12 de maio de 2010

macaquinhos me mordam




a vida está sempre por um fio oculto entre outra vida por um fio enroscada em outra vida por um fio e um longo tecido de vidas por um fio tece-se. ou rompe-se na delicadeza dos gestos não pensados. ser humano é pensar-se gentilezas cada vez mais, ampliar-se infinitos para que os fios não se rompam, para que não se esgarce o que somos o quanto somos juntos.

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11 de maio de 2010

e miro margaridas e antiguidades



pouso minha mão, suave, sobre sua cabeleira mil vezes trançada e des. agora, é você a menina e eu, imagine, mãe de família, mulher adulta a cuidar de meninos.
queria ser colo, para que suas passagens sejam belas.
volto o tempo. olho o rio de janeiro e o vejo em seus olhos. olho o mar e o vejo em seus olhos. em tudo, sua acolhida. e tudo por se revelar. ultrapasso tempestades adolescentes a descobrir músicas, brincos, biquínis, batons, meias coloridas. e, mais que tudo: que o pão velho continua velho igual amanhã.
você dizia: cada dia procura o frescor do pão novo e deixa o que é velho adormecer tranqüilo. sementes.
a vida é de uma singeleza.
meu olhar despetala os horizontes enquanto.




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10 de maio de 2010

nas pedras



sigo meu rio desvario.
uma pedra nos desvia.
outra desvira. revira.
eu rio. e sigo.
nosso rio.


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4 de maio de 2010

por onde





todo este tempo nascença sou ao seu lado sempre pescaria e caça e colheita depois quando velhos velhinhos e o tempo infinito parecer algumas vezes cansaço sem nome semente sem força nascente sem água sempre eu serei capaz de ao seu lado arar todas as terras e nelas plantar mundos um a segurar o arado outro a tanger os bois.



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27 de abril de 2010

onde estarão estes meninos?




mãos na terra, ela cavuca cuidadosamente, e retira dentre os cacos dois mil e quinhentos nomes vivos.
cada um foi a seu modo um pequeno fardo, um pequeno saco carregado transportado transladado oculto por latidos na carroceria de um caminhão.
cães raivosos cercaram-na uma vez. pastores alemães de dentes pontiagudos massacraram suas mãos quebraram pernas. mas seu sorriso espelhado em outros (tipos de) cães permaneceu rechonchudo a fazer pontes valsas futuros por quase um século.
irene de varsóvia.
não há prêmios que legitimem nossa dignidade.
mas há coragens que nos fundamentam.


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14 de abril de 2010

história pequena à boca miúda





o homem se chacoalha em seus ossos amortecidos. ele liga e diz não acredito, você continua com essa história? quando você encasqueta com alguma coisa, constrói quatro paredes em volta, senta no meio e fica só esperando, teimando. amplie-se.
eu disse não sei me ampliar. quando muito, estico pernas e braços num espreguiço e reajeito-me sem sair do lugar.
mas assim, veja, mudei de vida, de casa, de cara, de cor de cabelo, jeito de vestir e andar. tanto que se aquele um amortecido me encontrasse agora perguntaria a mim por mim mesma e dele mesmo me pediria notícia. eu diria não acredito...


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12 de abril de 2010

um presente da sra. jabur

"descubro uma amiga-para-tudo
e vamos de preferência comum para a cozinha
mulheres da Lapônia de outros tempos?

como duas mulheres da Lapônia de qualquer lugar
lavamos, enxugamos, cozinhamos, comemos
rimos de pequenos segredos e do comum
e no instante do silêncio pelas frestas
em que tudo para, ali na cozinha, junto ao fogo
brota um rio

o som do fundo de nossas palavras
correndo água sem serem nossas, sendo
indo folhas

somos duas mulheres
duas xícaras de chá
e a memória quente
para-tudo é uma antiga planta medicinal
e o dia um instante-abertura
em que nunca mais será sempre"

(camila jabur)

8 de abril de 2010

dor

nada de luz ao abrir os olhos.
nada de silêncios.
nada de brisa ou temporais.
aos poucos a sombra substitui a escuridão
e um ritmo se impõe ao que é ruidoso.
depois, bem depois,
a claridade das manhãs
e um leve farfalhar de folhas.



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1 de abril de 2010

onírica




é de manhã. me levanto da mesa no escritório para uma água um café um alô, e, ali, você está. eu me assusto. nem um de nós poderíamos estar. não sei o que dizer. você não me socorre. mostro as flores por sobre as árvores por trás da grande janela iluminada. ao olhar o imenso vermelho aos nossos pés eu teria muito, muito a dizer. mas a boca. procuro contar um pouco sobre meu pai. perguntar pelo seu. como se ancestralidades nos resolvessem neste momento. minha boca segue cerrada. estive em pedaços. já não estou. vou-me embora. mas nada. nada nada consigo dizer enquanto me derramo enquanto você me abraça e quando se afasta e já não me vê, eu choro. um pássaro em meus silêncios.



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31 de março de 2010

um feliz aniversário, agradeço.

quando escrevo vejo a vida passar, é de fora dela que escrevo.
se digo vejo o tempo passar, é de fora dele que digo.
mas se escrevo vou no tempo, é um vôo no tempo que me permito.
se digo vou na vida, é em suas entranhas que estou. com tudo o que há de indecifrável.
nos últimos tempos, cada vez vejo menos o tempo, a vida a passar.
cada vez mais mergulho(s) construindo caminhos.



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25 de março de 2010

comida boa e barata





deram-lhe o nome de deus. então, ele escreve aquela coisa toda: o certo por linhas tortas. quando comenta, deliciosamente se esquece de polvilhar pontos, vírgulas, pensamentos.
tudo isto a nos lembrar o quanto risíveis somos, o tanto divino que um dia seremos.
para estes casos, não há solução, senhor araujo, não há solução.


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23 de março de 2010

equinócio




acho que o envelhecer é um despir-se lento, até sobrar o humano sem certezas que um dia fomos.


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22 de março de 2010

outro outono

há quem venda fotos, ideias, melodias, enciclopédias – enciclopédias? eu vendo sugestões de supressões, acréscimos e reorganizações de pontos, vírgulas, frases, palavras, parágrafos e acentos. quando precisar, contate-me.




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15 de março de 2010

chá da tarde com tortinhas de marzipã

a senhora jabur se veste de delicadezas para dizer coisas doces ou o seu contrário.
raramente se despe.
quando o faz, é sem asperezas.
de longe, acena, se despede e se vai. sempre.
e sempre ela mesma.


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11 de março de 2010

enfoque

"se perto demais
imagens ficam alteradas
se longe demais
pouco definidas
tenho que encontrar o equilíbrio das retas
vidros respirados embaçam
gaivotas ao longe são borboletas"

(flora figueiredo)