depois, o dia do nada. só o vago mar imenso à nossa volta. o rio indo por onde.
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7 de janeiro de 2010
18 de dezembro de 2009
longes disto

antes, ela vivia duas horas depois.
agora, tudo ela vive duas horas antes.
quem é que diz o que é o longe, o passado no tempo?
disto, na geografia?
espero.
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17 de dezembro de 2009
colheita

o homem acenou de longe, como se velho conhecido.
então, superou barracas de verduras, discos e outros restos até chegar perto do homem, saudá-lo e reconhecê-lo. era um homem cego. não acenara para ele: esparramara acenos como se nem todos fossem cegos dos mesmos olhos.
um instante mais e já se ouvia o acordeom e as moedas na caneca. também o som, como o aceno, se esparramava porque nem todos os ouvidos são surdos nem todas as mãos são frias como a chuva fina que caía sobre mim.
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16 de dezembro de 2009
perdões
14 de dezembro de 2009
ruídos

desliga o telefone.
atônito. no estômago, um soco com luvas de pelica – o que é delicado ao tato não reduz o impacto, a dor.
péssima hora para, mas encontra uma lista de textos antigos. e há este um. à espera de um final menos fugaz. e eis.
abre. lê, relê. há tempos adivinhamos futuros sem saber – nem trilhos. nem saídas. nem metrôs – nunca mais a verá.
desligo o telefone.
como poderia adivinhar? tantos tempos depois vem um querendo saber. disse como teria dito ao oficial de justiça, ao fiscal, à secretária de dentista: é com pesar, etcétera e tal.
esta mulher. depois de morta, ocupa espaços. revela-se. desvendo sua rede e braços. o que é isto que resta de nós quando já nada?
levo esta história em mim. sem ela, permaneço. pareço cego e sozinho. (in) acabado.
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7 de dezembro de 2009
condição (des)humana
então eu resolvi inexistir e comecei um longo exercício de me fazer sumir roupas e desejos. manuais e xaropes. a tristeza prosseguia. o peso. quanto mais eu quase inexistia, mais a minha transparência se acendia em luz a iluminar a casa dos vizinhos. mais meu choro machucava milhões.
apesar do esforço – todo o esforço de inexistência – permanecia ali: minha concretude humana, a produzir excrementos. e o amor.
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apesar do esforço – todo o esforço de inexistência – permanecia ali: minha concretude humana, a produzir excrementos. e o amor.
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2 de dezembro de 2009
1 de dezembro de 2009
luminosos
para janaína


um dia a morte passou a pairar sobre sua cabeça. andava na rua e olhares constrangidos deixaram de ver sua barriga que crescia para parir outro tempo. fixavam-se acima de sua testa.
ignorou por um tempo. mas não resistiu: olhou para cima e, ali, o ponto luminoso. energia concentrada. o onde tudo começa o onde tudo termina.
o que fazer? ela me pergunta.
eu não sei. ouço o que tem lhe ocorrido. ouço tudo o que tem a dizer. também devo ter meu ponto luminoso sobre a minha própria cabeça.
mas os outros não vêm. ela explica.
concordo. faz a diferença do mundo. em seguida pondero que pontos luminosos sobre nossas cabeças são classicamente associados à santidade. da morte dizem nuvens escuras, pesadas, momentos sem passagem. quem garante ser aquele ponto ali surgido o da morte anunciada e não o caso outro?
ela disse sei que não sou santa. sei que vou morrer.
sua resposta não destoava. santos não se sabem santos como vivos não se sabem mortais.
permanecemos caladas. sobre nossas cabeças nossos pontos luminosos em suas visi e invisibilidades. nossas barrigas.
nunca mais a vi.
ignorou por um tempo. mas não resistiu: olhou para cima e, ali, o ponto luminoso. energia concentrada. o onde tudo começa o onde tudo termina.
o que fazer? ela me pergunta.
eu não sei. ouço o que tem lhe ocorrido. ouço tudo o que tem a dizer. também devo ter meu ponto luminoso sobre a minha própria cabeça.
mas os outros não vêm. ela explica.
concordo. faz a diferença do mundo. em seguida pondero que pontos luminosos sobre nossas cabeças são classicamente associados à santidade. da morte dizem nuvens escuras, pesadas, momentos sem passagem. quem garante ser aquele ponto ali surgido o da morte anunciada e não o caso outro?
ela disse sei que não sou santa. sei que vou morrer.
sua resposta não destoava. santos não se sabem santos como vivos não se sabem mortais.
permanecemos caladas. sobre nossas cabeças nossos pontos luminosos em suas visi e invisibilidades. nossas barrigas.
nunca mais a vi.
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24 de novembro de 2009
atenção
quando puder, vá à estação júlio prestes, na plataforma destino itapevi.
num horário tranquilo, desça do trem.
sente-se. transporte-se. depois, volte.
(não fotografe: não pode.)
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num horário tranquilo, desça do trem.
sente-se. transporte-se. depois, volte.
(não fotografe: não pode.)
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18 de novembro de 2009
vendaval
herdeira de mil tapetes, colocou-os todos à venda de uma vez.
nem um voou.
um dia, em que sobraram ela e um único dos tapetes num canto do mundo – que ela considerava não muito justo – bateu uma brisa a brisa ventania num minuto e.
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nem um voou.
um dia, em que sobraram ela e um único dos tapetes num canto do mundo – que ela considerava não muito justo – bateu uma brisa a brisa ventania num minuto e.
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17 de novembro de 2009
avalovara

disse o senhor ao seu escravo cria-me um palíndromo de cinco palavras cinco letras cada e te darei a liberdade.
muito tempo o escravo pensou. um dia, sator arepo tenet opera rotas. o significado mágico de osman bem além da miséria do cotidiano de pompéia.
antes de revelar a descoberta ao senhor, cheio de si saiu a comemorar.
a puta – ótima companhia delírio em gozo exata remuneração – comportou-se como se outra.
na madrugada, os muros da cidade já estampavam (o que deveria ter sido) a liberdade do escravo.
e o senhor, o que faria?
o tempo. em espirais.
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13 de novembro de 2009
sos beleza: fique bonita em uma semana
a moça muito feia lê o anúncio que promete milagres numa revista de receitas de se produzir em casa.
olha atentamente. vê o preço, os temas, as fotos da capa.
quando menos espero, ela sorri.
e ri. ri muito.
muito feliz.
e se transfigura: nem uma semana e é ela a mulher mais linda do mundo. no lampejo do seu riso daquele minuto.
olha atentamente. vê o preço, os temas, as fotos da capa.
quando menos espero, ela sorri.
e ri. ri muito.
muito feliz.
e se transfigura: nem uma semana e é ela a mulher mais linda do mundo. no lampejo do seu riso daquele minuto.
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