9 de junho de 2017

um poema de rick noguchi - em obras

O oceano dentro dele
Depois que Kenji Takezo tomou um caldo,
A turbulência da espuma confundiu
Seu senso de direção.
Ele inspirou
Quando deveria ter
Prendido firme. Por acidente, engoliu
O Pacífico. A água entornou pela sua garganta,
Uma cascata azul que ele não pode ver.
Ele sentiu em seu estômago
A vida pesada do oceano.
Não foi divertido, mas ele riu
Quando um cardume fez cosquinhas em suas costelas.
Ele foi para casa, o surf não montável,
Já não estava lá,
A água pesou em sua barriga.
Naquela noite, enquanto dormia, a maré se moveu.
Os longos braços da lua
Alcançaram-no, de dentro dele
libertando o Pacífico.
Quando acordou na manhã seguinte,
Deitava numa poça de oceano que era dele.


The Ocean Inside Him
After Kenji Takezo fell from a wave,
The turbulence of whitewash confused
His sense of direction.
He breathed in
When he should have
Held tight. By accident, he swallowed
The Pacific. The water poured down his throat,
A blue cascade he could not see.
He felt in his stomach
The heavy life of the ocean.
It wasn’t funny, but he giggled
When a school of fish tickled his ribs.
He went home, the surf not rideable,
It was no longer there,
The water weighted in his belly.
That night, while he slept, the tide moved.
The long arms of the moon
Reached inside him pulling the Pacific free.
When he woke the next morning,
He lay in a puddle of ocean that was his.



21 de maio de 2017

poesias de muitas mulheres

ODE
(Orides Fontela)
O início? O mesmo fim.
O fim? O mesmo início.

Não há fim nem início. Sem história
o ciclo dos dias
vive-nos.


SOBRE UM FILME DE WONG KAR-WAY
(maria esther maciel)

O corpo e seus possíveis.
O dentro que, na pele,
vira flor.
Os cheiros, a memória
do que, de tão breve,
não fica
senão como sombra
líquida
quase cítrica
desse amor.



(ana cristina cesar)

Quando entre nós só havia
uma carta certa
a correspondência
completa
o trem os trilhos
a janela aberta
uma certa paisagem
sem pedras ou
sobressaltos
meu salto alto
em equilíbrio
o copo d’água
a espera do café

Badland 
(matilde campilho)

Não sei se sou homem
já não sei se sou
homem
se sou besta
se tenho olhos azuis
ou mesmo se visto
camisa azul.
Também já não sei
se seguro um toco
meio ardido, aqui sentado
na esplanada desta cidade
cujo nome é Tavizkam.
Não sei se sobre meu ventre
foi depositada uma concha, há uns
1000 dias atrás.
Não sei se sou automático, se devo
trabalhar, pagar o revólver a prestações,
fazer remo, correr na calçada, usar
camisa esquadrinhada, escrever em
cedro esquadrinhado. Eu não sei
se possuo uma barca, se possuo
ossos que podem apodrecer
a qualquer hora. Eu não sei os nomes
dos poetas todos mas sei que os poetas
todos são os novos roqueiros. Eu não
sei, só sei que antes julguei que
os poetas eram escavadores.


Aquele amor
aquele que eu pensei
que se despedaçaria como
um meteorito no Minnesota
(uma coisa assim
estrondosa abusiva
gritante maravilhosa
estilhaço prolongado
cheio de uivos)
afinal caiu silencioso
como um aviãozinho de papel
passeando em Itaparica
em dia da apanha dos morangos.

Não sei se sou homem,
se sou mulher. Mas este
é o caminho do estio
e por perto passam os bois.

§
caça à palavra 
(ledusha)

repleta, minha alma espreita atrás do estrume do mundo:
de onde vêm os versos, que face ocultam entre o amor e a morte?
às vezes os sons são os mesmos, as texturas, o tempo,
o mesmo homem a revolver-me as veias
onde se lacram as vãs repetições, que noite veste o poema?
o sol nos vasos de crisântemos, ecos de um triste país,
largos horizontes onde meu pai passeia verbos nem sempre sublimes.
tudo é memória, sirenes ligadas. a infância sempre ontem, mas aqui.
todo verso sugere uma serpente oferecida.
que na minha caça à palavra (que face ocultam o amor e a morte?)
não haja qualquer vislumbre de repouso.

(valeska de aguirre)

O Sul é meu retorno
Meu jazz
Meu juízo final


Meu sul é submerso
Se fico, afogo

Minha solidão
Meu calabouço

Minha galeria siberiana
Branca branca branca



En elogio de mi hermana
(Wislawa Szymborska)

Mi hermana no escribe poemas
y es improbable que de pronto se ponga a escribir poemas.
Le viene de mi madre, que no escribió poemas,
y de su padre, que tampoco escribió poemas.
Me siento a salvo bajo el techo de mi hermana:
nada pondrá al esposo de mi hermana a escribir poemas.
Y aunque la cosa suena a poema de Adam Macedonski,
a ninguno de mis parientes le da por escribir poemas.


En el escritorio de mi hermana no hay poemas viejos
ni poemas nuevos en su bolsa.
Y cuando mi hermana me invita a comer,
sé que no es con la intención de leerme poemas.
Cocina sopas soberbias con facilidad,
y su café no se derrama sobre manuscritos.

En muchas familias nadie escribe poemas,
pero cuando no es así, rara vez es uno solo.
A veces la poesía fluye en cascadas de generaciones,
lo cual instala temibles remolinos en las relaciones familiares.

Mi hermana cultiva una decente prosa hablada,
toda su producción literaria está en tarjetas postales
que prometen lo mismo cada año:
que cuando vuelva,
nos va a contar todo,
todo,
todo.



(angelica freitas)

porque uma mulher boa
é uma mulher limpa
e se ela é uma mulher limpa
ela é uma mulher boa


há milhões, mihões de anos
pôs-se sobre duas patas
a mulher era braba e suja
braba e suja e ladrava

porque uma mulher braba
não é uma mulher boa
e uma mulher boa
é uma mulher limpa

há milhões, milhões de anos
pôs-se sobre as duas patas
não ladra mais, é mansa
é mansa e boa e limpa




A mão (Conceição Lima)

Toma o ventre da terra
e planta no pedaço que te cabe
esta raiz enxertada de epitáfios.

Não seja tua lágrima a maldição
que seqüestra o ímpeto do grão
levanta do pó a nudez dos ossos,
a estilhaçada mão
e semeia

girassóis ou sinos, não importa
se agora uma gota anuncia
o latente odor dos tomateiros
a viva hora dos teus dedos.





(benedicte houart)
são as mulheres que
fazem chorar as cebolas
como se descascassem a própria vida
e, arredondando-se então, descobrissem
um corpo, o seu
uma vida, a sua
e, no entanto, nada que de verdade
pudessem seu chamar
ou talvez sim, mas só
aquela gota de água salpicando
um canto do avental onde
desponta uma flor de pano colorida que
ainda ontem ali não ardia


A vida responsável 
(Amalia Bautista)
Dirigir sem causar acidentes,
comprar desodorante e macarrão
e cortar as unhas das minhas filhas.
Madrugar outra vez, ter cuidado
para não dizer inconveniências,
esmerar-me na prosa de umas páginas
que não me importam nada
e retocar as bochechas com ruge.
Lembrar da consulta ao pediatra,
responder ao correio, pendurar a roupa,
declarar os rendimentos, ler livros
e fazer umas chamadas telefônicas.
Gostaria de me dar ao luxo
de ter o tempo que quisesse
para fazer um monte de coisas estranhas,
coisas desnecessárias, prescindíveis
e, sobretudo, inúteis e bobas.
Por exemplo, te amar com loucura.


17 de maio de 2017

um poema de rafael espinosa

Agricultura de terraza

Fresnos, grevilleas, molles, la especie que llaman
jaboncillo, sauces, poncianas, melias,
cerezos de Japón, ficus, seres
sobre los que zarpa el deseo, demasiado puros
para la felicidad, producen hundimientos.
Ceibos, casuarinas, higueras.

Cormoranes, pelícanos, ostreros,
gaviotas peruanas y gaviotas de Franklin,
gaviotines, piqueros de pata azul, zarcillos,
guanayes, playeritos, chorlos nevados,
chillidos en la mente de un esquizofrénico
y todas las formas de una imposible hermandad.

Así fue siempre. Junto al mar,
pensar en el sentimentalismo de los árboles,
en el parque oír el impulso
de las aves marinas. Caminar por el puente
donde salta la gente en Lima, cubriendo
lo que está con lo que existe.

A veces Paula me distraía
con los distintos moños que usaba
para sujetar su cabellera y hablábamos
de los millones de cometas
con que las asociaciones libres poblaron
el universo para hacerlo una celebridad.

