10 de setembro de 2010

o que vale

gosto das organizações, ainda que não durem no tempo.
as contas, por exemplo. podem ser organizadas por tipo - água luz telefone - ou cronologia - meses anos décadas. mas se nada fazemos com as tais contas organizadas - controle de gastos redução ampliação de consumo - a organização deixa de fazer sentido. tudo ali a permanecer na ordem inicial, mas, sem porquê, nada de organização.
o mesmo com as roupas. organizo-as por tipo cor estação para uso. se engordo emagreço ou me mudo para o polo sul, tudo fica sem sentido.
não há organização que dê conta disso. dessas mudanças.
tampouco escapa a rotina, que é a organização do tempo.
quando trabalho planejo a hora de sair de chegar de voltar e onde ir planejo reuniões responsabilidades relatórios projetos.
se me aposento, desorganiza-se o que era planejado. se insisto em respeitar a antiga organização, não há como, minha vida saberá a ruínas.

6 de setembro de 2010

nas pátrias

quando eu era criança, achava que todos falávamos a mesma língua no espaço público. em casa, no restrito da família, cada uns tinham seu próprio código, só por eles mesmos compreendido. como nós tínhamos. eu não sabia da imensidão que poderia ser uma língua. também não sabia o tudo que poderia ser um país.


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3 de setembro de 2010

fiume

a hungria, na planície da panônia, é o maior país da europa central. tem duzentos e cinqüenta quilômetros de largura e quinhentos e vinte quilômetros de comprimento. mais de dois mil quilômetros de divisa com os sete países que o cercam – sérvia, croácia, eslovênia, ucrânia, romênia, eslováquia e áustria. sua capital é budapest, quatro cidades tornadas uma há pouco mais de cem anos. dois grandes rios cruzam suas terras: o danúbio e o tisza, ambos navegáveis. o grande lago balaton, também chamado de mar húngaro, é o maior lago da europa central e oriental. em junho de 1920, no tratado de trianon, derrotada na guerra, a hungria perdeu quase três quartos do seu território e dois terços da sua população. também perdeu seu pedaço minúsculo de mar. mar, mesmo.


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1 de setembro de 2010

no escuro, farejo

longe, o mar. os cães agora silenciam a lua.
não amanhece por mais que eu peça. tudo pesa. nada leve. na minha cabeça, caixas empilhadas ameaçam desabar. como se milhares de bolinhas de gude azuis escorressem nas infinitas escadarias de uma catedral. ensurdeço. conto carneiros. imagino constelações. constato o que há nos cantos da casa. nada.
não durmo e não sonho. vou me tornando cinza. depois brasa. depois verde. depois, outra vez, desespero. então choro. a noite não passa. o mar não para. acendo a luz arde em meus olhos. apago. fico tonta. nada mais respira no mundo. tudo está morto.
lembro que no japão trabalham. e há uma mulher que, olhando o mar, sabe que antípodas dormem. ela, então, sente muito sono e não pode dormir. por um momento eu me aproprio de seu sono. e adormeço. pensando no mar do japão. liberto do meu querer, o dia amanhece.



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25 de agosto de 2010

terceira lua cheia



acho que só vou conseguir compreender quando a humanidade toda for um pouco sábia, eu sei, quando a gente se tornar um tanto existentes. este mistério, é um mistério tão duro, tão duro. tão profundo. não sei dizer. ela disse.



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24 de agosto de 2010

cisma



talvez ela seja uma rainha, atravessando desertos.
nada de água. nada de ar. nada de dromedários. nada.
nem um oásis ela se permite.
a areia está em seus olhos. e também na sua boca e na impossibilidade de mover os pés.
não adianta ser rainha. ou mandar cortar cabeças.
porque o que não se diz está dito. o que não se grita, dói.
ponha o avental, prepare-se.
é preciso farinha, fermento, sal.
e silencie.
não há realeza que o faça voltar.


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23 de agosto de 2010

quando

quando nada está acontecendo, ela está olhando. às vezes eu paro para ver o que ela vê. é bonito. há alguma ancestralidade em comum.
de vez em quando nossos olhares se cruzam para, logo em seguida, seguirem suas próprias viagens.
veja, é difícil não gostar.
e um dia ainda vamos nos conhecer. eu sei.


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17 de agosto de 2010

esquento as mãos

meu pai tinha uma belina azul piscina.
eu tinha seis anos e um vestido de florzinhas com um laço.
o duto tinha uma calça boca de sino cor de rosa.
minha tia tinha cabelos pretos e longos, divididos em duas tranças.
com as meninas na rua a gente brincava de amarelinha, de fita e de mamãe me dá polenta.
era bom.
ontem, quando entrei no carro na hora do meio dia, gostei tanto do calor, quentinho e quietinho, que fiquei ali, pensando em coisas desse tipo. uma sucessão de pequenas bobagens, tão amarelas quanto os ipês, que voltaram.

