escreva sem o pudor dos que pensam morrer. escreva a palavra cada colecionada nas imensidões de quem não espera. escreva coleções raras dos que não se sabem — moedas selos guardanapos — cotidianos se perdendo para serem achados. escreva nadas como por trás do que somos tudos rumores se expõem. escreva barulhos de estômago balbucios dos sem sono as letras na escuridão do mar que se fazem companhia na garrafa de um mundo analfabeto. escreva, apenas.
ele disse.
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19 de janeiro de 2010
18 de janeiro de 2010
o mito do eterno retorno

É ainda por o Ano Novo repetir o acto cosmogónico que os doze dias que separam o Natal da Epifania são ainda hoje considerados como uma prefiguração dos doze meses do ano. É por isso que todos os camponeses da Europa determinam o tempo de cada mês e a quantidade de chuva por meio de sinais meteorológicos desses doze dias.
(Mircea Eliade)
7 de janeiro de 2010
18 de dezembro de 2009
longes disto

antes, ela vivia duas horas depois.
agora, tudo ela vive duas horas antes.
quem é que diz o que é o longe, o passado no tempo?
disto, na geografia?
espero.
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17 de dezembro de 2009
colheita

o homem acenou de longe, como se velho conhecido.
então, superou barracas de verduras, discos e outros restos até chegar perto do homem, saudá-lo e reconhecê-lo. era um homem cego. não acenara para ele: esparramara acenos como se nem todos fossem cegos dos mesmos olhos.
um instante mais e já se ouvia o acordeom e as moedas na caneca. também o som, como o aceno, se esparramava porque nem todos os ouvidos são surdos nem todas as mãos são frias como a chuva fina que caía sobre mim.
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16 de dezembro de 2009
perdões
14 de dezembro de 2009
ruídos

desliga o telefone.
atônito. no estômago, um soco com luvas de pelica – o que é delicado ao tato não reduz o impacto, a dor.
péssima hora para, mas encontra uma lista de textos antigos. e há este um. à espera de um final menos fugaz. e eis.
abre. lê, relê. há tempos adivinhamos futuros sem saber – nem trilhos. nem saídas. nem metrôs – nunca mais a verá.
desligo o telefone.
como poderia adivinhar? tantos tempos depois vem um querendo saber. disse como teria dito ao oficial de justiça, ao fiscal, à secretária de dentista: é com pesar, etcétera e tal.
esta mulher. depois de morta, ocupa espaços. revela-se. desvendo sua rede e braços. o que é isto que resta de nós quando já nada?
levo esta história em mim. sem ela, permaneço. pareço cego e sozinho. (in) acabado.
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7 de dezembro de 2009
condição (des)humana
então eu resolvi inexistir e comecei um longo exercício de me fazer sumir roupas e desejos. manuais e xaropes. a tristeza prosseguia. o peso. quanto mais eu quase inexistia, mais a minha transparência se acendia em luz a iluminar a casa dos vizinhos. mais meu choro machucava milhões.
apesar do esforço – todo o esforço de inexistência – permanecia ali: minha concretude humana, a produzir excrementos. e o amor.
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apesar do esforço – todo o esforço de inexistência – permanecia ali: minha concretude humana, a produzir excrementos. e o amor.
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