13 de abril de 2015

figos frescos

(de Walter Benjamin)

Jamais provou uma iguaria, jamais degustou uma iguaria quem sempre a comeu com moderação. Assim se conhece talvez o prazer da comida, mas nunca a avidez por ela, o desvio do caminho plano do apetite, que leva à mata virgem da comezaina. É na comezaina, a saber, que estes dois se reúnem: a imoderação do desejo e a monotonia com que ele se sacia. Comer, isto significa antes de tudo: comer radicalmente. Não há dúvida de que isso toca mais profundamente a devoração que o prazer. Por exemplo, quando alguém dá uma dentada na mortadela como se fosse pão, se chafurda no melão como numa almofada, lambe o caviar tanto quanto o papel que o embrulha e sobre uma cuia de queijo Edam se esquece de tudo o mais que existe na Terra para comer. – Como foi que eu soube disso pela primeira vez? Foi diante de uma decisão das mais difíceis. Uma carta devia ser despachada ou despedaçada. Há dois dias trazia comigo, porém, sem pensar naquilo. Eis que no barulhento ramal ferroviário eu subira até Secondigliano, atravessando a paisagem corroída pelo sol. O povoado jazia solene na quietude cotidiana. Único vestígio do domingo que passara: as varetas nas quais rodas luminosas haviam oscilado, e os rojões dos foguetes haviam se inflamado; isso antes, pois agora estavam ali, desnudas. Algumas exibiam à meia altura um escudo com a figura de um santo de Napóles ou a de animal. Nos celeiros abertos, mulheres sentadas debulhavam milho. Eu caminhava devagar, como que anestesiado, quando vi, à sombra, uma carreta de figos. Foi por falta do que fazer que me dirigi até ela; foi por desperdício que, em troca de alguns soldi, pedi meio quilo. A mulher pesou generosamente. Mas, quando os frutos pretos, azuis, verde-claros, violetas e marrons estavam no prato, verificou-se que a mulher não tinha papel de embrulho. As donas-de-casa de Secondigliano traziam seus recipientes, e ela não estava preparada para atender a um globetrotter. Contudo, senti vergonha de renunciar as frutas. E fui-me embora, figos nos bolsos da calça e da jaqueta, figos em ambas as mãos estendidas à frente, figos na boca. Agora não podia parar de comer, precisava tentar me defender, o mais rápido possível, contra a massa de frutas robustas, que me havia atacado. Mas aquilo já não era um comer, mas um banhar-se, pois o aroma resinoso penetrava minhas coisas, se grudava às minhas mãos, emprenhava o ar, através do qual eu levava minha carga. E, então, sobreveio a culminância do sabor, na qual, quando o fastio e a náusea – as últimas curvas – estão dominadas, o panorama se abre numa imprevista paisagem do palato: uma maré de avidez, sem sabor, sem limite, verdoenga, que nada conhece a não ser a onda viscosa e fibrosa da polpa da popa da fruta aberta, a total transmutação de prazer em hábito, de hábito em vício. Crescia em mim o ódio por aqueles figos; tinha pressa de me arrumar, de me livrar, de me desvencilhar daquela massa que regorgitava, que se desintegrava. Comia para exterminá-la. Quando arranquei o último figo do fundo de meu bolso, nele estava colada a carta. Seu destino estava selado: também ela devia ser sacrificada à grande limpeza. Tomei-a e rasguei-a em mil pedaços.




Um comentário:

Jane Casella disse...

maravilhoso! você é como o vinho? está cada vez melhor! pura emoção - muitos beijos e obrigada pelos presentes que espalha no mundo.....