16 de agosto de 2010

num detalhe

se os diários fossem romances, seriam romances mal escritos. repare, os personagens surgem do nada, permanecem enquanto necessários para o desenrolar da trama, não sabemos ao certo de onde vieram e, quando repentinamente se vão, também não sabemos para onde. inclusive o protagonista. e mesmo assim nos prendem até o fim. que fim?


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12 de agosto de 2010

na mosca

nessas linhas desse seu texto eu me vi. é que são como nuvens: neles vemos o que queremos. mas não é coisa que se diga em público por isso esse particular. se me perguntassem eu também não saberia quais três letras. e no dentro de mim, te garanto, eu me perderia muito mais.


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10 de agosto de 2010

nas linhas




você a ama, ainda? apesar da pergunta chegar tão de chofre, seus dedos logo se aprumaram para digitar as três letras da resposta. antes, pensou por que alguém, que não ela mesma, estaria interessado nisso? e quem lhe perguntava não parecia estar a serviço. de ninguém. respirou. não respondeu de imediato. escreveu: talvez você não saiba ao certo o que se passou. talvez. foi o que chegou em sua tela. talvez? ele pensou. e foi aí que se perdeu.


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9 de agosto de 2010

insistentemente




saúvas devoram meu quintal. não gosto delas. dizem que têm lá o seu papel no ciclo da vida, mas eu não gosto. elas são cabeçudas e bundudas (existencial e fisicamente). são muitas, milhões. devoram o que é importante para mim. uma, duas, três, incontáveis vezes devoram o mesmo pé de coisa. o que me sustenta é que nada, até hoje nada, que tivesse raízes profundas deixou de renascer.


(foto: neide rigo)
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6 de agosto de 2010

de um dos lados



algumas pessoas dizem é mesmo, tudo tem dois lados. hoje eu digo que só há dois lados. ou você está de um lado ou está do outro lado. gosto ou não gosto. estou vivo ou não estou vivo. estou aqui ou não estou aqui. o outro lado de algumas coisas são infinitas coisas. como não estar aqui. pode-se estar aí, lá, acolá ou no etcétera do mundo. o outro lado de algumas questões, por sua vez, pode ser muito complexo uma vez que cada aflição pode se desmembrar em mil pequenas aflições e cada uma delas com dois lados e as infinitas pequenas opções de lado são ponderáveis geométrica, aritmética, escalafobeticamente constituindo um quadro ou vários quadros de um lado e do outro lado. também há situações-limite, quando duas coisas distintas têm seus outros lados similares, podendo ser confundidas como os dois lados da mesma coisa. mas, veja bem, repare, o outro lado de amar não é odiar.


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2 de agosto de 2010

areia



até que se arqueasse pequena ponte caminho e pedras a ligar suas duas margens a mim no silêncio do dia que amanhece.


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20 de julho de 2010

há os que já mataram um rato

ontem, depois de ver um filme em que pessoas dessabem-se humanos ou ratos e uma lágrima ainda escorria por dentro do peito, o gato chegou corredor adentro miando e guinchando. o guinchado vinha de um rato, preso na boca do gato.
os gatos, antes de matar os ratos, atormentam-nos.
no meu quarto, o gato e o rato. soltos.
fechei a porta.
meu marido armado de coragens, uma vassoura e um saco entrou no quarto.
esperei. do lado de fora.
ouvi barulhos e um suspiro: o rato enfim no saco.
meu marido mil anos mais velho do que havia entrado.
logo a vida engrenou.
de noite, sonhei com outro rato a nos subir. talvez ele também tenha sonhado.
achei indelicado perguntar.



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19 de julho de 2010

ouço o que ela tem a dizer





se fico muito tempo longe, quando ouço sua voz, ela se esparrama por baixo da pele atravessa músculos alcança meus ossos e ali reverbera. é como se fosse a voz primeira por sobre o silêncio das águas, anunciando a luz. então eu sou silêncio e sou água e sou luz. iluminada pelo seu querer. a construir um universo paralelo quase intangível um universo onírico recoberto pelo véu do desejo. e se novamente ouço a sua voz uma engrenagem me movimenta como se fosse possível reduzir distâncias - tantas e tão multiformes. e no mais antigo de mim, a cada dia, a cada noite, ali vive a sua voz a me chamar.


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