, esteja atento. não arranque, corte, corte delicadamente. esta sua faca. e volte.
...
mãe, eu trouxe, veja. meu medo capturado desde o antigo, e trouxe os cogumelos, lindos.
alguns são venenosos, meu filho.
foi a pressa, mãe, a fome do que me tire o medo.
não tenha pressa, meu filho, espere abrir-se cada momento. não se avança cegamente.
era o escuro, mãe.
era o medo, filho. ponha a panela de ferro no fogo, que esquente. dentro, os cogumelos lavados e sem galhos sem musgos sem restos da terra de onde vieram. e só estes, que não nos fazem mal. depois sal. veja, soltam água, perdem toda a água que trouxeram da umidade das florestas. persevere, meu filho. depois azeite, alho, salsinha. se quiser cebola, se quiser uma pimenta, se quiser, com a polenta, um creme de leite, leve, fresco. quente. porque os mamíferos são esta paciência. não obstrua caminhos, meu filho, não deixe o medo, e ao mesmo tempo, filho, deixe.
...
mãe...

diga, meu filho...

Um comentário:

Fabiana disse...

Ai, que de vez em quando a gente precisa, precisa mesmo alimentar a coragem e mover os pés. E aprender, como se fosse lição que é preciso manter o medo por perto - redea curta, laço no pescoço pra gente ir com cuidado, mas ir. Adorei a receita. Tão inusitado shitake com polenta. Aqui em casa, a intensidade realçada pelo insosso: goham, sem sal. E o shitake na manteiga, depois cebolinha.
Beijos, corajosos.