6 de novembro de 2013

além do horizonte



escalo a cerca: sete metros
escalo outra: outros metros
subo e desço
mais uma cerca e caio
perco pés e quase
braços
noção
movimento
quase perco aquilo que penso
não ter e quero ganhar
a vida:
por ela me escondo
bicho na gruta no dia
para ganhá-la
não há quem venha me alimentar
bicho
quem venha me salvar
bicho
deste escuro
deste medo
desta fome
deste abismo
que não quero estas cercas
que me separam do paraíso
eu e minha multidão
meu abandono
eu o invisível que somos sem lugar
que por tudo isso
arrisco me escondo
enfrento
para viver escalo: sete metros
a multidão segue: outros metros
subo e desço
mais uma e caio
perco os pés e grito
que neste silêncio sigam
e por um momento - um curto momento -
já sei morrer

2 comentários:

veronika paulics disse...

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,a-muralha-europeia-contra-imigrantes,1092663,0.htm

Fabiana disse...

às vezes a dor vira palavra e beleza, mas não distrai do que continua latejando e sangrando; ao contrário: o fixa, para que não perca a (im)potência da novidade. não foi a noemi que disse, ainda há pouco, que depois no ininimaginável acontecer, talvez só seja possível escrever poemas?
beijos.
(acho que te vi hoje, rapidinho. mas você não me viu).