Otras veces hablaba con un amigo
al que su esposa negó tres veces. En silencio
aprendió alemán y jardinería. “Un jardín
se contiene a sí mismo. No tienes
que pensar más. Es, si quieres, un sistema coralino,
ya que has ido mucho al océano. ¿Por qué
no te conviertes en el traductor de las flores?”

Otras veces leía sobre personas
que son felices en el amor.
Mientras tanto, bajaban bueyes
de los más abruptos pueblos tibetanos
y se sentaban a mi vera. Reposaban.
No quieras saber cuán profundos son sus ojos.

15 de maio de 2017

um poema de donizete galvão

A dureza do instante

Um tapete de goiabas
estende-se sobre a grama.
Os jacintos em bloco
ergueram suas flores.
Poderia ser este o lugar.
Este o tempo do repouso.
Mas a roda dentada nunca para.
Mói o caramujo envolto em formigas.
Mói o cão içado do poço por um balde.
Mói os fios de cabelo de Anita
que protegem os pés de rosa.
Mói as rosas.
(Em direção ao rio,
lá vai a mulher com a pedra no bolso.
Lá está ele na cama
com os tubos no nariz.)
Há perfumes de jacintos
e goiabas vermelhas de outono.
Cada instante tem sua polpa
e no centro o áspero caroço.

13 de maio de 2017

um texto de agota kristof

Exercício de mendicância
(de Um caderno e tanto)

Nos vestimos com roupas sujas e rasgadas, tiramos os sapatos, emporcalhamos o rosto e as mãos. Vamos para a rua. Ficamos parados, esperando.
Quando um oficial estrangeiro passa na nossa frente, levantamos o braço direito para cumprimentar e estendemos a mão esquerda. Quase sempre, o oficial passa sem se deter, sem nos ver, sem nos olhar.
Finalmente, um oficial para. Diz qualquer coisa numa língua que não compreendemos. Ele nos faz perguntas. Nós não respondemos, quedamos imóveis, um braço levantado e o outro estendido. Então ele remexe nos bolsos, coloca uma moeda e um pedaço de chocolate em nossas mãos sujas e vai embora balançando a cabeça.
Continuamos esperando.
Passa uma mulher. Estendemos a mão. Ela diz:
- Pobres meninos. Não tenho nada para dar a vocês.
Ela nos faz uma carícia na cabeça.
Nós dizemos:
- Obrigado.
Uma outra mulher nos dá duas maçãs e uma outra, ainda, biscoitos.
Uma mulher passando. Estendemos a mão. Ela para e diz:
- Não têm vergonha de mendigar? Venham à minha casa que eu tenho uns trabalhinhos fáceis para vocês. Rachar lenha, por exemplo, ou limpar o terraço. Já são grandinhos e fortes para isso. Depois, se trabalharem bem, eu dou sopa e pão.
Nós respondemos:
- Não temos vontade de trabalhar para a senhora, nem queremos comer sua sopa, nem seu pão. Nós não temos fome.
Ela pergunta:
- Então, por que estão mendigando?
- Para saber qual é o efeito que isso faz e para observar a reação das pessoas.
Ela vai embora gritando:
- Vagabundinhos de merda! E impertinentes ainda por cima!
Na volta para casa, atiramos nas touceiras que ladeiam a estrada as maçãs, os biscoitos, o chocolate e as moedas.
A carícia nas nossas cabeças é impossível jogar fora.

11 de maio de 2017

mais um poema de hans magnus enzensberger

El hundimiento del Titanic
Canto XVIII

Con lo cual, dijo la blanca voz, remaron
a toda prisa, alejándose
del punto impenetrable
donde había desaparecido el Titanic,
pero no pudieron escapar de los gritos.
Cada una de estas voces era clara y diferente
de la otra: el estridente alarido de terror
diferente del ronco lamento,
el chillido suplicante, distinto del gemido estrangulado,
y así sucesivamente, y no eran pocos los gritos,
sino miles de ellos, el mar estaba en calma,
había un arrullo en el aire, y las voces, prosiguió la voz,
llegaban lejos y eran muy nítidas, de ahí
que en el bote algunos dijeran, regresemos,
tenemos espacio, de ninguna manera,
se llenaría el bote y lo harían zozobrar,
dijeron otros, y nos ahogaríamos todos,
y así continuaron discutiendo y remando, hasta
que después de una larga hora, dijo la voz
tajantemente, las voces disminuyeron, y sólo
se oía aquí y allá una débil y solitaria tos,
un chillido animal apenas audible,
hundiéndose simplemente en la oscuridad total.

1 de maio de 2017

um poema de hans magnus enzensberger

Novos motivos pelos quais os poetas mentem

Porque o instante
em que a palavra "feliz"
é pronunciada
nunca é o instante da felicidade.
Porque os lábios do sedento
não falam de sede.
Porque pela boca da classe trabalhadora
nunca ouvireis a palavra "classe trabalhadora".
Porque o desesperado
não tem vontade de dizer
“estou desesperado”.
Porque orgasmo e Orgasmo
são incompatíveis.
Porque o moribundo, em vez de dizer
“estou morrendo”,
não emite mais que um ruído surdo
que nos resulta incompreensível.
Porque os vivos
são os que rompem o tímpano dos mortos
com suas terríveis notícias.
Porque as palavras chegam sempre muito tarde
ou muito antes.
Porque de fato é outro,
sempre outro,
o que fala,
e porque aquele de quem se fala
cala.









25 de abril de 2017

primavera



passei uns meses sem saber se queria ou não a primavera deste ano. no verão passado ganhei uns ovos de bicho da seda e sabia que quando brotassem as amoreiras, tiraria os ovos do frio, esperaria que eclodissem, e alimentaria lagartas, no princípio minúsculas, que cresceriam a cada dia.
tenho questões com lagartas. destas questões antigas e inexplicáveis.
gosto dos silêncios, dos ciclos, dos casulos, admiro os fios de seda e as pequenas borboletas a reiniciar o movimento. mas enfrentar as lagartas em seus gestos de lagarta...
nesse momento devem ser umas duzentas, movendo patas minúsculas e bocas. são frágeis.
meu espanto repousa numa caixa de sapatos no balcão da cozinha. pequenos furos para não nos faltar o ar.
primavera estranha esta.

24 de abril de 2017

um poema de elisabeth bishop

A arte de perder

A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério. ”

(tradução de Paulo Henriques Britto)


One Art

The art of losing isn’t hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn’t hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother’s watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn’t hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn’t a disaster.

-Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan’t have lied. It’s evident
the art of losing’s not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.

20 de abril de 2017

entre as tulipas sempre é primavera


vários caminhos diferentes vão me levando para a tradução de poemas de attila jozsef, nascido na hungria em 1905 e morto em 1937, sem que se saiba ao certo se acidente ou suicídio.
o primeiro caminho que me levou até ele foi meu pai. um dia conversando, selecionamos alguns poemas que poderiam ser um bom exercício de tradução conjunta. mas nao seguimos com isso. a vida leva, a vida traz, e isso agora já não será possível. não com meu pai, ao menos.
quando resolvi retomar, soube que havia uma tradução para o catalão. na rede de bibliotecas daqui só havia um exemplar, não emprestável, num lugar distante. procurei saber quem era o tradutor e ao saber que era de valencia, perguntei ao joan navarro, poeta e amigo, se não o conheceria. além de conhecer o eduardo verger, entrou em contato com ele, conversou, e poucos dias depois já me enviava um arquivo eletronico com o conteúdo do livro que estava esgotado.
devagarinho fiz minha própria seleção e comecei a tradução. traduzir é sempre difícil. o húngaro não é uma língua fácil.
aproveitei a viagem que fiz para visitar meu tio, irmão do meu pai, e perguntei a ele se poderia me ajudar a ver o que eu tinha incluído na minha seleção, conversar sobre alguns versos, expressões.
e ali, no apartamento pequeno de uma pequena cidade do interior da hungria, no avançado da noite, enquanto eu dizia das dúvidas, ele e minha tia comentavam o que está além das linhas, liam os poemas, quase sussurro. a dor de attila. e sua voz imensa. via meu tio e nele eu via também os gestos do meu pai. os papeis sobre a mesa sob a luz amarela noite adentro.
e nisso estou: na voz do meu pai. na voz dos meus tios. esse sussurro. e na minha própria voz, ainda perdida, que procuro emprestar para attila jozsef. e o seu grito.


18 de abril de 2017

poemas de yehuda amichai

Jericó la ultima vez

La mayor parte de nuestra vida es elegías por lo que hubo
y lamento por lo que no habrá.
Viajo de un lugar a otro,
balbuceos de rey te digo
en el canal del cuello, balbuceos de rey
sin reino. No lo olvides:
midbar y dibbur* vienen de la misma raíz
y bendición y maldición tiene el mismo sonido.

El agua que fluye del último invierno
resucita en otro verano.
La sombra pasa alrededor del árbol
en círculos callados.

¡Oh, planificación de jardines y planificación deagua!
¡Oh, planificación!, ¡oh plegaria!
Allí hay silencio, allí hay rosas
viajo sin cesar
soy un novio eterno.

