9 de outubro de 2013

aula de voo




O conhecimento
caminha lento feito lagarta.
Primeiro não sabe que sabe
e voraz contenta-se com o cotidiano orvalho
deixado nas folhas vividas das manhãs.

Depois pensa que sabe
e se fecha em si mesmo:
faz muralhas,
cava trincheiras,
ergue barricadas.
Defende o que pensa saber
levanta certezas na forma de muro,
orgulhando-se de seu casulo.

Até que maduro
explode em voos
rindo do tempo que imaginava saber
ou guardava preso o que sabia.
Voa alto sua ousadia
reconhecendo o suor dos séculos
no orvalho de cada dia.

Mesmo o voo mais belo
descobre um dia não ser eterno.
É tempo de acasalar:
voltar à terra com seus ovos
à espera de novas e prosaicas lagartas.

O conhecimento é assim:
ri de si mesmo
e de suas certezas.
É meta da forma
metamorfose
movimento
fluir do tempo
que tanto cria como arrasa

a nos mostrar que para o voo
é preciso tanto o casulo
                  como a asa.

(Mauro Luis Iasi)

7 de outubro de 2013

teoria das superfícies mínimas


no momento mesmo em que me catalogaram - você é uma mulher boa - tudo ficou perdido, todo mito, nesta definição de ponta de dedos, boca nenhuma. e o todo se tornou fracasso: um fracasso leve aéreo, fracasso aerado, musse quase suflê, a bondade em pequenas bolhas esparsas. dentro de cada bolha o oco. a bondade, ali, onde você não se diz. mas alguém sempre se diz. alguém se deixa existir. no colorido das bolhas, o conflito entre ondas de luz antes brancas que se refletem entram ressurgem na superfície, que se constroem e se destroem milhares de tons em incidências desproporcionais ao atravessar a fina pele da parede daquilo onde nada há.
abro o enorme catálogo, entre as últimas letras do alfabeto, vejo a foto: eu, boa mulher que me dizem, na mão escondo uma faca, entre os dentes, as unhas são garras, no anel, veneno, no meu olho cavo a bolha da bondade se esfuma, se esvanece, murcha.
sem luz.
as bolhas do plástico bolha que envolve o catálogo de fracassos me distraem dos meus horrores, da minha incapacidade de olhar o mundo e ver. o mundo. enquanto me distraio e não vejo, pequenas bolhas vazias buscam entre sais e ácidos a menor área para tanto volume nenhum. e me esvaio - líquido pingo - entre as páginas o que não se sabe que sou. lanço o outro aos infernos, querendo, boba, ir direto ao céu. mas é na terra que se firma os pés e bem ali se põe as mãos, alguém diz, sem ser iridescências nasço avessos de escuridão.