10 de junho de 2010

pedra farpada




alguns dias as palavras não passam de um monólito de impossibilidades. escarafuncho, reviro, nada. nem uma se deixa pescar separada do todo. uma grossa resina une-as. eu teria tanto a contar, mas elas nada, nada, nada querem dizer.


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1 de junho de 2010

conversa com marcos e sua plantação

escrever é reler e reorganizar. o primeiro momento, aquele que nasce da intensidade do sentimento ou da ausência de sentido, é sempre e tão somente o primeiro momento, primeiro movimento. o escrever e tornar universal o conjunto do que somos ao nos escrevermos é o de lapidar a pedra, podar a planta, depurar o caldo. mesmo que nada seja feito, estão ali a beleza da pedra, a presença da planta e o sabor do caldo. mas um pouco aquém das intensidades que lhes seriam possíveis numa nova olhada, numa nova seqüência. para mim, escrever e não reorganizar é como fazer compras no mercado e deixar tudo ensacado no chão da cozinha. tudo está ali, mas nada está porque quando preciso não sei onde o sal, nem sei do café.

(abóboras pelo chão)


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27 de maio de 2010

não consigo adotar algumas regras




às vezes acordo no qualquer pessoa não consigo dormir sou uma torneira sem borrachinha um pingo que não pára um medo um descanso dessa pequenez disso que me horroriza atormenta escandaliza envergonha eu subjugada subjulgada por quem e não quero não quero me escorrer mundo quando acordo no meio da noite como de um pesadelo e é como se jibóia em congestão penso que estou ficando louca na nenhuma resposta e eu nego que nada sou e nada sou nas madrugadas preciso de um abraço quando acordo no qualquer pessoa. agora.


(algumas pessoas são poesia e não sabem)
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26 de maio de 2010

e um pássaro cruza o meu caminho

para jane

outros dias e tudo se confunde, a palavra, como um galho seco, rompe-se, cai. nada de fruto. nesta confusão, leio uma história de abraços e x-salada. converso sobre o luto, chego na posta restante, daí a chico, um pulo. e eis meu galho a se romper palavra engastalhada na melodia. diverso do que se diz, nem toda lágrima é poesia.


Minha Canção (Chico Buarque)
Dorme a cidade/Resta um coração/Misterioso/Faz uma canção/Soletra um verso/Lá na melodia/Singelamente/Dolorosamente
Doce a música/Silenciosa/Larga o meu peito/Solta-se no espaço/Faz-se certeza/Minha canção/Réstia de luz onde/Dorme o meu irmão



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25 de maio de 2010

no paraíso

quando cheguei naquele ponto, eu me dei conta das tantas e tantas vezes que fiquei ali, à espera.
já quase não ando de ônibus.
hoje, eu ando a pé.


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24 de maio de 2010

a tartaruga

"Desde a tartaruga nada não era veloz.
Depois é que veio o forde 22
E o asa-dura (máquina avoadora que imita os
pássaros, e tem por alcunha avião).
Não atinei até agora por que é preciso andar tão
depressa.
Até há quem tenha cisma com a lesma porque ela
anda muito depressa,
Eu tenho.
A gente só chega ao fim quando o fim chega!
Então pra que atropelar?"

(Manoel de Barros)



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19 de maio de 2010

18 de maio de 2010

para pegar um peixe

saiu para pescar. no primeiro dia comprou anzol comprou linha comprou peso e comprou isopor. pescou compras.
saído para pescar levou consigo anzol linha peso e isopor. foi colher um bambu fininho.
colheu um bambu fino, amarrou a linha. na linha amarrou o anzol. entre a ponta do bambu e o anzol, prendeu um peso e o isopor.
com a vara de pescar encostada num canto, revolveu a terra a procurar minhocas. peixe do mar não come minhoca. come siri, come camarãozinho.
de lanterna em punho e uma pequena rede, jogou migalhas para que camarõezinhos viessem saciar a fome. ele os capturou. e picou.

vai até a ponta do píer. com toda a calma do mundo, empunha a vara, camarão picado na ponta. e espera. em toda pescaria mais se pesca quanto menos se pesca.



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17 de maio de 2010

sem twitter

nada tenho a dizer em cento e quarenta caracteres.
nada? ela perguntou.
nada. mesmo. ele disse. pra aquele homem, dizer as coisas assim significa que voltamos para o tempo dos grunhidos.
ela: não seria um tempo de exatidões e clarezas?
não tenho nada a dizer tão exato, ele disse.
você não teria acaso alguma coisa para grunhir para o mundo? ela perguntou.
acho que não. nada.
você não quer dizer nada.
não é isso. ele diz. não quero grunhir. quero dizer pra você, não para todo mundo.

você viu a lua ontem?
não. estava lendo o que você me escreveu.
viu, é isso!
isso?
veja a lua.

vi a lua ontem.
eu sei. a armadura de são jorge refletia seus olhos.

às vezes, não sei bem em que mundo você vive.
naquele, dos perigos. das lanças. dos santos.
das armaduras?
ele disse é, no mundo da lua.


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12 de maio de 2010

macaquinhos me mordam




a vida está sempre por um fio oculto entre outra vida por um fio enroscada em outra vida por um fio e um longo tecido de vidas por um fio tece-se. ou rompe-se na delicadeza dos gestos não pensados. ser humano é pensar-se gentilezas cada vez mais, ampliar-se infinitos para que os fios não se rompam, para que não se esgarce o que somos o quanto somos juntos.

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11 de maio de 2010

e miro margaridas e antiguidades



pouso minha mão, suave, sobre sua cabeleira mil vezes trançada e des. agora, é você a menina e eu, imagine, mãe de família, mulher adulta a cuidar de meninos.
queria ser colo, para que suas passagens sejam belas.
volto o tempo. olho o rio de janeiro e o vejo em seus olhos. olho o mar e o vejo em seus olhos. em tudo, sua acolhida. e tudo por se revelar. ultrapasso tempestades adolescentes a descobrir músicas, brincos, biquínis, batons, meias coloridas. e, mais que tudo: que o pão velho continua velho igual amanhã.
você dizia: cada dia procura o frescor do pão novo e deixa o que é velho adormecer tranqüilo. sementes.
a vida é de uma singeleza.
meu olhar despetala os horizontes enquanto.




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10 de maio de 2010

nas pedras



sigo meu rio desvario.
uma pedra nos desvia.
outra desvira. revira.
eu rio. e sigo.
nosso rio.


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4 de maio de 2010

por onde





todo este tempo nascença sou ao seu lado sempre pescaria e caça e colheita depois quando velhos velhinhos e o tempo infinito parecer algumas vezes cansaço sem nome semente sem força nascente sem água sempre eu serei capaz de ao seu lado arar todas as terras e nelas plantar mundos um a segurar o arado outro a tanger os bois.



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27 de abril de 2010

onde estarão estes meninos?




mãos na terra, ela cavuca cuidadosamente, e retira dentre os cacos dois mil e quinhentos nomes vivos.
cada um foi a seu modo um pequeno fardo, um pequeno saco carregado transportado transladado oculto por latidos na carroceria de um caminhão.
cães raivosos cercaram-na uma vez. pastores alemães de dentes pontiagudos massacraram suas mãos quebraram pernas. mas seu sorriso espelhado em outros (tipos de) cães permaneceu rechonchudo a fazer pontes valsas futuros por quase um século.
irene de varsóvia.
não há prêmios que legitimem nossa dignidade.
mas há coragens que nos fundamentam.


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