Y alguna vez también Jericó será
la última vez.

*desierto y habla
El mar y la playa

El mar y la playa están siempre juntos. Los dos
quieren aprender a hablar, aprender a decir
una sola palabra. El mar quiere decir “playa”
y la playa quiere decir “mar”. Se acercan, llevan
millones de años acercandose a la palabra, a la pronunciación
de la palabra. Cuando el mar diga “playa”
y la playa diga “mar”,
llegará la redención al mundo,
volverá el mundo al caos.



Los caminos son nuevos

Los caminos son nuevos, los zapatos
comprados ayer mismo, pero la marcha
es antigua y heredada.
Entendimos la llúvia sólo
cuando ya era verano y en el mundo
discutían de pasado y presente y futuro.
En el lejano valle se firmó una alianza.
Fábulas de hombres
contadas a los zorros.


O touro

O touro retornou de seu trabalho diário na arena,
depois de tomar um cafezinho com os toureiros.
Deixou-lhes, num pedaço de papel, seu endereço
correto e o lugar da capa vermelha.
A espada está cravada em sua dura cerviz.
E quando chega em casa?
Agora está na cama
com seus pesados olhos judaicos.
Compreende que também ao aço
lhe dói penetrar a carne.
Em sua reencarnação pedirá para ser espada,
pelo menos a dor permanecerá.
("A porta fica sempre aberta, se não,
a chave estará sob o umbral")
Conhece a graça noturna
e a graça verdadeira.
Na Bíblia, figura entre os animais puros.
É muito puro, é ruminante
e seu coração está partido e dividido
como suas unhas.
Em seu peito estalam as tormentas,
acres, secas,
como se brotassem de um colchão arrebentado.


*
(tradução coletiva dos editores da Editora 7 Letras)







Quiero vivir hasta que las palabras en mi boca no sean más
que movimientos y consonantes, tal vez sólo movimientos, sonidos suaves.
El alma que llevo adentro es ahora la última lengua extranjera que estudio.
Y quiero vivir hasta que todos los números sean sagrados,
no sólo el uno, no sólo el siete ni solamente el doce o el tres,
sino todos los números, veintitrés los caídos en la batalla de Huleikahat,
diecisiete kilómetros hasta el lugar encantado, treinta y cuatro
noches, ciento veintinueve días de gracia, mil trescientos años
de velocidad de la luz, cuarenta y tres momentos de felicidad
(y el número de años de mi vida sigue siendo X). Una historia de cuatro mil
años en los cuarenta y cinco minutos del examen final de la escuela.
Y no hay número para las noches y los días —pero habrán de tenerlo.
Y hasta el infinito será sagrado y entonces descansaré un reposo eterno.




Las casas siguieron en pie. Los que rezaban
siguieron rezando. El enfermo se curó o murió.

El cerebro derramado en la arena siguió pensando. Einstein
se esforzó para recordar dónde había puesto el lápiz.

Los desiertos inventaron agua. El mar descubrió por primera vez
azúcar en la boca de una niña que se había ahogado en él.

El conductor de un taxi que llevaba a una novia a su boda jugó
a las cartas con su amigo que transportaba muertos.

En las cartas el rey se ve desde arriba y desde abajo
y también la reina y los demás. Y el mundo.




Estuvimos tan cercanos el uno del otro
Como dos números de una lotería
A un decimal de distancia,
Uno de nosotros ganará, tal vez.

Cómo es bello tu rostro y tu nombre impreso en ti
Como el empaque de una conserva maravillosa :
Fruto y nombre de fruto. Estás aún dentro ?

Vendrán los años, los días
Serán tan dulces como las noches
Y bellas para todos aquellos
Que no se preocupan más del tiempo.
Será entonces cuando sabremos.

17 de abril de 2017

um poema de adelia prado

No meio da noite

Acordei meu bem pra lhe contar meu sonho:
sem apoio de mesa ou jarro eram as buganvílias brancas destacadas de um escuro.
Não fosforesciam, nem cheiravam, nem eram alvas.
Eram brancas no ramo, brancas de leite grosso.
No quarto escuro, a única visível coisa, o próprio ato de ver.
Como se sente o gosto da comida eu senti o que falavam:
"A ressurreição já está sendo urdida, os tubérculos da alegria estão inchando úmidos, vão brotar sinos”.
Doía como um prazer
Vendo que eu não mentia ele falou:as mulheres são complicadas.
Homem é tão singelo.Eu sou singelo. Fica singela também.
Respondi que queria ser singela e na mesma hora,singela, singela, comecei a repetir singela
A palavra destacou-se novíssima como as buganvílias do sonho.
Me atropelou.
— O que que foi? — ele disse.
— As buganvílias...
Como nenhum de nós podia ir mais além,
solucei alto e fui chorando, chorando,até ficar singela e dormir de novo.

16 de abril de 2017

um poema de ruy belo

Não sei nada

Conheço as palavras pelo dorso. Outro, no meu lugar, diria que sou um domador de palavras. Mas só eu – eu e os meus irmãos – sei em que medida sou eu que sou domado por elas. A iniciativa pertence-lhes. São elas que conduzem o meu trenó sem chicote, nem rédeas, nem caminho determinado antes da grande aventura.
Sim. Conheço as palavras. Tenho um vocabulário próprio. O que sofri, o que vim a saber com muito esforço fez inchar, rolar umas sobre as outras as palavras. As palavras são seixos que rolo na boca antes de as soltar. São pesadas e caem. São o contrário dos pássaros, embora “pássaro” seja uma das palavras. A minha vida passou para o dicionário que sou. A vida não interessa. Alguém que me procure tem de começar – e de se ficar – pelas palavras. Através das várias relações de vizinhança, entre elas estabelecidas no poema, talvez venha a saber alguma coisa. Até não saber nada, como eu não sei.

26 de março de 2017

um poema de fernando ferreira de loanda

Poema dos cinquenta anos

Vejo o tempo passar, perder-se, frio,
caminhando felino como um gole de água,
ou um leopardo e evaporar-se.
O amanhecer da grande cidade
e o canto dos pássaros valorizo;
e o pão e o café na mesa posta,
a erva daninha e a formiga,
coisas, sutis talvez,
sem importância para os que
me cercam: envelheço.
Cuido dos cactos, do loureiro e da goiabeira,
respondo cartas, queimo livros antigos e amigos.
Camões e Pessoa, Gullén e Vallejo fazem maior minha ilha.
Compromisso, sem que o assumisse,
só com a morte,
o demais para o diabo.

25 de março de 2017

um poema de gloria fuertes


La vida es una hora,
apenas te da tiempo a amarlo todo,
a verlo todo.
La vida sabe a musgo,
sabe a poco la vida si no tienes
más manos en las manos que te dieron.
Al final escogemos un lugar peligroso,
un pretil, una vía,
la punta de un puñal donde pasar la noche.

24 de março de 2017

um poema de herberto helder

"Poemacto I"

Deito-me, levanto-me, penso que é enorme cantar.
Uma vara canta branco.
Uma cidade canta luzes.
Penso agora que é profundo encontrar as mãos.
Encontrar instrumentos dentro da angústia:
clavicórdios e liras ou alaúdes
intencionados.
Cantar rosáceas de pedra no nevoeiro.
Cantar sangrento nevoeiro.
O amor atravessado por um dardo
que estremece o homem até às bases.

Cantar o nosso próprio dardo atirado
ao bicho que atravessa o mundo.
Ao nome que sangra.
Que vai sangrando e deixando um rastro
pela culminante noite fora.
Isso é o nome do amor que é o nome
do canto. Canto na solidão.
O amor obsessivo.
A obsessiva solidão cantante.
Deito-me, e é enorme. É enorme levantar-se,
cegar, cantar.
Ter as mãos como o nevoeiro a arder.

As casas são fabulosas, quando digo:
casas. São fabulosas
as mulheres, se comovido digo:
as mulheres.
As cortinas ao cimo nas janelas
faíscam como relâmpagos. Eu vivo
cantando as mulheres incendiárias
e a imensa solidão
verídica como um copo.
Porque um copo canta na minha boca.
Canta a bebida em mim.
Veridicamente, eu canto no mundo.

Que falem depressa. Estendam-se
no meu pensamento.
Mergulhem a voz na minha
treva como uma garganta.
Porque eu tanto desejaria acordar
dentro da vossa voz na minha boca.
Agora sei que as estrelas são habitadas.
Vossa existência dura e quente
é a massa de uma estrela.
Porque essa estrela canta no sítio
onde vai ser a minha vida.

Queimais as vossas noites em honra
do meu amor. O amor é forte.
Que coisa forte que é a loucura.
Porque a loucura canta minada de portas.
Nós saímos pelas portas, nós
entramos para o interior da loucura.
As cadeiras cantam os que estão sentados.
Cantam os espelhos a mocidade
adjectiva dos que se olham.
Estou inquieto e cego. Canto.
A morte canta-me ao fundo.
É um canto absoluto.

