2 de março de 2014

receitas vegetarianas - madártej ou leite de pássaros ou vamos pescar nuvens



quando minha avó queria ver as crianças felizes, preparava “leite de pássaro” (madártej), um doce com nome de sonho, daqueles sonhos absurdos e bons. aquela mulher, tão perdida e determinada ao mesmo tempo, encostava uma longa escada na tarde de nuvens, que nunca era uma tarde nublada: era tarde de nuvens gordas, distintas umas das outras, contra um céu azul.  e lá ia, com algum dos seus vestidos lilazes ou verde água, e anáguas, subindo uma escada quase infinita. ao andar, ela mancava um pouco, mas naquela escada, a carregar o balde de ordenha, tudo era fluido, degrau, degrau, degrau, em direção ao azul, e a gente ali, quase a poder ver seus cabelos ao vento.
ao chegar nas nuvens, ela teria que liberar as mãos para ordenhar os pássaros. e, pensando nisso, tinha feito um suporte de crochê para o balde. um suporte parecido com uns castiçais que ela inventara pra casa de praia, uma casa que misturava o cheiro de madeira, areia, sal e velas. sempre era à luz de velas que a gente passava as noites ali, naquela construção improvisada numa plataforma de cimento no meio de um mato baixo e perfumado, com uma grande janela de vidro e som de folhas de palmeira roçando as paredes  no escuro. não havia água encanada. atrás da casa, um poço. na cozinha uma tina pra lavar louça. no banheiro um balde suspenso pro banho. para beber, era preciso buscar água lá longe, num longe de criança que cansa quando caminha muito na areia, não o longe de nuvem onde pássaros dariam leite. para buscar água, nada de escada: balde, ainda que se dispensasse o suporte tecido em crochê.
além do crochê, minha avó gostava muito de pintar. paisagens. flores. pássaros. beija-flores. de modo que ao subir, subir a longa escada, ela dizia encontrar nas nuvens alguns dos pássaros que ela tinha pintado em suas aquarelas. de toda cor, a gente sabia, e de todo tamanho, rápidos, parados no ar, como mágica, acreditando que pássaro visitava nuvem. a gente tinha a secreta certeza de que ao dizer leite de pássaros, ela se referia apenas ao leite de beija-flores que ela pintava, se referia a pequenos beija-flores que em fila esperavam sua vez de passar tetas e penas por aquelas mãos magras. minha avó, que tinha pouca paciência para muita coisa e muita paciência para pouca coisa, nestes momentos concentrava-se, murmurando melodias e repetindo um mesmo gesto, com mão firme, a ordenhar milhares de pássaros de asas que não paravam, bicos à procura do mel.
porque minha avó, também isso, sempre tinha alguma doçura guardada em flor. flor no decote do vestido, no lenço do pescoço, no cabelo. flores que ela mesma fabricava em tecido, a ferro e fogo, nas tardes abafadas na pequena cozinha de uma casa em que cada quarto era de uma cor. a gente conhecia também aquele mistério: antes de haver flores, havia o tecido, depois pétalas recortadas, então pétalas lisas engomadas a ganhar curvas com uma colherinha minúscula que dava redondez ao pano. pétala por pétala, miolo, folhas, caule discreto de arame recoberto. e das mãos da minha avó brotavam flores, que se juntavam buquês, que povoavam jardins, ali, nas nuvens onde os pássaros vinham se entregar derramados.
depois de juntar todo o leite, ela descia vagarosamente a escada, sabendo os degraus e as crianças ansiosas. ao se movimentar tão lentamente nesta hora de equilíbrios sutis, seus pés, seu quadril, seus peitos, cotovelos, mãos e cabelos enroscavam-se no algodão das nuvens. enchiam-se de pedaços, flocos, chumaços, de um branco quase ofuscante, aerado, consistente. ela descia, pouco a pouco.  a gente, ali, a antecipar a doçura do leite,  a admirar a beleza daquela roupa inventada que nem mil flores de pano fariam tão bonita. ao pé da longa escada, a gente esperava acompanhando cada movimento desta avó que jogava cartas, que olhava os astros a predizer futuros, que guardava licores no armário da estante de livros, que servia a sopa em xícaras grandes, que comia a alface com açúcar e limão, que pintava, que criava e contava histórias, que tinha uma casa de praia no meio do mato, que adorava nescafé às três da tarde. esta era a avó que subia e descia escadas para ordenhar pássaros e trazer restos de nuvens esgarçadas em vestidos e anéis.
voltando de sua aérea aventura, ela depositava delicadamente, numa grande vasilha de louça, os pedaços de nuvem, como se fossem grandes colheradas de claras batidas em neve com açúcar e aferventadas em leite. por cima daquelas nuvens, ela derramava com muito, muito cuidado, o leite de tantos pássaros, como se derramaria um creme quase espessa mistura de leite, gemas,  farinha de trigo, açúcar e baunilha, cozido a fogo baixo e sem pressa, como devem ser feitos sem pressa o pintar beija-flores ou ordenhá-los, o subir escadas para alcançá-los, o cobrir-se de flores ou prepará-las pétalas, o se enroscar em nuvens para ajeitá-las em forma de doce e sobremesa, envolvê-las em perfume a reunir crianças, entre notas perdidas de piano, estas todas crianças que em algum canto de sua frágil estrutura humana guardarão seus claros olhos numa memória de avó que ordenhava e alimentava tantos e infinitos pássaros em seu voo.

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