20 de fevereiro de 2014

receitas vegetarianas - nem só a vingança é um prato que se come frio



máquinas de costura. camisas. tecidos. tesouras. manequins. dois cálices de vidro na pia de plástico da cozinha. entre vassouras, produtos de limpeza, garrafas de vinho. tinto. dois garfos, duas facas, dois pratos. o senhor ortega sempre prepara a própria comida. na véspera. na noite. para o dia seguinte.  gosta de comidas simples, sem artifícios ou malabarismos. gosta de comidas frias.
como a vingança. pensa o senhor ortega enquanto organiza linhas e alfinetes, agulhas e botões nas pequenas gavetas, separando retalhos, aparas, restos de fios: joga tudo da mesa ao chão para varrer depois. como quem cata feijões. ou lentilhas. grãos de bico. favas. cozinhá-las. de modo que permaneçam inteiras. escorrê-las. e inventar. na alfaiataria. o senhor ortega pensa em comida. à noite, em casa, pensará em cortes de camisas, calças, paletós enquanto preparar a comida para o dia seguinte.
que comerá fria. e sozinho. porque é um homem preso ao momento seguinte. e quem não vive o presente não pode se permitir muitos prazeres. dos únicos,  vinho tinto no almoço. vinho tinto no jantar. a vida em grãos: linhos, lãs, gabardines. sem temperos:  tomates, cebolas, cebolinhas, salsinhas. nenhuma companhia. lisos, listrados, risca de giz. nenhum condimento: canelas, pimentas, mostardas, ervas, limão. sempre sozinho a imaginar amores. marrons, pretos, cinzas. sempre o mesmo:  azeite, vinagre, sal, um pouco de mel. viviam em seu pensamento as mulheres que passavam pela calçada. branco, salmão claro, um esverdeado. talvez: azeitonas. ovos cozidos, folhas verdes, repolho. a vida desbotada de medo. a mentira para si mesmo. um dia, um dia, toda sua vida se redimirá, pensa o senhor ortega.
e se entrega a mais uma de sua vasta coleção de amantes – todas as mulheres do bairro: as velhas que já foram moças e, antes, meninas, e também as moças, que viu meninas. sonhou com todas, quase: falta que as meninas cresçam. põe as lentilhas de molho. até que úmidas fiquem túrgidas. no começo, os sonhos delicados. o senhor ortega vê passar alguém na calçada, movimentos sinuosos.  o corpo que a roupa esconde. as lentilhas cozinham, depois, em água com sal, folha de louro, uma pitada de açúcar, cravo. devem ficar firmes e macias. o senhor ortega imagina os primeiros cumprimentos, sorrisos e olhares cúmplices. os sonhos  se adocicando. um dia ela para na alfaiataria e pergunta nada. ele responde as nenhumas perguntas e as mãos se esbarram. seguem frases bonitas. com o passar das noites,  os sonhos mais intensos. escorre a água das lentilhas, acrescenta tomates picados, cebola miudinha, salsinha. os sonhos vívidos: o senhor ortega sente as mãos a deslizar suavemente por sobre o tecido da blusa, a textura da saia, o senhor ortega aspira o perfume da nuca e troca confidências, promessas, palpitações.  o tempero nas lentilhas, o senhor ortega perde  um pouco o sono. uma pitada de canela. abre botões e vê um seio, suave, acaricia o bico, beija, boca entregue,dedos blusa abaixo, saia acima. as frestas. a mão dela em sua pele e procuras. um tanto de manjericão e bocas pernas abraços se confundem por fim na madrugada. no pensamento do senhor ortega, uma mulher que se abre, para ele, um homem irresistível. azeite, queijo branco em quadradinhos, acertar o sal, a pimenta, acrescentar  vinagre, vinagre... erra a mão no vinagre e entra o namorado, e entra o noivo, e entra o marido, entra qualquer pessoa e eles ali, ou atrás do balcão ou na cozinha apertada ou no vão escuro de um muro e sempre o drama, o escândalo, uma mulher desfeita em lágrimas, sempre, sempre o trágico a coroar dias delirantes, todos os sonhos, catástrofes. porque o que o senhor ortega teme mais que tudo, mais que todos,  é a própria imaginação.
guarda a salada na geladeira, para o dia seguinte. por um tempo, suas noites ficam vazias, ocas, perdidas.  ele não esquece: ao colecionar amantes, em seu profundo coleciona também desafetos: violentos homens traídos pelas mulheres que em sonhos desejou e foram suas.
os fregueses do senhor ortega são, justamente, os tais maridos noivos namorados traídos. todos fregueses. todos que no bairro frequentam o discreto alfaiate que faz roupas de caimento perfeito a um preço justo. camisas, ternos, calças que durariam do casamento à morte,  do batizado à formatura,  não fosse a moda a mudar recortes das golas, alturas dos botões, do cós, do cavalo, os tecidos e os tons que se deve usar. a moda, em suas mudanças, salva o senhor ortega ao manter fiéis os fregueses do homem que ninguém imagina...
quem o procura, quem dele precisa, suporta que mal diga bom dia. em geral, sussurros, reprimidos  urros, duros e íntimos. o senhor ortega, um pequeno urso que mente para si mesmo. engana-se, sente-se ameaçado por quem nem sabe que ele, senhor ortega, existe além daquele alfaiate cabisbaixo e submisso a fazer silenciosamente  barras e ajustes, como quem prepara lentilhas e favas a serem comidas frias.
como são frias as pequenas vinganças que desabrocham de suas mãos, das mãos do senhor ortega: na igreja, o botão que cai. no palco, a barra que descostura. no fechar negócios, a costura que se esgarça. ao pedir a mão da moça, as pernas que diferem no comprimento.
diante de homens irados, o senhor ortega balança os ombros, move a cabeça e se diz surpreso, resmunga desculpas por ter se distraído. às vezes perde o cliente, quase sempre convence. ninguém adivinha o que ele pensa: tantos homens, tantos, cada um trazendo novas e lindas mulheres para seus devaneios. 
uma vez por semana, o senhor ortega põe a mão na massa: farinha, queijo, ovos e fermento, a preparar um pão, que acompanhe suas tantas comidas frias.

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