Imagino o meu corpo, uma colina.
Meu corpo escada de estrela.
Nata. Flecha. Objecto cantante.
Corpo com sua morte que canta.
Imagino uma colina com vozes.
Uma escada com canto de estrela.
Imagino essa espessa nata cantante.
Uma que canta flecha.
Imagino a minha voz total da morte.
Porque tudo canta e cantar é enorme.

Imagino a delicadeza. A subtileza.
O toque quase aéreo, quase
aereamente brutal.
Ser tocado pelas vozes como ser ferido
pelos dedos, pelos rudes cravos
da planície.
Ser acordado, acordado.
Porque cantar é um subterrâneo.
Depois é um pátio.
Imagino que as vozes são escadas.
Vozes para atingir o canto.
O canto é o meu corpo purificado.

Porque o meu corpo tem uma sua morte
tocada incendiariamente.
A morte - diz o canto - é o amor enorme.
É enorme estar cego.
Canta o meu grande corpo cego.
Reluzir ao alto pelo silêncio dentro.
O silêncio canta alojado na morte.
Deito-me, levanto-me, penso que é enorme cantar.

22 de março de 2017

rota de fuga, fuga

(interseção aparente de duas ou mais retas paralelas para quem observa num dado momento)

não importa aonde vá, desde que possa fugir se preciso. uma porta, uma estrada, um pensamento qualquer coisa a nos tirar deste um lugar concreto para outro, abstrato. esteja atenta aos caminhos. ao entrar – navio, avião –, repare, a primeira coisa: aqui coletes, ali saídas, luzes, apitos. direções. máscaras de oxigênio cairão puxe uma afixe. primeiro, você. depois, quem precise respire naturalmente não entre em pânico. e, no entanto, um mínimo sinal ou equívoco de máscaras sobre nossas cabeças, emergência e já o desespero busca rotas que nos conduzam à. não leve nada, deixe as chaves na bolsa livros óculos dentaduras deixe os sapatos de salte sobre a asa do avião. feche os olhos.

quando abro
(o tema é repetido por outras vozes que entram sucessivamente entrelaçando-se. enquanto a primeira desenvolve um acompanhamento contrapontista as restantes chegam, uma a uma, iniciando sempre com o mesmo tema até se utilizarem todas. fosse pequena, seria uma fugueta, se abre uma rota)
é a hora do perigo.



20 de março de 2017

um poema de nikola madzirov

Depois de nós


Um dia alguém dobrará nossas mantas
e as enviará pra lavanderia
pra limpar delas até o último grão de sal,
abrirá nossas cartas e as ordenará por datas
e não pelas vezes que foram relidas.

Um dia alguém moverá os móveis do teu quarto
como peças de xadrez no início de outra partida,
abrirá a velha caixa de sapatos
em que guardamos os botões caídos dos pijamas
e as pilhas ainda não usadas e toda a fome.

Um dia voltaremos a ter dor nas costas
pelo peso das chaves de um quarto de hotel
e a desconfiança com que o recepcionista
nos entrega o controle remoto.

A compaixão alheia nos acompanhará
como a lua acompanha um menino perdido.

19 de março de 2017

um poema de ingeborg bachmann

Todos los días

Ya no se declara la guerra,
se prosigue. Lo inconcebible
se ha hecho cotidiano. El héroe
permanece alejado de los combatientes. El débil
ha avanzado hasta las zonas de fuego.
El uniforme de diario es la paciencia,
la condecoración, la mísera estrella
de la esperanza sobre el corazón.

Se concede
cuando ya no pasa nada,
cuando el fuego nutrido ha enmudecido,
cuando el enemigo se ha hecho invisible,
y la sombra del armamento eterno
oscurece el cielo.

Se concede
por abandonar las banderas,
por el valor ante el amigo,
por revelar secretos indignos
y desacatar
toda orden.

18 de março de 2017

17 de março de 2017

um poema da pintora agnes martin

La mente imperturbada 
(Agnes Martin, pintora, quando convidada para uma conferencia, apresentou este poema)

