10 de dezembro de 2013

quase nada anda a pé




















quase nada, dos irmãos fábio moon e gabriel bá (10 pãezinhos), são tiras de pura poesia. este é o quase nada no.240. no blogue deles (http://10paezinhos.blog.uol.com.br/) pode-se acompanhar não só as tiras publicadas mas também os caminhos por onde eles andam, os processos de criação, etc. é deles também o lindíssimo daytripper.

9 de dezembro de 2013

prestar atenção, nascer



Lo que queda
-tan poco ya-
sería suficiente
si durase.
(angel gonzalez)

todas as noites ia dormir dizendo que não fumaria mais. nada de cigarros. nem um cigarro. e todas as manhãs, ao se levantar, vestia o casaco, preparava um café e só depois de terminado o primeiro cigarro ou ao acender o segundo e ouvir dúvidas é que se lembrava da decisão da noite anterior. sobrevinha  um incômodo, depois voltava uma certa tranquilidade: pararia. sem dúvida, pararia. não agora. pausa.

enquanto fumava dizia para si mesmo que aquele seria um dia enfim sozinho, que não se exporia a trazer alguém para sua casa, sua  cama. que se permitiria um dia sem querer ser amado. e sobreviveria a isso. porque sempre depois do tal fazer amor sem amor, nem as pernas pareciam bonitas, os peitos, os gestos, a bunda, os olhos, nem o nome soava conhecido, nada o interessava. o amor que ele buscava ao prometer amor era um vazio desofertado. inspira.

sabia que tanto quanto o cigarro da manhã  o lembrava do propósito da noite passada, um rosto quase reconhecível de noite o faria lembrar do propósito da manhã ultrapassada. e se a noite fosse quente, se levantaria aflito a compor uma salada. se noite fria, se afastaria a preparar uma sopa. as mulheres, quase mais que os cigarros, fazem sempre muitas perguntas. expira.

se esconde no banheiro por um minuto. quando entra nos banheiros é sempre nela que pensa. banheiro de qualquer lugar, quaisquer que sejam as portas sempre vê inscrito o nome dela - esse palíndromo que você é – ele diria, o palíndromo estúpido da vida, pensaria - dormir comer trabalhar comer trabalhar comer dormir - a cada dia buscando escapar do círculo que o circunscreve, indefine, confina no tempo e no espaço, fio longo de novelo na fumaça do cigarro, na porra que se perde em camisinhas mãos mulheres desconhecidas. pausa.

refoga uma cebola no azeite até dourar. sinto falta de quem me olhe nos olhos, ele diz, ou ela? coloca água, e às vezes desperto no meio da noite como quem perdeu o desenho de um rosto, descasca duas ou três mandioquinhas, e quanto maior a fome, menores os pedaços e acrescenta. penso na sua mão e os caminhos que a sua mão percorre. e também água, até amolecer. por que não me contento com a voz? desliga o fogo, coloca as folhas de espinafre e tampa. por que quero língua na pele e precipícios? as folhas cozinham no calor? uhum... poderia bater no liquidificador para uma certa uniformidade (mas seria tanto barulho). sou só uma entre milhares de expressões da vida entre tudo o que existe. pensa. prefere as folhas inteiras. me sei incapaz de tantas coisas. se tem roquefort, tempera na própria cumbuca, na caneca, o que estiver limpo. precisaria ter oito ou nove sentidos para captar o mundo em seus matizes? e esse gato, que acaba de entrar, é seu? é uma gata. inspira.

como todas as noites, também naquela foi dormir dizendo que não fumaria mais. nada de cigarros. de manhã ao se levantar, vestiu o casaco, e ao entrar na cozinha para preparar o café, viu a gata em cima da pia, bebendo água de uma das cumbucas. o peito pesado, o coração taquicardindo. precisava de um cigarro. expira.

não fumou. estava impregnado de inseguranças e bobagens, aderidas à pele. todos estão. quase ninguém nota. para quem se dá conta, as coisas vão um pouco melhor. ou não. lembrou-se de uma crise de asma. era o medo que o impedia de soltar o ar e era isso que impedia o ar novo entrar. asfixia e mais medo. sabia que era preciso soltar, deixar o ar seguir, não se incomodar com o vazio, com o buraco negro que parece se formar no profundo dos pulmões. os alvéolos fechados, segurando o pouco que tinham, um ar gasto, velho, já inútil. era preciso deixar, deixar-se ficar vazio, um pouco desamparado para que o ar se renovasse. para que ganhasse confiança, para que perdesse o medo. fuma porque tem medo. quando fuma não respira. prende o ar porque não confia. não se entrega? inspira. expira. pausa. a gata pulou da pia. a água ferve. o vapor quente na cozinha fria. esquenta as mãos. esquece o cigarro e fica o medo da noite. do desamor. do não amor. o medo da morte. pausa.

de noite, como toda noite, saiu. preferia isso, vida desastre e dor a se sentir capaz. prender-se às correntes. ninguém preso pensa. não é feliz nem triste. é gris. não é branco. não é preto. nada intenso. como toda noite, saiu. como toda noite foi ao bar. como toda noite, nem tão tarde, voltou para casa com uma mulher, como toda noite, quase desconhecida. assim que entraram, sem seguir o roteiro, ela disse: estou com fome. era uma noite fria. ele falou em preparar uma sopa. ela disse: não gosto de sopa, que tal uma salada. salada? inspira.

o ar que entra, o ar que sai. ela abriu a geladeira, sem qualquer constrangimento e juntou alface, rúcula, agrião, parmesão ralado, nozes, palmito, pimenta biquinho, uns ovos de codorna cozidos, azeitonas. ele pensou isso é o único que sou: o espaço, o lugar onde o ar entra, de  onde o ar sai. pensou fumar um cigarro. deixou de pensar. ela fez um molho misturando azeite limão sal mel mostarda pimenta do reino moída. ele perdeu o ritmo. pensou entrar no banheiro. deixou de pensar. ela conversava contendo palavras. dobrava as folhas com os dedos ajudando o garfo. expira.

quando terminaram a salada, o telefone dela tocou. depois ela disse: preciso ir. e ele se perdeu. ela disse também: meu filho está com febre. e acrescentou: me liga. ele olhou. aspirou o perfume dela. ele se soube um a mais no mundo, um entre bilhões. ele a soube uma a mais no mundo. uma entre bilhões. expressões de vida. para cuidar, querer, e se maravilhar. pausa. 

naquela noite, foi dormir sabendo que não fumaria mais. quando entrou no banheiro foi nela que pensou – vida. foi nela que pensou – morte. o ar que entra o ar que sai. não se preocupar pela morte, prestar atenção, nascer. 

inspira. expira. pausa.