eu também.
2 de dezembro de 2009
1 de dezembro de 2009
luminosos
para janaína


um dia a morte passou a pairar sobre sua cabeça. andava na rua e olhares constrangidos deixaram de ver sua barriga que crescia para parir outro tempo. fixavam-se acima de sua testa.
ignorou por um tempo. mas não resistiu: olhou para cima e, ali, o ponto luminoso. energia concentrada. o onde tudo começa o onde tudo termina.
o que fazer? ela me pergunta.
eu não sei. ouço o que tem lhe ocorrido. ouço tudo o que tem a dizer. também devo ter meu ponto luminoso sobre a minha própria cabeça.
mas os outros não vêm. ela explica.
concordo. faz a diferença do mundo. em seguida pondero que pontos luminosos sobre nossas cabeças são classicamente associados à santidade. da morte dizem nuvens escuras, pesadas, momentos sem passagem. quem garante ser aquele ponto ali surgido o da morte anunciada e não o caso outro?
ela disse sei que não sou santa. sei que vou morrer.
sua resposta não destoava. santos não se sabem santos como vivos não se sabem mortais.
permanecemos caladas. sobre nossas cabeças nossos pontos luminosos em suas visi e invisibilidades. nossas barrigas.
nunca mais a vi.
ignorou por um tempo. mas não resistiu: olhou para cima e, ali, o ponto luminoso. energia concentrada. o onde tudo começa o onde tudo termina.
o que fazer? ela me pergunta.
eu não sei. ouço o que tem lhe ocorrido. ouço tudo o que tem a dizer. também devo ter meu ponto luminoso sobre a minha própria cabeça.
mas os outros não vêm. ela explica.
concordo. faz a diferença do mundo. em seguida pondero que pontos luminosos sobre nossas cabeças são classicamente associados à santidade. da morte dizem nuvens escuras, pesadas, momentos sem passagem. quem garante ser aquele ponto ali surgido o da morte anunciada e não o caso outro?
ela disse sei que não sou santa. sei que vou morrer.
sua resposta não destoava. santos não se sabem santos como vivos não se sabem mortais.
permanecemos caladas. sobre nossas cabeças nossos pontos luminosos em suas visi e invisibilidades. nossas barrigas.
nunca mais a vi.
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24 de novembro de 2009
atenção
quando puder, vá à estação júlio prestes, na plataforma destino itapevi.
num horário tranquilo, desça do trem.
sente-se. transporte-se. depois, volte.
(não fotografe: não pode.)
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num horário tranquilo, desça do trem.
sente-se. transporte-se. depois, volte.
(não fotografe: não pode.)
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18 de novembro de 2009
vendaval
herdeira de mil tapetes, colocou-os todos à venda de uma vez.
nem um voou.
um dia, em que sobraram ela e um único dos tapetes num canto do mundo – que ela considerava não muito justo – bateu uma brisa a brisa ventania num minuto e.
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nem um voou.
um dia, em que sobraram ela e um único dos tapetes num canto do mundo – que ela considerava não muito justo – bateu uma brisa a brisa ventania num minuto e.
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17 de novembro de 2009
avalovara

disse o senhor ao seu escravo cria-me um palíndromo de cinco palavras cinco letras cada e te darei a liberdade.
muito tempo o escravo pensou. um dia, sator arepo tenet opera rotas. o significado mágico de osman bem além da miséria do cotidiano de pompéia.
antes de revelar a descoberta ao senhor, cheio de si saiu a comemorar.
a puta – ótima companhia delírio em gozo exata remuneração – comportou-se como se outra.
na madrugada, os muros da cidade já estampavam (o que deveria ter sido) a liberdade do escravo.
e o senhor, o que faria?
o tempo. em espirais.
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13 de novembro de 2009
sos beleza: fique bonita em uma semana
a moça muito feia lê o anúncio que promete milagres numa revista de receitas de se produzir em casa.
olha atentamente. vê o preço, os temas, as fotos da capa.
quando menos espero, ela sorri.
e ri. ri muito.
muito feliz.
e se transfigura: nem uma semana e é ela a mulher mais linda do mundo. no lampejo do seu riso daquele minuto.
olha atentamente. vê o preço, os temas, as fotos da capa.
quando menos espero, ela sorri.
e ri. ri muito.
muito feliz.
e se transfigura: nem uma semana e é ela a mulher mais linda do mundo. no lampejo do seu riso daquele minuto.
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12 de novembro de 2009
viaduto do chá

