29 de maio de 2014

não, não vá embora... vou morrer de saudade...

nunca antes eu tinha visto alguém morrer.
a morte eu já conhecia há tempos. era ainda muito pequena quando da lembrança de um velório: uma professora, crianças com rosas, adultos chorando. a gente só desentendia (ela era e não era aquela que estava ali) e cantava o que já sabia cantar. depois disso, por todo lado, o que é próprio da existência: doenças, dores, mortes. as mortes e seus rituais, suas ausências. o amargo da morte. nunca antes tão ao alcance da mão.
que eu saiba, criança não gosta de amargo. o jiló, a jurubeba, o café, o cacau, o radichio, a lima da pérsia. a couve de bruxelas. a morte é assim, um tanto amarga. um gosto que ocupa a boca, o céu da boca, a lateral da língua. depois, com paciência, é possível sentir  um perfume, uma revelação lenta, algum sal, alguma doçura, que permanecem.
quando se tem vinte anos, um tumor pode ser tudo. e pode ser nada, se a gente faz de conta que não é nada. a vida segue, uma cicatriz, uma pequena vertigem que passa. como a conserva de jurubeba, que consiste em aferventar e trocar a água sete vezes. e então no vinagre com pimentas e umas ervas e sal. e deixar. e esperar. até que o amargo se permita conviver com tudo o mais.
como no primeiro jiló bom de se comer. minha mãe cortava três ou quatro deles em quatro e punha na panela do arroz, quando já tinha água e sal. o jiló cozido ali era tenro, perfumado. e amargo, sim, desses amargos que vai se revelando uma outra coisa. faz abrir os sentidos para a singeleza do arroz. o jiló no arroz é presença da minha mãe.
quando se tem quarenta, os planos são mais urgentes. e parar os dias para cuidar das feridas parece mais, muito mais, do que parar os dias para cuidar das feridas. outra vez um tumor, tirá-lo, contornar o que o acompanha, os ossos, os movimentos do rosto. deixar o cabelo encaracolado sobre o lado destruído, este campo de batalha destituído que deixa também por dentro um gosto. amargo.
às vezes, a única possibilidade de reconstruir um tecido esgarçado é oferecer calor e carinho. colo. a energia flui. da minha mão para a sua mão. transfusões de energia. veja, ela dizia, ainda nem conheço barcelona nem atravessei a turquia num balão. eu me deitava ao lado dela. e a abraçava. o cheiro de hospital também é amargo. não há flores, não há desinfetantes que o disfarcem. nós o reconhecemos, esse cheiro, em qualquer lugar do mundo. os hospitais que ao nos salvarem também nos tiram a energia. de alguma maneira nos secam.
por exemplo, a lima da pérsia. uma laranja desbotada e aparentemente sem gosto. de um amarelo claríssimo, quase tímido. a pele fina que se rasga fácil em nudez. num primeiro momento, gosto quase nenhum, quase nada. e então o amargo, por todo lado, até que uma outra coisa se revele. um perfume se instale. se as limas ficam uns dias num cesto, murchando, ao perder o viço também perdem um tanto do amargo excessivo. e então nem é preciso descascar. é só cortar em quatro, e soltar os gomos da casca que agora ganhou rigidez. o gosto da lima da pérsia é um leque confuso de sabores. especialmente se a casca estiver seca.
um tumor não se contém. extravasa-se. ultrapassa as fronteiras do desejo. as fronteiras do medo. instala-se. vai pelas correntes do tempo. um pequeno fel. espraia-se. derrama-se de alguma maneira na pele. impede as conexões. os vínculos. os fluxos. um dia, no abraço, não havia ida nem vinda. um estático sentido. conversávamos. ela dizia: quero voltar pra casa. só quero voltar pra casa, estou cansada. eu dizia é preciso se deixar cuidar, descansar. depois, eu dizia preciso ir. e ela contarolava jane e herondy.
o radichio vai bem com rúcula e sementes de romã. um molho com hortelã. o amargo do radichio se espalha em roxo rajado diante dos olhos. a gente se perde nele. e ele se perde na rúcula que por sua vez se perde no ardor raro. as româs são pura luz. o xarope vai bem com azeite, ervas, limão. o radíchio não perde seu amargo, mas se mistura ao tempero da salada, um ácido que não cansa. os tratamentos injetados na veia cansam, doem, ardem, esgotam o corpo um dia.
na sala branca entre cortinas, os cabos todos atados a medir a vida induzida em sono. bip. o coração, a respiração, as conexões neurais, bip, os níveis de queratina, a saturação, as secreções. bip. o olhar perdido. a mão. os pés. os cabos todos. bip. os cabos todos. o cheiro amargo dos hospitais. bip. por um momento ela me olhou. bip. por um momento ela me viu? minha mão no seu rosto. bip. a sobrancelha enquadrando seu olhar fixo, que ficou claro por um segundo. bip. segurei sua mão. esperei. ela fechou o olho. bip. bip. bip. bip. bip. me disseram: terminou o horário da visita. juntei minhas coisas, lembrei sua risada, quando no franzido dos olhos só os longos cílios apareciam. agora meus olhos lágrimas,  as janelas, as camas, o chão de um rajado roxo. esse amargo -- ela já não cantarolava “não se vá, não me abandone, por favor” -- era um amargo travoso e áspero. eu seguia. era eu a canção dolorida do tim maia. depois, bem depois, buscaria pras abelhas o que fosse mel. naquele momento só queria o amargo. café.