La gente cree que pintar tiene que ver con el color
Es fundamentalmente composición
La composición lo es todo
La imagen clásica –
Dos fuentes Tang tardías, una con la imagen de una flor,
otra vacía – la forma vacía se proyecta hacia el cielo
Es la forma clásica – un peso más ligero
Mi trabajo es anti-naturaleza
La montaña de los cuatro elementos
No pensarás en forma, espacio, línea, contorno
Sólo una sugerencia de la naturaleza otorga peso
leve o intenso
ligero como una pluma
si eres lo bastante ligero, levitas
Cuando digo que vive, está inspirado
vivo
La inspiración y la vida son equivalentes y proceden del
exterior
La belleza es penetrante
la inspiración es penetrante
Decimos esta rosa es bella
Y cuando es destruida hemos perdido algo
por lo que esa belleza se ha perdido
Cuando la rosa es destruida nos afligimos
pero en realidad la belleza es libre
y una mente libre lo percibe
La rosa representa a la naturaleza pero no es la rosa
la belleza es libre, es inspiración – es inspiración
El cultivo de la sensibilidad, la respuesta a la belleza
En la primera infancia, cuando la mente no ha sido perturbada
la inspiración es más común
el niño pequeño sentado en la nieve
la educación de los niños – el desarrollo social contradice
el desarrollo estético
La naturaleza es conquista, posesión, comida, sueño, procreación
No es estética, no el tipo de inspiración que me interesa
La naturaleza es la rueda
Cuando sales de la rueda observas el exterior
Das la espalda a la confusión
Nunca descansas en la naturaleza, es algo hambriento
Todos los animales están uncidos al hambre
No es que no crea en que hay que comer
tan sólo quiero distinguir entre
arte y comida
Me gusta esta pintura porque puedes entrar en ella y descansar
La satisfacción del apetito resulta imposible
La satisfacción del apetito es frustrante
Por eso siempre es mejor tener un poco de hambre
Así contradices la necesidad
No estoy a favor del ascetismo
Pero el truco absoluto en la vida es hallar descanso
Si hay vida en la composición, ésta estimula tus instantes vitales
tus instantes felices, tu cerebro es estimulado
San Agustín dice que la leche no viene de la madre
Pinté un cuadro llamado Milk River
Las vacas no dan leche si carecen de hierba y agua.
El tremendo sentido de esto es que los pintores no pueden ofrecer
nada al observador
La gente recibe lo que necesita de una pintura
El pintor no tiene que morir por responsabilidad
Cuando tienes inspiración y representas la inspiración
El observador hace la pintura
El pintor hace la pintura
El pintor no tiene la responsabilidad de estimular sus necesidades
Es un dilatado proceso
Ningún sufrimiento es innecesario
Todo es iluminador, así es la vida
El ascetismo es un error
Buscar el sufrimiento es un error
pero lo que llega hasta ti en libertad te ilumina
Solía pintar montañas aquí, en Nuevo México, y pensaba
que la llanura era todo
solo la llanura
Si dibujas una diagonal, queda suelta en ambas puntas
No me gustan los círculos – demasiado expansivos
Cuando dibujo horizontales
observas este gran avión y tienes la sensación de que
te expandes por encima de él
Todo puede ser pintado sin representación
No creo en las influencias
A menos que seas tú, tú mismo siguiendo tus propias huellas
Por qué, nunca llegarás a ninguna parte
No creo en lo ecléctico
Creo en la repetición
Creo que es un retorno al clasicismo
El clasicismo no tiene que ver con la gente
y este trabajo no versa sobre el mundo
Llamamos idealismo al clasicismo griego
El idealismo parece algo por lo que esforzarse
Ellos no se esforzaron por el idealismo
Seguid lo que Platón tiene que decir
Los clásicistas son personas cuya búsqueda da la espalda al mundo
Representa algo imposible en el mundo
Una perfección imposible en el mundo
Es muy poco subjetivo
El ideal en América es el hombre natural
El conquistador, aquel capaz de acumular
Aquel que supera las desventajas, fuerza, valor
Mientras la inspiración, el arte clásico, depende de la inspiración
Las sílfides – dependo de las musas
Las musas me socorren
Existe en la mente
Antes de representarse en papel existe en la mente
El punto – no existe en el mundo
Lo clásico es fascinante
un período clásico
es clásico porque es impersonal
lo desvinculado e impersonal
Si alguien se interna en las montañas, eso no es desvinculado
e impersonal, tan sólo rememora
Lo desvinculado e impersonal se relaciona con la libertad
Esa es la respuesta a la inspiración
La mente imperturbada
Platón decía que todo cuanto existe no son sino sombras
Para una persona desvinculada la complejidad de la vida arraigada
es como el caos
Si no amas el caos eres un clasicista
Si lo amas eres un romántico
Alguien dijo que toda emoción humana es una idea
La pintura no tiene que ver con ideas o emoción personal
Cuando pintaba en Nueva York no lo tenía tan claro
Ahora tengo muy claro que el objeto es libertad
no libertad política, que es un eco apenas
no libertad respecto a las costumbres sociales
sino libertad respecto al dominio y la esclavitud
libertad respecto a lo que te aniquila
libertad para el acierto y el error
En el Génesis, Eva comió la manzana del conocimiento
del bien y del mal
Si renuncias a la idea del bien y del mal
nada logras
Tan sólo te liberas de todo
libertad respecto a las ideas y la responsabilidad
Si la inspiración te anima te abres al acontecer
no podrás vivir la vida moral, obedecerás al destino
no podrás vivir la vida inspirada y seguir las convenciones
no podrás hacer promesas
El futuro es una página en blanco
Fingí abismarme en la página en blanco
Buscaba mentalmente la página no escrita
Si me mente se vaciaba era capaz de verla
No pinté el avión
Tan sólo esbocé la línea horizontal
Luego descubrí las otras líneas
Pero tuve claro que amaba la línea horizontal
A continuación pinté dos rectángulos
composición correcta
si hemos de darles la razón
No puedes evadirte de tu tarea
Ellos llegan en un equilibrio interior
como si añadir algo fuera innecesario
La gente mira un color que no está ahí
nuestras respuestas son estimuladas
Las pinto bajo una luz directa
En aquel momento ignoraba exactamente por qué
había pintado esos rectángulos
De Isaías, acerca de la inspiración:
“Sin duda, la gente es hierba”
Bajas hasta el río
eres como yo
flota una hoja de naranjo
eres como yo
Entonces pinto esos rectángulos
Toda la gente era como esos rectángulos
Son como la hierba
Ese es el camino a la libertad
Si imaginas que eres un grano de arena
conoces las edades de la roca
Si imaginas que eres una roca
la roca del tiempo escindida de mí
déjame ocultarme en ti
No has de preocuparte
si imaginas que eres una roca
se extinguen todos tus problemas
Es un consuelo
La arena es mejor
Eres mucho más pequeño que un grano de arena
Somos tanto más insignificantes
Estas pinturas abrazan la libertad respecto a las inquietudes del mundo
lo mundanal
No la religión
No tienes que ser religioso para que te inunde la inspiración
La senilidad es rememorar con nostalgia
la senilidad es falta de inspiración en la vida
El arte aviva inspiraciones y despierta sensibilidades
es la función del arte
Cuando se le presentaba un problema, el chico
extraía la roca del lodo
se convertía en roca
invocaba una visión de la quietud
La idea es independencia y soledad
nada religioso en mi retiro
la religión desde mi punto de vista
tiene que ver con esta hierba
La hierba disfruta la caricia del viento
Disfruta de las evoluciones del viento
La hierba pensó que el viento es un gran consuelo
además acerca las nubes de lluvia
De hecho debemos todo lo que somos al viento
Deberíamos contar al viento nuestra gratitud
quizá si caemos y nos humillamos
Podremos obtener más – podremos evitar el sufrimiento
Eso es religión
soledad e independencia de una mente libre
Nada de lo que sucede en tu vida concede inspiración
Cuando tus ojos se abren
percibes belleza en todo
Blake tiene razón en que no hay diferencia
entre la cosa entera
y una sola cosa
Liberarse del sufrimiento
el sufrimiento es necesario para liberarse del sufrimiento
Primero debes encontrar el motivo por el cual sufres
Mi pintura versa sobre la impotencia
Somos ineficaces
En una gran pintura una brizna de hierba equivale a poco
Las preocupaciones se desprenden de ti cuando crees eso
el orgullo queda abolido cuando piensas eso
El remordimiento es algo que comprendo bien
La ola entera
se aplica a la vida, la ola
Igual que en el inicio, no había división
ni separación
No mires las estrellas
Entonces tu mente irá libremente – mucho, mucho más allá
Atraviesa la lluvia con la mirada
las gotas son insulares
Intenta recordar lo anterior a tu nacimiento
El conquistador luchará contigo
si no hay nadie más alrededor
Estoy constantemente tentada a pensar que puedo salvarme
observando mi mente descubro qué la habita
haciendo aflorar los pensamientos observo cómo
se disuelven
Puedo ver mi ego y ver sus intenciones
Puedo ver que soy yo y es impotente como toda naturaleza
impotente en el proceso de disolución del ego, de sí mismo
Puedo ver que su principal intención es la conquista y la destrucción
del ego, de sí
y sólo puede ir y volver en una batalla constante con sí mismo
reiterándose
Sería una batalla eterna si todo dependiera del ego
porque no destruye y no es destruido por sí mismo
Es como una ola
se conforma a sí mismo, se precipita para no llegar a lugar alguno
se estrella, retrocede y se recompone
se eleva orgulloso
se apresura a una conquista imaginaria
se estrella, frustrado
retrocede arrepentido y contrito
reúne sus fuerzas con una nueva determinación
Individual y colectivamente idénticos
niño entrenado en el orgullo y el patriotismo
fortaleciendo el espíritu nacional
lanzándose a la conquista
Victoria y derrota y frustración
retirada y arrepentimiento
el mayor orgullo
la rueda de la vida
orgullo
conquista
Victoria derrota frustración
contrición arrepentimiento
resolución
orgullo
Más personas son las que a temprana edad descubren al conquistador en sí mismas
y buscan la forma de superarlo mediante otro proceso
la verdadera derrota del ego en la que no tomamos parte
La disolución del ego en la realidad, como al principio
como era antes de vivir desvinculados e insulares
el proceso que llamamos destino
en el que somos los materiales que han de disolverse
Comemos
procreamos
Morimos
Observamos el proceso y reconocemos el sufrimento como la derrota del
ego en el proceso del destino
Podemos renunciar al orgullo, conquista, remordimiento y resolución
inevitablemente, mientras el destino se despliega
Mecida en la montaña puedo descansar
Soledad y libertad son idénticas
bajo toda hoja caída
Otros no existen realmente en soledad, yo no existo
no pensar en otros aun cuando están allí, ninguna interrupción
un místico y una persona son lo mismo
Noche, intemperie, errancia
Yo, como el venado, observé
hallando lo que mengua
viviendo en lo que mengua
vivir es pastorear
la memoria, rumia
alejarse de todo
abandonarlo todo
abandonarlo todo
no a mí, ya no,
ego retirado, errancia
en la monntaña
no más conquistas, ningún enemigo para nadie
ego retirado, errancia
ningún amigo, maestro, esclavo
todos los opuestos muertos al mundo y él mismo sin responsabilidad
tal vez ahora pueda disfrutar de la navegación
aventuras en la oscuridad
muy excitante
Bestias que parecen yacer muertas
Él es muy suave
No buscaré aventura pero podría suceder, supongo
La acción inspirada es destino
nuestros pies son los senderos de la rectitud
los senderos que nuestros pies siguen están trazados
Como los ríos corren hacia el mar
y la planta crece hacia el sol
así fluimos y crecemos y existimos
El éxtasis juega con ángeles sílfide
Mientras oteo en mi mente y nada descubro
Las sílfides han capturado a la bestia y la cepillan
un sol muy agradable, eso es el destino
como acicalarse
La idea
La súbita realización de la destrucción de la inocencia por el ego
En la soledad no hay consuelo
pensando en los demás y en mí misma, incluso las plantas
Me inquieto al instante
porque mi soledad ha sido interrumpida
soledad, inspiración
Hacia el oeste, bajando la montaña
Soy nada absolutamente
Lo otro sucede
la purificación de la realidad
es todo cuanto sucede
cuanto sucede en ese proceso
no la naturaleza, la disolución de la naturaleza
El error consiste en pensar que cumplimos
un papel en el proceso
Hasta donde podemos pensar, mostramos resistencia
Advierto que no tengo nada que ver con el proceso
Es muy agradable
El todo de todo, realidad, mente
el proceso del destino
como el océano que desborda
como un solemne viaje sin perturbaciones ni objetivos
Soledad
al margen de la naturaleza
sonriendo
Todos son elegidos y todos lo saben
también animales y plantas
Sólo el todo del todo
Todo es eso
Toda acción y pensamiento infinitesimal forma parte de
una maravillosa victoria
“libertad en la montaña, un destello de victoria”
Parece que ganamos y perdemos,
pero en realidad no hay pérdida
El contoneo de un gusano es tan importante como el asesinato de un
presidente


Traducción: Antonio F. Rodriguez y Lola Nieto

16 de março de 2017

um poema de gary snyder

Para los niños

Las altas colinas, las cuestas,
de estadísticas
están ante nosotros.
la subida escarpada
de todo, sube,
sube, mientras todos nosotros
bajamos.

El siglo que viene
o el siguiente,
dicen,
habrá valles, pastos,
nos podemos encontrar allí en paz
si llegamos.

