31 de janeiro de 2014

na noite

alguma coisa me diz que há alguma coisa que não estou vendo. a cegueira é minha, estendida, espero que todos estejam de olhos cerrados, como os meus. a guerra também é minha. serei quem mata serei quem morre, no mesmo gesto, no incêndio, na bandeira branca, não importa. algo me diz: mantenha os pés no chão. e retroceda, quando for a hora. quando é a hora? os pés sabem. as mãos se perdem. não se perca. a guerra não é de ninguém. não há guerra. também as bandeiras brancas. existem? e o fogo e os olhos. e as coisas que vejo sem vê-las.

quem tem mãe não faz filosofia, diz o menor de todos, e este filosofar em si me surpreende. pergunto se conhece algum filósofo. diz um nome e acrescenta: aquele dos figos e a carta. o filósofo dos figos. o filósofo da carta. que por certo teve mãe, penso. como teve sua batalha pública tão particular, e perdeu os pés quando se soube menos cego e mais sozinho.

há alguma coisa que vejo quando o silêncio me toma. quando estendo as mãos no ar morno do escuro da noite imóvel. aquela mesma noite que me abria quase punhaladas na pele, e era alegria a minha, e eram punhaladas na pele da minha mãe que chorava - água gotejando entre as flores - o pai que já não estava. a alegria dela nenhuma. cada uma, pedras pontiagudas sob os pés. pisávamos, ambas, delicadamente, os cristais.

24 de janeiro de 2014

em outro voo - II

uns dias,
o pequeno barco no mar
grande

outros dias, o mesmo barco,
largo rio que leva

outros, ainda, nada de barco, sou o rio
fluido
um pouco perdido contido
em margem

ou, mesmo, a água que vai

ou talvez só a margem
de bosta e capim
pisoteado pelo gado
em seu desvio de cercas

depois
nada, nem
mar barco rio água margem,

essa, a bosta seca sob a mosca

21 de janeiro de 2014

arisco

de dia me ocupo. à luz ofuscante do sol abro trilhas e percorro caminhos. sigo. areia pedras musgo húmus. planto, replanto, colho e alimento. de noite olho estrelas e constelações. reafirmo rumos. é sempre a mesma a lua, e sempre muda. a mesma a paisagem onde nasce, e outra. muda a paisagem, muda a sombra, a profundidade da água e a força que gera o vento, a velocidade. na turbulência, me perco. se tudo intenso, firmo os pés. escrever é riscar a pele.

8 de janeiro de 2014

white lily



era um daqueles dias em que tudo parecia equivocado. se desencontrou do amigo, se perdeu no caminho e chegou antes de todos para o almoço sem conhecer a dona da casa. sabia que era estrangeira. apresentaram-se. uma redoma a envolvia: nem bonita nem feia, nem nova nem velha. ele constatou quase constrangido que a roupa dela ainda era daquelas de quando estamos sozinhos: por amplas, por gastas, por não conterem devidamente o corpo. parecem, antes, cortinas de voil, lençóis leves, venezianas entreabertas. ele se divertiu descobrindo por onde a mão enfarinhada havia feito caminhos. ela o convidou a entrar e ele a seguiu até a cozinha. raras as casas de cozinhas assim grandes, janelonas por onde o calor abafado do meio dia, quase entrando, para no limiar, no parapeito, naquele nada onde alguma vez vidro. o quintal ofuscante, a cozinha era sombra.

ela bebia cachaça. não ofereceu. ele perguntou onde colocar as cervejas. ela disse: ali no tanque. e mais nada. uma mulher que não se incomoda com silêncios, ele pensou.

um homem que não traz a comida pronta, ela constatou, quando ele, depois de abrir uma cerveja, respeitando a mesa mais do que arrumada com tudo o que seria preciso para um risoto, não colocou ali suas sacolas, mas apoiou sobre a pia vasilhas de alfaces, rúculas, espinafres lavados, mangas firmes cortadas, nozes picadas e o molho, cada coisa numa coisa organizada, e perguntou se ela não teria uma grande travessa onde ele pudesse arranjar a salada. ela abriu a porta no alto do armário, tirou uma travessa larga e branca e a ofereceu. ele a apoiou no canto da bancada da pia. ela voltou a se concentrar no que ele não sabia.