23 de maio de 2014

no trajeto do silêncio

para soraya


vi uma pessoa no metrô que me lembrava você.
entrou outra, que me lembrou meu pai.
a cada parada, o vagão se enchia de rostos, todos com aspecto familiar.
pessoas são trajetos? pessoas que se parecem são diferentes maneiras do mesmo caminho?

por um tempo fiz um mesmo trajeto de ida e vinda. todo dia todo dia todo.
até deixar de fazê-lo.
deixar de fazê-lo a ponto de me esquecer de sua existência.
um dia, muitos anos depois, eis o trajeto. e alguma coisa em mim se lembra.
vou fazendo as curvas, tomando as decisões de direção quase sem pensar. 
a memória que vem à tona pensa por mim.

neste não pensar, um rio de palavras silenciosas se permite.
nenhuma palavra diz nada.
sobre elas chove.
sobre elas não se desenrola o desentendimento do início dos tempos ou o verbo.

os longos trens de carga nas estações urbanas têm um silêncio próprio, uma espécie de solenidade, algum mistério nas pedras que carregam. em seus líquidos.
têm um silêncio que atravessa a nossa espera.
a espera dos trajetos que se não lembramos nos lembram.

o trajeto da marcha das mães dos desaparecidos. 
que choram.



Tradução de Joan Navarro para o catalão e o castelhano na serieAlfa, aqui.

16 de maio de 2014

obsolescência programada



maio, lua cheia de maio, uma lua de silêncios me lembra alguém,  a mesma das revelações, pequenas, grandes, que se ocultam ao se manifestar explica a mulher enquanto com a língua revira a dentadura meio presa meio solta que o homem,  aquele homem,  esse homem, das tripas, cuidava sim do espaço passagem, varria toda manhã, nada a ficar pelo avesso e dobrava cobertas e guardava sacos plásticos caixas de papelão,  ordenava  – o entorno – não mijava – em qualquer canto, não – não defecava – à vista – a cada manhã, olhe para o céu agora neste maio de lua cheia em algum lugar as nuvens esgarçam as tripas deste homem – qualquer – em seu apocalipse único e miúdo, apocalipse de cada um, que nos faz ter um novo nome, este, que não seremos, este, que mãe nenhuma pronunciará, esta, denominação última  nossa num universo que nada circunscreve – as tripas – num fim mínimo íntimo, enquanto diziam que seriam as tais vestes reluzentes, não eu – eu, nua, da nudez áspera dos pesadelos de não saber amar o próximo próximo, de não saber amar – naquela boca meu nome nem, nas mãos as palmas abertas – nelas – a chama flamejante sem bênçãos – velas – este vazio este oco sempre estas tripas onde sou o profundo medo onde reverbera a voz e o que quer que anuncie o que quer que diga, eu, ouvidos moucos, eu, a desdizer nada, este nada das mãos queimadas ao tocarem o que sabe não saber o amor ao próximo distante, o que sabe não se saber capaz – eu – sem ramo nas mãos, sem cinzas sobre a testa – eu -- este um que se arrasta rasteja escapa enquanto os eleitos nominados e satisfeitos, enquanto os eleitos mãos em prece, enquanto os eleitos  sem suspeitarem do meu olhar quando, do meu olhar onde, do meu olhar enquanto eu à procura de quem, sabendo que não sou digna, sabendo que nem indigna, sabendo me absurda muda obtusa contemplação daquele de quem se diz pedra dor castigo, daquele que se diz verbo. fogo, principio e desolação.

6 de maio de 2014

precipícios

no princípio, a palavra
pedra submersa na água
opaca do mundo
que não era:

depois
de haver pedra
depois de haver água
e palavra
um princípío