pedras, mapas, búzios, cartas. no centro antigo da cidade, mulheres se predizem futuros bons. vai ser feliz. ter um filho. vai casar. ganhar muito dinheiro.
e um sapateado largo se firma por dentro dela, quase alma. despudorada. vai depor contra um homem que nem conhece direito e sem saber o significado da vida.
sabe apenas que segue. hoje atravessa a cidade. amanhã é domingo. e todas as certezas se apagarão. todos os pássaros deixarão de ser pombos. ela olha catedrais – de são paulo a paris. compara torres com seus peitos pernas firmes farturas. as portas do mundo um dia se abrirão.
e um sapateado largo se firma por dentro dela, quase alma. despudorada. vai depor contra um homem que nem conhece direito e sem saber o significado da vida.
sabe apenas que segue. hoje atravessa a cidade. amanhã é domingo. e todas as certezas se apagarão. todos os pássaros deixarão de ser pombos. ela olha catedrais – de são paulo a paris. compara torres com seus peitos pernas firmes farturas. as portas do mundo um dia se abrirão.
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10 de novembro de 2009
imensidão
há uma rua onde é noite sempre e sempre uma cortina dança ao vento que não pára. entre vinhos, palavras e cuidados, há um homem que descreve o momento em que desentendeu o mundo.
: em gestos, desesperos, tentava dizer o que queria. sem compreender o sentido dos sons. só, um surdo mudo o decodificava no universo dos sinais e em sinais contava à mãe o que queria o homem. a mãe para o mundo incompreensível traduzia por fim o que queria sentia buscava aquele um. com seus desesperos. e silêncios.
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: em gestos, desesperos, tentava dizer o que queria. sem compreender o sentido dos sons. só, um surdo mudo o decodificava no universo dos sinais e em sinais contava à mãe o que queria o homem. a mãe para o mundo incompreensível traduzia por fim o que queria sentia buscava aquele um. com seus desesperos. e silêncios.
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9 de novembro de 2009
nascimentos
5 de novembro de 2009
lugar comum
4 de novembro de 2009
wolak
30 de outubro de 2009
zé
em alguns dias de chuva na praia cabiam infinitos dias de solidão sem paredes. meu pai saído em mares. eu ficava ali, a comer uns restos. nem tantos. e o eco de um atalho a cruzar terrenos vazios e mundos até a casa do zé.
claro que ele morreu, ela disse.
sem saber o descampado que se desdobrava por dentro. naquela ausência. universo em mim.
claro que ele morreu, ela disse.
sem saber o descampado que se desdobrava por dentro. naquela ausência. universo em mim.
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29 de outubro de 2009
rio

atravessava os silêncios plenamente quando o vi. o silêncio era. como se nunca antes. como se nunca depois. no oco do silêncio todos os sons se fizeram incêndio.
eu não sabia o que me esperava além.
esperava. atentamente ouvia o mundo que silenciosamente me atravessava enquanto eu pensava atravessá-lo. e todos os cascos meus guarnecidos, naquilo que eu era: uma mulher atravessando a claridade do silêncio de mim mesma e a minha estrada.
eu não sabia o que me esperava além.
esperava. atentamente ouvia o mundo que silenciosamente me atravessava enquanto eu pensava atravessá-lo. e todos os cascos meus guarnecidos, naquilo que eu era: uma mulher atravessando a claridade do silêncio de mim mesma e a minha estrada.
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28 de outubro de 2009
sustos

