15 de março de 2014

receitas vegetarianas - existir quando ninguém

comida de preguiçoso: eu sempre dizia que comer na madrugada era para quem tinha preguiça de seguir vivo, ou cansaço, cansaço de existir ainda que fosse madrugada e fossem poucas as pessoas naquele mesmo momento silencioso, quase branco, quase negro, nada absoluto porque não é absoluta a escuridão possível das grandes cidades nos prédios de milhares de blocos idênticos e desintegrados, organizados por trás de grades que insistem em ver quem passa na rua, e era sempre tarde que eu subia para não encontrar ninguém, ninguém que perguntasse, que explicasse, que dissesse, nem porteiro nem vizinho nem qualquer um daqueles caras que dividiam o apartamento mínimo, beliche em cima, embaixo, muitas vezes também na frente da tv, e era preciso abrir a porta com cuidado, e era preciso transpor pernas por vezes mais de duas, múltiplas pernas, roupas, estranhos sentimentos me tomavam, com todas as fomes que eu trazia por ter ficado ali, na rua, na noite, perdido na companhia que tinha me trazido em casa, e não queria pensar no miojo que os caras comiam a sessenta centavos o pacotinho, queria, sim, uma comida rápida, claro, mas que diferença cinco minutos a mais que a água fervesse, que o mundo girasse, como tinha girado no tempo de espera para que o cigarro acabasse, não o meu, que não fumo, mas: espere o cigarro terminar antes de ir, e sempre que o cigarro termina: me dá um beijo de despedida, e o beijo desperta e se alonga braços e quando, enfim, abraço desfeito, acender um último cigarro, que sem ser tragado será desfeito em espera e lentidão de fumaça, devorando-se a si mesmo, cigarro e fumante, intercalados abraços, a fome apertava, todas as fomes porque a carne é fraca ou a carne é forte, fraca a carne que nunca se rende, a fumaça se desfazendo na noite, na espera de um minuto de intervalo, e eu já sabia que o cigarro engrenaria em mais um beijo, que eu esperava, que me alimentava, e pensava com a minha forte carne fraca que eu queria, mesmo, era uma comida de preguiçoso, substanciosa, possível naquela cozinha, menor que a menor das cozinhas de qualquer mundo, mas se alguém dizia espere este cigarro, eu esperava, e se ela dizia você não sabe o que eu tenho vivido e eu não sabia, ela me contava e eu ouvia, enquanto imaginava o banho maria à espera dos pequenos  muffins salgados de restos de coisas perdidas, a base sempre a mesma mistura de um ovo, quatro colheres de sopa de leite, três de azeite, quatro de farinha de trigo, meia colher de sobremesa de fermento químico e sal, e depois de bater bem batido e dissolvido, acrescentar os restos do que se podia encontrar na geladeira, ou queijo, ervas, tomates, abobrinhas raladas, cebola frita, o que fosse, desde que aroma e sabor, aroma e consistência que abrandassem a fome de tantos abraços lentos, e abrandassem esta preguiça de me envolver mais que fumaça em outras vidas, enquanto eu nada fazia, deixando o mundo se desfazer pouco a pouco entre o que eu tinha sido e aquilo que um dia seria, nada sendo, a preguiça este nada enquanto se espera, reflete, pensa e busca e quer, a preguiça este lamento do tempo sobre a pele, este pulsar lento e doce, a vida e tudo o que dela não queremos, e quando em dez minutos no banho maria, minha porção se preparava, na baforada do vapor voltava a me lembrar de esfumaçados olhos fechados e cílios longos, entregues num beijo, em que eu não fechava os olhos, nunca, a vida de cada um era tanta, e eu com medo de me perder naquela fumaça neblina do mundo, me perder naquela fome, naquele pânico de existir quando todos existem, sem alimentar a dura estrutura de ossos que trazia comigo, que carregava mesmo quando nada mais me interessava, e eu restava, restava ao largo das vidas das pessoas que me amavam, eu incapaz, eu ali, ali, na madrugada de companheiros há tempo dormindo nos quartos, na sala, no tapete, alguém puxava a descarga, ouvia a enxurrada na minha cabeça ávida, aflita, nessa hora e pequenos pedregulhos de pensamento me ocupam, mordo com calma, para que os dentes não esbarrem em pedrinhas, como num abraço alguém tosse, como ao deitar na cama alguma areia, uma migalha que se encontre sobre a mesa. e ao pensar nisso, nisso de migalha, não sei por quê, eu sempre sorria.

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