Para subir estas cumbres venideras
una palabra para ti, para
ti y para tus hijos;

estad juntos
aprended las flores
id ligeros


Tradução: Jose Luis Regojo

(La isla de la tortuga, kriller71ediciones)

4 de março de 2017

...


para que olhos grandes, se na boca, dizem, levam um diamante que ilumina travessias noturnas por densas florestas?

3 de março de 2017

um poema de amalia bautista



Al cabo

Al cabo, son muy pocas las palabras
que de verdad nos duelen, y muy pocas
las que consiguen alegrar el alma.
Y son también muy pocas las personas
que mueven nuestro corazón, y menos
aún las que lo mueven mucho tiempo.
Al cabo, son poquísimas las cosas
que de verdad importan en la vida:
poder querer a alguien, que nos quieran
y no morir después que nuestros hijos.

26 de fevereiro de 2017

um poema de adélia prado

Sedução

A poesia me pega com sua roda dentada,
me força a escutar imóvel
o seu discurso esdrúxulo.
Me abraça detrás do muro, levanta
a saia pra eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar.
Ela responde passando
a língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar,
fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga,
aproveito pra me safar.
Eu corro ela corre mais,
eu grito ela grita mais,
sete demônios mais forte.
Me pega a ponta do pé
e vem até na cabeça,
fazendo sulcos profundos.
É de ferro a roda dentada dela.

25 de fevereiro de 2017

apám-anyám

quando a gente morre, deixa de fazer aniversário. é a morte dos mortos que aniversaria. fosse vivo, seriam 83 anos. hoje. porque morto, quase oito meses deste tempo que se desdobra em câmera lenta.
um dia conversamos sobre traduzir poemas. a primeira sugestão foi este poema do attila jozsef.

Minha mãe
Segurando a caneca com as duas mãos
num domingo ao anoitecer
ela sorriu silenciosamente
e ficou um tempinho sentada na penumbra

Numa panela pequena tinha trazido pra casa
um resto do jantar dos patrões
e quando fomos domir fiquei pensando
que eles comiam uma panela inteirinha --

Minha mãe era pequena, morreu cedo
porque as lavadeiras morrem cedo
de tanto peso, as pernas tremem,
de tanto passar, a cabeça dói --

Por paisagem, a montanha de roupa suja
O brincar de seguir nuvens
é olhar o vapor e mudar de ares,
para uma lavadeira, é ir ao sótão--

Vejo como ela para com o ferro nas mãos.
Sua frágil estrutura o capital
quebrou e ia ficando cada vez mais magra
Imaginem, proletários --

De tanto lavar foi se encurvando.
Eu não sabia que, quando moça,
em seu sonho usava um avental limpo
e o carteiro a saudava – –
1931

Anyám
A bögrét két kezébe fogta,
úgy estefelé egy vasárnap
csöndesen elmosolyodott
s ült egy kicsit a félhomályban – –
Kis lábaskában hazahozta
kegyelmeséktől vacsoráját,
lefeküdtünk és eltünődtem,
hogy ők egész fazékkal esznek – –
Anyám volt, apró, korán meghalt,
mert a mosónők korán halnak,
a cipeléstől reszket lábuk
és fejük fáj a vasalástól – –
S mert hegyvidéknek ott a szennyes!
Idegnyugtató felhőjáték
a gőz s levegőváltozásul
a mosónőnek ott a padlás – –
Látom, megáll a vasalóval.
Törékeny termetét a tőke
megtörte, mindíg keskenyebb lett –
gondoljátok meg, proletárok – –
A mosástól kicsit meggörnyedt,
én nem tudtam, hogy ifjú asszony,
álmában tiszta kötényt hordott,
a postás olyankor köszönt néki – –
1931

24 de fevereiro de 2017

dois poemas de leandro durazzo

os pavões comeram os brotos de mamoeiro.
uma avó faleceu hoje cedo. como sempre,
estou distante, mas acendo
uma vela no altar, um incenso, e saio a catar
folhas secas em torno da casa. mosquitos me acossam
enquanto eu coço as pernas, pensando
melhor, rastelando
sem muito pensar.
é fim de inverno, as plantas
morrem para nascer outra hora, em outros pés, outros lugares.
rastelo as folhas caídas, sentindo o cheiro da grama
viva por sob tudo. um sagüi se pendura no cajueiro,
mascando o sumo, comendo o fruto que ainda não.
um bem-te-vi pousa perto, as folhas secas eu jogo
por cima da cerca, direto no matagal. todo passado há de adubar,
todo presente há. na ponta de um ramo seco
desponta uma folha verde. o ninho de passarinhos vive.




O cheiro do ralo
Quando as coisas curiosamente se tornarem tortas, estranhas, fora do lugar como uma foca albina, não sinta pena de si mesmo, nem de nada, nem de voo. Quando as coisas se esquecerem delas próprias, não se esqueça. Se alguma coisa for engano, se algum engano for a coisa, o meio termo de tua vida não deve te deixar de cama. A um nível cósmico tua vida não importa. A um nível micro, há mais coisas a fazer. O teu pequeno incômodo não se encontra nem na alta nebulosa nem na urgência do banheiro, na pequenez do ralo entupido, da banheira. Confie que o universo sabe tomar conta de si. Quando tua meia vida parecer errada, faça o que é preciso fazer, dê atenção ao que precisa ser atentado. Ajoelhe-se e limpe o ralo. Não há qualquer razão para tua mente estar em outro lado, em outro estado. Se a água não escoa mais, se é de limpeza que ali precisa, chegue lá, faça aquilo. De joelhos nos ladrilhos, com as mãos - de preferência -, seja a limpeza. Ouça as nebulosas longe se movendo, ouça estrelas, olhe a água suja a ser sugada novamente. Se o ralo entope, limpe-o. Não há qualquer razão que te autorize a não fazê-lo.



Cuando las cosas, curiosamente, se vuelvan del revés, extrañas, fuera de lugar como una foca albina, no sientas pena por ti mismo, ni por nada, ni por el vuelo. Cuando las cosas se olviden de sí mismas, no te olvides. Si alguna cosa fuera un engaño, si algún engaño fuera la cosa, el término medio de tu vida no debe dejarte en cama. A nivel cósmico tu vida no importa. A nivel micro, hay más cosas por hacer. Tu pequeño malestar no se encuentra ni en la alta nebulosa ni en la urgencia del cuarto de baño, en la pequeñez de la rejilla atascada de la bañera. Confía en que el universo sepa cuidar de sí mismo. Cuando tu media vida te parezca equivocada, haz lo que hay que hacer, atiende a lo que hay que prestar atención. Arrodíllate y limpia la rejilla. No hay ninguna razón para que tu mente esté en otro lado, en otro estado. Si el agua no corre, si lo que hace falta es limpieza, ve, hazlo. De rodillas sobre las baldosas, con las manos –preferentemente– sé tú la limpieza. Escucha las nebulosas moviéndose a lo lejos, escucha estrellas, mira el agua sucia como es absorbida de nuevo. Si la rejilla se atasca, límpiala. No hay ninguna razón que te permita no hacerlo.


(traducción: v.paulics y joan navarro)

22 de fevereiro de 2017

um texto de ricardo domeneck

Sempre detestei números. Aos oito anos, recusei-me por semanas a repetir a tabuada todos os dias. Já sabia que dois e dois são quatro. Ditadura das certezas. Minha estratégia: fazer tarefa extra de português, como escrever TODOS OS DIAS a lista de substantivos coletivos. Mecânica por mecânica, tenho outras prioridades. Dei-me mal. Recado da professora para Dona Cida minha mãe (em tinta vermelha!). Humilhação doméstica e escolar. Ora, Dona Giselda da segunda série, eu já decorei seus 2x2=4! Meu coração já está repleto destas adições, subtrações, multiplicações e divisões. Mas veja a beleza das colmeias e das matilhas! Das chusmas e das legiões, essas multiplicações fluidas! Levaria anos para descobrir Cummings e seu 'São 5'. Resultado: meu ódio a convicções pétreas, minha lealdade aos coletivos.

assembleia pessoas
alcateia lobos
acervo livros
antologia trechos literários
arquipélago ilhas
banda músicos
bando malfeitores
banca examinadores
batalhão soldados
cardume peixes
caravana viajantes peregrinos
cacho frutas
cáfila camelos
cancioneiro canções
colmeia abelhas
chusma pessoas
concílio bispos
congresso parlamentares, cientistas.
elenco atores
esquadra navios
enxoval roupas
falange soldados, anjos
fauna animais de uma região
feixe lenha, capim
flora vegetais de uma região
frota navios mercantes, ônibus
girândola fogos de artifício
horda invasores
junta médicos, bois, credores
júri jurados
legião soldados, anjos, demônios
leva presos, recrutas
malta malfeitores ou desordeiros
manada búfalos, bois, elefantes,
matilha cães
molho chaves, verduras
multidão pessoas em geral
ninhada pintos
nuvem insetos (gafanhotos, mosquitos, etc.)
penca bananas, chaves
pinacoteca pinturas, quadros
quadrilha ladrões, bandidos
ramalhete flores
rebanho ovelhas
récua bestas de carga
repertório peças teatrais, obras musicais
réstia alhos ou cebolas
romanceiro poemas narrativos
revoada pássaros
sínodo párocos
talha lenha
tropa muares, soldados
turma estudantes, trabalhadores
vara porcos

21 de fevereiro de 2017

trecho de um poema de marina tsvetaeva

"A morte se reúne em meus olhos
abre uma rosa branca
fecha-se lentamente
como a mão ferida
onde bate um pequeno coração de gaivota."

daqui 
http://revistamododeusar.blogspot.com.es/…/benjamn-prado.ht…

(procurei desesperadamente este poema. ao encontrá-lo, concluo que é só um trecho. e na verdade o que encontro é uma citação que se faz dele dentro de um outro poema. as palavras que eu lembrava eram rosa branca mão coração pássaro. sem saber quem que língua que universo ou tempos esta poesia tinha lido os meus dias.)

