24 de julho de 2014

colha quando necessário

primeiro, sentiu raiva. uma raiva gorda e grande que vinha crescendo por dentro, ocupando os espaços, a entrar pelos poros, como se viesse de fora, escavando raízes na pele, atravessando dermes e nervos e músculos e entre as artérias e veias, torcendo-se, contorcendo-se até chegar à medula, o frio que corre na espinha. a raiva que sentia naquele momento seria capaz de trincar seus ossos no aperto, e de tanto se comprimir corpo, ganhou chão para espraiar-se outra vez em direção à luz. como crescem as batatas no escuro.
neste segundo momento ela estava triste no centro do estômago, uma tristeza que faz parecer fome o que é só um vazio, uma incapacidade de controlar o mundo e, ao saber-se incapaz de controlar o mundo, o querer não estar ali, não pensar, não fazer qualquer movimento, até este um vazio ocupar outros órgãos em seu movimento interno lento: um bulbo que se fizesse no bojo da terra e lentamente se expandisse em círculos concêntricos, cilindro de folhas buscando o sol: pontada nos pulmões, falta de ar, o coração que taquicarde, os rins que se reviram, o pâncreas, e ali, no mediastino, o que dizem timo, esta pequena glândula, se retorce a encher os olhos de lágrimas. alho-poró é substantivo e tempero.
água com sal é um misto de raiva e tristeza, a incapacidade de lidar com as tempestades que vêm de fora e as tempestades que chegam desde dentro, desmontando navios ancorados no vazio. porque é vazio o olhar e cheio de lágrimas e não consegue ler a frase inteira "tenho um compromisso" e também não consegue ler no caderno de página amarelada como é mesmo que se prossegue aquela receita, estas letras: ela tinha aberto um espaço no tempo, na agenda, organizado os dias para, escolhendo um prato antigo e agora.
a receita da mãe diz deixe a água ferver. com sal. e ela é solidão dentro do caos, água salgada onde colocar as batatas, puro insosso batatas descascadas, brancas, brancas. corte o alho-poró em fatias finas, o talo branco e os olhos ardem como há tempos. ela tantas rodelas desfeitas, as camadas, as camadas que são as tantas tempestades. ela chora, chora, chora porque não queria dizer isso, dizer que sente isso que não quer sentir, esta raiva do outro, esta tristeza de si. esta coisa mesquinha que não é de se dizer. esta coisa de abrir o espaço, abrir o tempo com pequenas cunhas, e não há outro ali, não há ninguém: "tenho um jantar". as pernas bambas dela, as pernas que choram como olhos, que ela fecha, o coração pulsa.
a manteiga na frigideira, as rodelas brancas de alho-poró. esperar. os impulsos. controlá-los. para que o tempo que ela abre para si mesma não seja um tempo para o outro. que não está. que ninguém tenha sobre ela poder algum. nenhum. nada. nem no gesto, nem no olhar, nem na palavra. menos ainda no tempo suspenso que se promete e se recolhe e se nega. ela não quer o tempo do outro. quer o tempo próprio, o próprio tempo, o tempo, em si. para o tempo quando. lançar pedras ou não.
a letra da mãe, que não escreve cartas: quando as batatas e o alho-poró estiverem macios, bata-os no liquidificador, com caldo de legumes até chegar no ponto desejado. o ponto desejado. o pensamento dela, que tampouco responderia as cartas que a mãe não escreve: lapide assim o que parecer aresta, liquidifique, amacie, acaricie o mundo. sal, pimenta. creme de leite.
depois, bem depois, por cima, cebolinha. ela pensa: esta sou eu, a que respira e ordena minimamente o caos: o delicado da cebolinha em fatias finas. este corpo. que se move e toma decisões. como estas, de nem procurá-lo, e de nunca, nunca, jamais, dizer veja, aquele dia, eu tinha aberto um tempo e eu. eu. eu. eu. tanto eu pra tão pouca pessoa, pessoa tanta. ela. ela experimenta o sal e a pimenta. ela espera que a sopa esfrie. ela espera. que a raiva passe, ela se controla, ela releva. ela cantarola. ela se senta para comer.
o veludo do mundo, este, delicado ao tato, ninguém sabe de onde vem, o sentimento espraia-se todo átomo condensa-se universo mínimo no fio quase invisível da lã cardada do carneiro, o mesmo do macio do xale, onde também se adivinham os largos pastos vales de lágrimas e alegrias. a mão que tosa tangencia o ombro que agora se aquece - e um não sabe do outro mais que a nuvem sabe da folha onde cada gota cada dia asperamente se (des)equilibra e cai.