o primeiro susto foi ser mulher. o segundo, ser humano. muito tempo depois eu entendi por que a boca queima em alguns beijos. era tarde. a noite escura sem lua. alguém gritou meu nome – vadia. permaneci. sem álibis.
muito tempo rondei numa solidão de porta. gato ganindo cachorro qualquer bicho.
e em silêncio percorri o caminho da minha volta.
muito tempo rondei numa solidão de porta. gato ganindo cachorro qualquer bicho.
e em silêncio percorri o caminho da minha volta.
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27 de outubro de 2009
vendido

cada um carrega em si o sonho de poder voltar. carrega o sonho da existência de um onde se guarde velhos vestidos, baús de cartas, restos de moveis. um onde tudo permaneça.
mas lugares também esgarçam sua existência. até morrerem. não há mais sítio para voltar, nem lua sobre os eucaliptos, nem fogão a lenha para comer bem. nada de lareiras. nem morcegos, nada mais daquele lugar de pequenas ou grandes cumplicidades eu disse.
então, ela escreveu de gramados com banheira, de árvores que se transformam em lugares mágicos, de abóboras que nascem em goiabeiras, de cachorros , de crianças correndo e brincando e gritando e rindo e chorando e chamando a mãe, de vinhos e cervejas e as comidas mais gostosas, de fogueiras no final do dia, de banhos no começo da noite.
e eu estava. também eu era aquele lugar.
mas lugares também esgarçam sua existência. até morrerem. não há mais sítio para voltar, nem lua sobre os eucaliptos, nem fogão a lenha para comer bem. nada de lareiras. nem morcegos, nada mais daquele lugar de pequenas ou grandes cumplicidades eu disse.
então, ela escreveu de gramados com banheira, de árvores que se transformam em lugares mágicos, de abóboras que nascem em goiabeiras, de cachorros , de crianças correndo e brincando e gritando e rindo e chorando e chamando a mãe, de vinhos e cervejas e as comidas mais gostosas, de fogueiras no final do dia, de banhos no começo da noite.
e eu estava. também eu era aquele lugar.
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26 de outubro de 2009
22 de outubro de 2009
sombra no chão da casa
19 de outubro de 2009
feijoada húngara
7 de outubro de 2009
flor no caminho

come-se de tudo no mundo. com olhos, narinas, mãos. come-se, inclusive, com a boca.
de tanto ela me dizer isto, passei a reparar melhor nas beiras dos caminhos.
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6 de outubro de 2009
remetente
reescrevo cartas. a cada dia. há tempos sempre próxima do fim: papel pautado lápis letras.
despeço-me de cada um. embora ausente da vida e das pessoas, há tanto. entre tantas, há uma carta que jamais escrevo. a não-carta dirá o que sou incapaz.
no abrir de portas e fechar de luzes sua mão aflita remexerá papéis ocultos segredos guardados – à procura. haverá fotos, fitas, partituras. haverá quadros fora das molduras, pratarias, pequenas jóias próprias para netas, que não tive. haverá roupas à espera do meu entrecruzar de dedos. e envelopes sobrescritos. vários. muitos.
menos um. menos o este. menos o de quem mais revira e procura. menos o de para quem eu mais teria a dizer.
haverá sempre isto. o silêncio que você não foi capaz de romper.
ali.
estou.
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despeço-me de cada um. embora ausente da vida e das pessoas, há tanto. entre tantas, há uma carta que jamais escrevo. a não-carta dirá o que sou incapaz.
no abrir de portas e fechar de luzes sua mão aflita remexerá papéis ocultos segredos guardados – à procura. haverá fotos, fitas, partituras. haverá quadros fora das molduras, pratarias, pequenas jóias próprias para netas, que não tive. haverá roupas à espera do meu entrecruzar de dedos. e envelopes sobrescritos. vários. muitos.
menos um. menos o este. menos o de quem mais revira e procura. menos o de para quem eu mais teria a dizer.
haverá sempre isto. o silêncio que você não foi capaz de romper.
ali.
estou.
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