20 de fevereiro de 2017

um poema de edmundo camargo

Voz Mínima 

El viento llena su red
con pájaros
y a la noche el viento la llena
con astros.
Mas se el viento entra a mi alma
y la sacude, las hojas
caen a través de mis ojos.

Su canto estaba lleno
de luciérnagas
y su palabra percutida
era un rostro de vidrio
al silencio.
Calló, y entró la noche
a llenar el vacío.

El polvo se alzó en cruces
la piedra manó sed
los pájaros
huyen mi corazón
mientras el aire
quiebra su vuelo petrificado
como lanzas de cristal.



Su puerta estaba cerrada
como la cicatriz
de su ausencia.
Pasó mi pie
mas se quedó mi alma
como perro guardián
a orilla de una tumba.

17 de fevereiro de 2017

um poema de blanca varela

Es fría la luz

Es fría la luz de la memoria
lo apenas entrevisto brilla
con insistencia
gira buscando el casco de botella
o el charco de lluvia


tras cualquier puerta que se abre
está la luna
tan grande y plana
tan fuera de lugar
como si de un cuadro se tratara
óleo sobre papel
endurecido por el tiempo

así cayeron en la mente
formas y colores
casualidades
azar que anuda sombras
vuelcos en la negra marmita
donde a borbotones
se cuecen gozo y espanto

crece el yeso de un cielo
mil veces lastimado
mil veces blanqueado
se borra el mundo y se vuelve
a escribir
hasta el último aliento

sólo esto
eternidad aparente
mísera astilla de luz en
la entraña
del animal
que apenas estuvo

15 de fevereiro de 2017

um poema de adrienne rich


O poder

Vivendo nos sedimentos-de-terra da nossa história

Hoje de um flanco de terra a esboroar-se um ancinho divulgou
uma garrafa âmbar perfeita cura
centenária para a febre ou melancolia um tónico
para viver nesta terra nos invernos deste clima

Hoje lia sobre Marie Curie:
ela devia saber que sofria de radiações
o corpo bombardeando anos a fio pelo elemento
que ela tinha purificado
Parece que negou até ao fim
a origem das cataratas dos olhos
a pele rachada e purulenta das pontas dos dedos
até já não conseguir segurar um tubo de ensaio ou lápis

Morreu mulher famosa negando
as suas feridas
negando que
as suas feridas tinham a mesma origem que o seu poder.

(tradução: Maria Irene Ramanho e Monica Varese Andrade, via Laura Erber)

13 de fevereiro de 2017

um poema de j. cortázar

Para leer en forma interrogativa

Has visto
verdaderamente has visto
la nieve los astros los pasos afelpados de la brisa
Has tocado
de verdad has tocado
el plato el pan la cara de esa mujer que tanto amás
Has vivido
como un golpe en la frente
el instante el jadeo la caída la fuga
Has sabido
con cada poro de la piel sabido
que tus ojos tus manos tu sexo tu blando corazón
había que tirarlos
había que llorarlos
había que inventarlos otra vez.

9 de fevereiro de 2017

um poema de pedro henriques britto

Madrigal

Desista: não vai dar certo.
O mundo é o mesmo de sempre,
desejo é uma coisa cega.
Desista, enquanto é tempo.


As mãos não sabem o que pegam,
os pés vão aonde não sabem.
As cartas estão marcadas:
vai dar desgraça na certa.

O mundo é sempre a esmo,
desejo é uma porta aberta.
Desista, que a vida é incerta.
Ou insista. Dá no mesmo.

8 de fevereiro de 2017

um poema de hilda hilst

XVI
“O que vemos das coisas são as coisas.”
Fernando Pessoa

As coisas não existem.
O que existe é a ideia
melancólica e suave
que fazemos das coisas.
A mesa de escrever é feita de amor
e de submissão.
No entanto
ninguém a vê
como eu a vejo.
Para os homens
é feita de madeira
e coberta de tinta.
Para mim também
mas a madeira
somente lhe protege o interior
e o interior é humano.
Os livros são criaturas.
Cada página um ano de vida,
cada leitura um pouco de alegria
e esta alegria
é igual ao consolo dos homens
quando permanecemos inquietos
em resposta às suas inquietudes.
As coisas não existem.
A ideia, sim.
A ideia é infinita
igual ao sonho das crianças.

7 de fevereiro de 2017

um poema de adília lopes

No more tears

Quantas vezes me fechei para chorar
na casa de banho da casa da minha avó
lavava os olhos com shampoo
e chorava
chorava por causa do shampoo
depois acabaram os shampoos
que faziam arder os olhos
no more tears disse Johnson & Johnson
as mães são filhas das filhas
e as filhas são mães das mães
uma mãe lava a cabeça da outra
e todas têm cabelos de crianças loiras
para chorar não podemos usar mais shampoo
e eu gostava de chorar a fio
e chorava
sem um desgosto sem uma dor sem um lenço
sem uma lágrima
fechada à chave na casa de banho
da casa da minha avó
onde além de mim só estava eu
também me fechava no guarda-vestidos grande
mas um guarda-vestidos não pode se fechar por dentro
nunca ninguém viu um vestido a chorar

6 de fevereiro de 2017

um poema de anne sexton

Tal vez la tierra flote,
no lo sé.
Tal vez las estrellas sean figuritas de papel
cortadas por una tijera gigante,
no lo sé.
Tal vez la luna es una lágrima congelada,
no lo sé.
Tal vez Dios sea una voz profunda
que un sordo oye,
no lo sé.
Tal vez no soy ninguna.
Es cierto, tengo un cuerpo
y no puedo escaparme de el.
Me encantaría volar lejos de mi cabeza,
pero sobre eso no hay discusión.
Está escrito en la tabla del destino
que permanezca acá, metida en esta forma humana.
Siendo ese el asunto,
quiero llamar la atención sobre mi problema.
Dentro de mí hay un animal
que me agarra el corazón,
un enorme cangrejo.
Los médicos de Boston
metieron mano.
Probaron con escalpelos,
agujas, gases venenosos y todo eso.
El cangrejo persiste.
Es un gran peso.
Yo trato de olvidarlo, me ocupo de mis cosas,
cocino el brócoli, abro libros cerrados,
me cepillo los dientes, me ato los zapatos.
Probé con la plegaria,
pero cuanto más rezo más aprieta el cangrejo
y el dolor aumenta.
Una vez soñé,
tal vez fue un sueño,
que el cangrejo representaba mi ignorancia de Dios.
Pero ¿quién soy yo para creer en los sueños?


(Versión: Isaias Garde)

5 de fevereiro de 2017

um poema de barbara korun

A lua há de cobrir-me

Tenho dois animais.
Um rubro, outro azul.
Quando o azul bebe, o rubro
ataca.
E ao contrário.
Nunca consigo apanhá-los,
esticada entre o que repousa e o que corre.

Baixarei um pensamento
assim
longe longe na planície.
Não me notarão

Deitarei na relva
próximo ao poço e
adormecerei.
A lua há de cobrir-me.

Amanhã
com os primeiros raios horizontais
eles chegarão.
Extenuados, suados, focinhos espumantes.

Depois
juntos
tomaremos água.

(tradução de Aleksandar Jovanovic)

3 de fevereiro de 2017

um trecho de fernanda, de ernesto sampaio

Para se viver no presente, e para que esse presente contenha alguns germes de futuro, é preciso esquecer. Não digo perder a memória, mas seleccioná-la, distanciá-la, acomodá-la à necessidade que todos temos de saborear o presente, de manter indemnes as possibilidades de novos começos. Mas quando a memória nos cai em cima como um dilúvio, quando o passado nos submerge e afoga, estamos perdidos. Sobrevivemos entre sombras, somos almas penadas, entregues ao desespero e à cólera. Vivemos no inferno, pois inferno é a ausência de quem amamos.
É disso que este livro trata. Disso e da passagem da saudade à solidão.