quando terminou de ajeitar a salada, viu que ela tinha misturado farinha, manteiga e queijo ralado em quantidades iguais, fermento, sal e as gemas de uns tantos ovos, abandonando depois as claras num velho recipiente de vidro grande demais para tão pouco volume. ele perguntou se nevaria as claras. ela achou graça na pergunta e sorriu e enquanto preparava a massa daquilo que depois se revelariam pequenos amanteigados de queijo que ela nominaria pogácsa, respondeu que sim e outra vez sim quando ele perguntou se poderia começar a bater, já segurando nas mãos o cabo do batedor de arame, com a disposição de quem vai enfrentar ondas calmas num dia tranquilo.

ela reparou então nas mãos dele. bonitas, firmes, dedos longos, unhas, veias, manchas. parou o que fazia, abriu o saleiro e, pegando entre os dedos, levou uma pitada até as claras e acrescentou: para facilitar que nevem. ele começou num ritmo compassado o barulho de metal na vasilha de vidro. de onde estava ela via bem o homem em seus movimentos, aquele homem desconhecido que falava pouco e sorria ao bater as claras. ela via as mãos do homem, o pensamento além, muito além dos pogácsa que recortava com a pequena boca do copo de cachaça.

interrompeu-se de repente. lavou as mãos, enxugou-as na ponta do que agora mais se revelava um avental, puxou um banquinho para perto do homem e pegou de suas mãos a vasilha onde as claras, pegou o batedor e, ao ajeitar-se, a bainha do que poderia também ser um vestido subiu, sem que ela visse o olhar do homem em suas pernas, sem que ela soubesse, o seio esquerdo se deixando ver, revelando-se para o homem que deslizava olhos pela pele macia, pelo arrepiado bico de um mamilo cor de amora quase madura, homem que continha mãos e boca pronta para línguas. como se ignorasse o que ali pouco a pouco se fazia, ela agora com batedor em mãos batia as claras no seu ritmo, compassado e outro: outra a delicadeza, outra a firmeza, um palmo a separar os corpos atentos à nuvem que brotava do que havia sido líquido, corpos atentos à chuva a ponto de desaguar, no pulsar de picos cada vez mais firmes que nevavam.

devolveu então ao homem a vasilha e o batedor, pedindo que continuasse agora um pouco mais lento, enquanto esparzia açúcar finíssimo sobre claras em neve e pelos claros da mão de um homem, que seguia concentrado e menos desconhecido. ela disse que voltaria logo, que não parasse, e entrou por uma porta que antes ele não vira mas agora adivinhava despensa escura e fresca onde sempre se pode estar sozinho, e a imaginou entre batatas, e a imaginou entre cebolas, e a imaginação entre limões: perfume cítrico. e então: água de laranjeira: flor: pétalas, e a bainha do vestido se perdendo entre farinhas e feijões, vidros de conservas, umidades, mistérios. ela não vinha.

e porque ela se demorasse, ele seguia: as claras já em tudo doces, e o bater em ritmo compassado de uma espera de quem um dia alcança. quando ela veio, aos seus olhos parecia luz. se aproximou e disse da demora para achar e, para comprovar, estendeu as mãos sob as narinas dele, abrindo a vagem, desvelando a baunilha entre os dedos entre os outros tantos aromas imaginados pelo homem que a ouvia dizer que mais fácil no entanto seria usar a essência e a via já a virar o pequeno frasco e a derramar na colher e da colher deixaria escorrer sobre as claras em ponto de espuma quando o calor se rompeu chuva e grossas gotas esparsas bateram barulhentas na cerâmica das telhas – e, no portão, zumbido de crianças e o toque da campainha – e foi a baunilha no mar branco mistério nas mãos do homem agora conhecido que não se sabia pedra nem se sabia água que no rolar se torna seixo leito fundo se torna caminho que se deixa rio.