12 de novembro de 2009

viaduto do chá






pedras, mapas, búzios, cartas. no centro antigo da cidade, mulheres se predizem futuros bons. vai ser feliz. ter um filho. vai casar. ganhar muito dinheiro.
e um sapateado largo se firma por dentro dela, quase alma. despudorada. vai depor contra um homem que nem conhece direito e sem saber o significado da vida.
sabe apenas que segue. hoje atravessa a cidade. amanhã é domingo. e todas as certezas se apagarão. todos os pássaros deixarão de ser pombos. ela olha catedrais – de são paulo a paris. compara torres com seus peitos pernas firmes farturas. as portas do mundo um dia se abrirão.




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10 de novembro de 2009

imensidão

há uma rua onde é noite sempre e sempre uma cortina dança ao vento que não pára. entre vinhos, palavras e cuidados, há um homem que descreve o momento em que desentendeu o mundo.
: em gestos, desesperos, tentava dizer o que queria. sem compreender o sentido dos sons. só, um surdo mudo o decodificava no universo dos sinais e em sinais contava à mãe o que queria o homem. a mãe para o mundo incompreensível traduzia por fim o que queria sentia buscava aquele um. com seus desesperos. e silêncios.




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9 de novembro de 2009

nascimentos


lentamente perdemos os gestos de quem navega na amplidão do reduzido espaço aquático de onde viemos.




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5 de novembro de 2009

lugar comum



Beira do mar, lugar comum
Começo do caminhar
Pra beira de outro lugar
Beira do mar, todo mar é um
Começo do caminhar
Pra dentro do fundo azul
A água bateu, o vento soprou
O fogo do sol, O sal do senhor
Tudo isso vem, tudo isso vai
Pro mesmo lugar
De onde tudo sai

João Donato/Gilberto Gil

4 de novembro de 2009

wolak




olha o mar.
e chora.
do outro lado estão todos mortos.
restaram estas mulheres: ela e suas sementes.
e uma dor sutil do lado esquerdo.
que nunca mais passou.



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30 de outubro de 2009





em alguns dias de chuva na praia cabiam infinitos dias de solidão sem paredes. meu pai saído em mares. eu ficava ali, a comer uns restos. nem tantos. e o eco de um atalho a cruzar terrenos vazios e mundos até a casa do zé.
claro que ele morreu, ela disse.
sem saber o descampado que se desdobrava por dentro. naquela ausência. universo em mim.




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29 de outubro de 2009

rio





atravessava os silêncios plenamente quando o vi. o silêncio era. como se nunca antes. como se nunca depois. no oco do silêncio todos os sons se fizeram incêndio.
eu não sabia o que me esperava além.
esperava. atentamente ouvia o mundo que silenciosamente me atravessava enquanto eu pensava atravessá-lo. e todos os cascos meus guarnecidos, naquilo que eu era: uma mulher atravessando a claridade do silêncio de mim mesma e a minha estrada.




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28 de outubro de 2009

sustos





o primeiro susto foi ser mulher. o segundo, ser humano. muito tempo depois eu entendi por que a boca queima em alguns beijos. era tarde. a noite escura sem lua. alguém gritou meu nome – vadia. permaneci. sem álibis.
muito tempo rondei numa solidão de porta. gato ganindo cachorro qualquer bicho.
e em silêncio percorri o caminho da minha volta.



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27 de outubro de 2009

vendido





cada um carrega em si o sonho de poder voltar. carrega o sonho da existência de um onde se guarde velhos vestidos, baús de cartas, restos de moveis. um onde tudo permaneça.
mas lugares também esgarçam sua existência. até morrerem. não há mais sítio para voltar, nem lua sobre os eucaliptos, nem fogão a lenha para comer bem. nada de lareiras. nem morcegos, nada mais daquele lugar de pequenas ou grandes cumplicidades eu disse.
então, ela escreveu de gramados com banheira, de árvores que se transformam em lugares mágicos, de abóboras que nascem em goiabeiras, de cachorros , de crianças correndo e brincando e gritando e rindo e chorando e chamando a mãe, de vinhos e cervejas e as comidas mais gostosas, de fogueiras no final do dia, de banhos no começo da noite.
e eu estava. também eu era aquele lugar.



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22 de outubro de 2009

sombra no chão da casa





passeia língua pés e olhos neste estado de sono permanente.
nada de anjos.
a morte é que ronda o meu quintal. tão antiga quanto o mais remoto deus que um dia nos criou.
ainda ela.
estranhamente, sempre – o nome que não sei.



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19 de outubro de 2009

feijoada húngara





vinte anos e cem quilos depois, do outro lado da mesa ele me disse numa noite de domingo quase pulei da janela do seu prédio.
esperei em silêncio o mundo se diluir.
e a sua mãe, tá boa?
tá bem eu disse.
o amor tem muito mais que sete vidas.



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7 de outubro de 2009

flor no caminho



come-se de tudo no mundo. com olhos, narinas, mãos. come-se, inclusive, com a boca.
de tanto ela me dizer isto, passei a reparar melhor nas beiras dos caminhos.



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6 de outubro de 2009

remetente

reescrevo cartas. a cada dia. há tempos sempre próxima do fim: papel pautado lápis letras.
despeço-me de cada um. embora ausente da vida e das pessoas, há tanto. entre tantas, há uma carta que jamais escrevo. a não-carta dirá o que sou incapaz.
no abrir de portas e fechar de luzes sua mão aflita remexerá papéis ocultos segredos guardados – à procura. haverá fotos, fitas, partituras. haverá quadros fora das molduras, pratarias, pequenas jóias próprias para netas, que não tive. haverá roupas à espera do meu entrecruzar de dedos. e envelopes sobrescritos. vários. muitos.
menos um. menos o este. menos o de quem mais revira e procura. menos o de para quem eu mais teria a dizer.
haverá sempre isto. o silêncio que você não foi capaz de romper.
ali.
estou.


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5 de outubro de 2009

pai




antes de vir para o brasil, comia banana cortando a ponta com um canivete e cavucando até chegar no mais profundo da polpa. quando desembarcou, na feira perto do porto, comprou umas bananas, deu uma prum moleque que passava. o moleque ia sair correndo. ele fez um gesto de que não, que comesse a banana ali mesmo. e, naquele momento, a revelação.
eu? só queria ser amada na minha incapacidade.



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1 de outubro de 2009

paulicsta



de pura alegria, atravessei a paulista por cima. é preciso bem pouco para o dia ensolarar.



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29 de setembro de 2009

pequeno gnab





começou a chover. choveu por dezenas de anos, centenas, milhares. prédios derreteram e humanos mergulharam em mares. até se reduzirem a peixes. de peixes em planctons, sementes, em células, nada. depois e mais nada.
a terra pejada de água girou mais lenta e se aqueceu. no aquecimento voltou a ser bola de fogo sem céu.
abraçou-se ao sol. o sol acolheu a chamar novamente tudo para si.
e encolheu-se em buraco minúsculo e escuro.
e este por sua vez em outro que mergulhou em outro e mais outro. mariotchkas.
no centro do que havia sido o mundo, um pequeno ponto adormece.



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28 de setembro de 2009

sol entre bananeiras



joguei fora e lamentei. sempre lamentamos ter jogado fora em certo momento da vida. mas, se não jogamos fora, se não nos separamos, se queremos guardar o tempo, podemos passar a vida arrumando, arquivando nossa vida.

(marguerite duras, a vida material)


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