2 de fevereiro de 2017

um poema de juan gelman

cerejas

essa mulher que agorinha mesmo se parece a santa teresa
no revés de um êxtase / há dois ou três beijos foi
mar absorto no colibri que voa por seu olho esquerdo
quando lhe dão de amar /

e um beijo antes ainda /
pisava o mundo corrigindo a noite
com um pretexto qualquer / na verdade é uma nuvem
a cavalo de uma mulher / um coração

que avança em elefante quando tocam
o hino nacional e ela
resmunga como um bandoneón molhado até os ossos
pela garoa nacional /

essa mulher pede esmola num crepúsculo de ondas
que lava com furor / com sangue / com esquecimento /
acendê-la é como colocar na vitrola um disco de gardel /
caem ruas de fogo de seu bairro inquebrável

e uma mulher e um homem que caminham atados
ao avental de mágoas com o qual se põe a lavar /
igual à minha mãe lavando o chão a cada dia /
para que o dia tenha uma pérola nos pés /

é uma pérola de rocio /
mamãe se levantava com os olhos cheios de rocio /
cresciam cerejas em seus olhos e a cada noite o rocio os beijava /
na metade da noite eu despertava com o ruído de suas cerejas crescendo /

o cheiro de seus olhos me abrigava no quarto /
sempre vi raminhos verdes nas mãos com que ela esfregava o dia /
limpava a sujeira do mundo /
lavava o chão do sul /

voltando a essa mulher / em suas folhas mais altas pousam
os horizontes que olhei amanhã /
os passarinhos partidos de ontem /
eu mesmo com seu nome em meus lábios /



30 de janeiro de 2017

um poema de paul celan

Salmo

Ninguém nos molda de novo com terra e barro,
ninguém evoca o nosso pó.
Ninguém.

Louvado sejas, Ninguém.
Por ti queremos
florescer.
Ao teu
encontro.

Um nada
éramos nós, somos, continuaremos
sendo, florescendo:
a rosa-de-nada, a
rosa-de-ninguém.

Com estilete claralma,
o estame alto-céu,
a coroa rubra
da palavra púrpura, que cantamos
sobre, oh, sobre
o espinho.

(Tradução: Cláudia Cavalcanti)

28 de janeiro de 2017

um poema de henrique manuel bento fialho

O mar está cheio de corpos
escalados, depenados, flutuantes,
não são peixes, nem aves,
fauna com a qual partilham apenas
a necessidade de migração,
respiraram, aprenderam a falar,
provavelmente a escrever,
esforçaram-se para andar de pé,
verticalmente, num mundo que sempre
os quis horizontais, curvados, de joelhos,
penitentes, submissos, resignados,

corpos que flutuam sem alma,
libertos das dores do mundo
que agora os olha com desconforto
ou indiferença, porque são corpos
sem nome, eventuais génios
recicláveis nas paredes de um museu,
promessas falhadas, futuros perdidos,
apenas corpos entre corpos,
que já nem o sal dos oceanos
suporta, e por isso os rejeita no seu fundo,
cuspindo-os para fora do silêncio
onde a vida talvez seja mais suportável,
menos pesada, quem sabe,

porque andar lá no fundo do mar
é bem mais viver do que flutuar
nesta insuportável superfície das águas

27 de janeiro de 2017

um poema de nelly sachs

Poema 1

Se vier alguém
de longe
com uma língua
que talvez contenha
os sons
como o relinchar da égua
ou
o piar
dos melros novos
ou
mesmo
como uma serra rangente
que corta tudo o que estiver próximo –

Se vier esse alguém
de longe
com movimentos de cão
ou
talvez de ratazana
e se for inverno
veste-o bem quente
pode também ser
que ele tenha fogo debaixo das solas
(talvez cavalgasse
um meteoro)
não brigue com ele
se o teu tapete esburacado gritar -

Um estranho tem sempre
a pátria nos braços
como uma órfã
para a qual talvez nada mais
busque do que uma sepultura.





25 de janeiro de 2017

um poema de kennet koch

Un tren puede ocultar otro
(letrero en un cruce de vías en Kenia)

En un poema, un verso puede ocultar otro verso,
Como en un cruce, un tren puede ocultar otro tren.
Es decir, si estás esperando para cruzar
Las vías, espera un momento, al
Menos después de que el primer tren haya pasado. Y lo mismo cuando lees
Espera hasta haber leído el verso siguiente-
Ahí, continuar la lectura es seguro.
En una familia una hermana puede ocultar a otra,
Por eso, cuando estés cortejándola, es mejor tenerlas todas a la vista
Si no, cuando descubras a una, puede ser que ya estés enamorado de otra.
Un padre o un hermano pueden esconder al hombre,
Si sos una mujer, al que estuviste esperando para amar.
Así que siempre delante de una cosa hay otra
Como las palabras delante de los objetos, sentimientos, ideas.
Un deseo puedo ocultar otro. Y la reputación de una persona puede ocultar
La reputación de otra. Un perro puede ocultar otro
En el pasto, que escapes del primero no quiere decir que estés a salvo;
Una lila puede ocultar otra, un montón de otras lilas y en la Via Appia una tumba
Puede ocultar muchas tumbas más. En el amor, un reproche puede ocultar a otro,
Una pequeña queja puede ocultar otra, mayor.
Una injusticia puede ocultar otra -un colono puede ocultar otro,
Un uniforme rojo chillón, otro, y otro, una columna entera. Un baño puede ocultar otro baño
Como cuando, después de bañarse, uno camina debajo de la lluvia.
Una idea puede ocultar otra: la Vida es simple
La Vida Oculta es increíblemente compleja, así como en la prosa de Gertrude Stein
Una frase oculta otra, y es asimismo otra. Y en el laboratorio
Un invento puede ocultar otro invento,
Un atardecer puede ocultar otro; y una sombra, todo un nido de sombras.
Un rojo oscuro, o un azul, o un morado -eso es una pintura
De algún seguidor de Matisse. Uno espera al lado de las vías hasta que pasen,
Esos dobles ocultos o, a veces, parecidos. Un gemelo idéntico
Puede ocultar al otro. Y podrían ser más! El obstetra
Contempla el valle de Var. Vivíamos allí, mi mujer y yo, pero
Una vida ocultó otra vida. Y ahora ella se fue y estoy aquí.
Una madre vivaz oculta a su hija desgarbada. A la vez, la hija oculta
A su propia hija vivaz. Están en
Una estación de tren y la hija lleva un bolso
Mayor que el de su madre, y lo oculta con éxito.
Al ofrecerse a cargar el bolso de la hija uno se ve confrontado por el de la madre
Y tiene que llevar ése también. Lo mismo que uno que está haciendo autostop
Puede deliberadamente ocultar a alguien más y una taza de café,
Otra, también, hasta que estés sobreexcitado. Un amor puede ocultar otro amor o el mismo amor
Como cuando "Te quiero" de pronto suena falso y uno descubre
El mejor amor persistiendo detrás, o como cuando "Estoy confundido"
oculta "Si de algo estoy seguro, es de esto"
Y un sueño puede ocultar otro, como sabemos, siempre, también. En el Jardín del Edén
Adán y Eva pueden ocultar a los verdaderos Adán y Eva.
Jerusalén puede esconder otra Jerusalén.
Cuando llegas a algo, mejor pará, y dejalo pasar
Para ver qué más hay. En casa, no importa en qué lugar
Vías internas también suponen peligros: un recuerdo
Esconde ciertamente otro, y de eso se trata la memoria,
La sucesión eterna e invertida de las entidades contempladas. Leyendo Viaje Sentimental fijate bien
Cuando hayas terminado, y busca Tristram Shandy, a ver
i está ahí, tiene que estar, más fuerte
 más profundo y hasta entonces oculto como Santa Maria Maggiore
uede estar oculta por iglesias parecidas en Roma. Una vereda
Puede ocultar otra, como cuando duermes, y
Una canción oculta otra canción; un martilleo en el piso de arriba
Oculta el sonido de la batería. Un amigo puede ocultar a otro, te sientas a los pies de un árbol
Con uno, y cuando te levantas para irte hay otro
Al que hubieras preferido estar hablándole desde el principio. Un profesor,
Un doctor, un éxtasis, una enfermedad, una mujer, un hombre
Pueden ocultar otros. Detente y deja pasar al primero.
Piensas, Ahora es seguro cruzar y eres atropellado por el siguiente. Puede ser importante
Haber esperado al menos un momento para ver lo que ya estaba allí.

Tradução de Aníbal Cristobo y Sílvia Galup,

do livro Perros ladrando en la nieve, Kriller71 Ediciones

24 de janeiro de 2017

no tempo

há quatro anos eu ia sem saber que voltava e voltava sem saber que isso de ir e vir e voltar é água e mar e movimento que não para. a gente sempre está no onde está. a gente sempre é o que é. nunca mais sendo a mesma, sendo.