7 de outubro de 2010

(in)cômoda

na primeira gaveta da esquerda, repare, há uma pequena pérola que um dia fez par em brinco, antes, fez casa em concha e, antes, bem antes de tudo, já foi areia, cisco, um pedaço minúsculo qualquer da grande explosão do mundo.
repare, há uma pequena pérola em reflexo róseo nos seus olhos agora quando entre seus dedos a areia.
nem tudo é imediato. tudo pode esperar.

6 de outubro de 2010

viva

quero me lançar em cacos deitar pedra pedaços pontiagudos do mundo e dormir. quero me jogar sobre faróis ondas noite escura que não me deixa seguir e respirar.
um homem me tira do meio da rua. um homem vem e me diz sente-se, fique na calçada. respire. um homem vem e do nada se ocupa de mim. no meio do meu nada, se ele diz, deve fazer sentido. espero. calma, ele entra no carro, ele não sabe: ficará sentado horas aqui ao meu lado. juntos esperaremos a madrugada.
mesmo que eu também já não esteja.

(o rio)

30 de setembro de 2010

e não piso nos riscos




dias ou dias e o dia parece imóvel. oco. parado. folhas caem. cães latem. saída do dia, ouço, longe, um batedor de arame e claras nevam. rabanetes forjam-se maravilha no fundo da terra. formigas carregam minha raiva sob o dia nublado. não se vê a totalidade das horas a passar. farpas pequenas do dia se desfiam nas listas de quefazeres à espera. à espreita. na beira do mapa, o monstro de mil cabeças. se na gota houver mar, mergulhe.

29 de setembro de 2010

monogramatica

dia desses, mandou descer o quadro do sótão, que desembrulhassem e tirassem o pó.
ficou na sala a observar.
o marido chegou, viu o quadro, perguntou que quadro é esse?
ela disse um homem que me amava muito me deu o quadro. logo depois um acidente, não sei ao certo.
o marido desentendeu mas é um quadro todo verde? só verde?
não é todo do mesmo verde, repare, há vários tons, ela disse. depois, disse também é porque eu tinha olhos verdes.
o marido estranhou você tinha os olhos verdes?
é, os cabelos também. e também a pele. eu demorei muito para amadurecer.
escorreram nas faces duas lágrimas de reflexos verdes.
quando teria sido a hora de trazer as crianças e a copeira teria servido o jantar, já tudo estava seco novamente: olhos rostos mãos.
há também os que amadurecem e custam a verdejar.

28 de setembro de 2010

quando o quase

minha mão não sei o que faço.
se estendo os dedos sei que resvalo em sua pele clara e delicada no vão que se revela entre a mão dela e o casaco de longas mangas e escuras e meus olhos mergulham no onde a blusa se encolhe no gesto não pensado e das costas um pedaço quase sei.
e se me deitasse agora e pedisse socorro e me virasse e pedisse abrigo e se eu agora me estendesse no mundo e lentamente pudesse passar as mãos em seus ombros frágeis frágeis e os seios que imagino seda e o ventre?
um nada é esse que quase sei.

27 de setembro de 2010

sem foco



pandonar, o cruel, dizia que se ficássemos um longo tempo a mirar um mesmo ponto preto seríamos fortes, determinados, potentes.
invencíveis.
não sei.
sei que se mantenho o foco por dias a fio ao final me perco, desfoco-me.
não vejo nem o mundo nem a mim. no por dentro ou no por fora, só.
loucura de dias a se suceder.

17 de setembro de 2010

três dias





no meio da tarde, meia hora sob uma chuva delicada de pétalas. isso chovendo em mim. e em três senhoras abismadas.

14 de setembro de 2010

flor de beleza

depois de se haver perdido, ela vinha na minha direção, sem me ver. inconfundível, atravessou o descampado e chegou. ao meu lado, sem saber. seguiu. seguiu.
por vezes, vamos na direção, seguimos, seguimos, sem chegar a lugar algum.
não foi o caso. ela, quando seguiu, chegou. veio. esteve, está.
foi um acaso. como a vida é uma parte de acasos. foi um presente. bom, muito bom. como quando dizem se alcança uma graça. uma flor. o mistério de um ovo. de páscoa.

10 de setembro de 2010

pra todo lado

arrumar (a-rumar) deve ser andar sem rumo. quem não se perde nas arrumações?

o que vale

gosto das organizações, ainda que não durem no tempo.
as contas, por exemplo. podem ser organizadas por tipo - água luz telefone - ou cronologia - meses anos décadas. mas se nada fazemos com as tais contas organizadas - controle de gastos redução ampliação de consumo - a organização deixa de fazer sentido. tudo ali a permanecer na ordem inicial, mas, sem porquê, nada de organização.
o mesmo com as roupas. organizo-as por tipo cor estação para uso. se engordo emagreço ou me mudo para o polo sul, tudo fica sem sentido.
não há organização que dê conta disso. dessas mudanças.
tampouco escapa a rotina, que é a organização do tempo.
quando trabalho planejo a hora de sair de chegar de voltar e onde ir planejo reuniões responsabilidades relatórios projetos.
se me aposento, desorganiza-se o que era planejado. se insisto em respeitar a antiga organização, não há como, minha vida saberá a ruínas.

6 de setembro de 2010

nas pátrias

quando eu era criança, achava que todos falávamos a mesma língua no espaço público. em casa, no restrito da família, cada uns tinham seu próprio código, só por eles mesmos compreendido. como nós tínhamos. eu não sabia da imensidão que poderia ser uma língua. também não sabia o tudo que poderia ser um país.


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3 de setembro de 2010

fiume

a hungria, na planície da panônia, é o maior país da europa central. tem duzentos e cinqüenta quilômetros de largura e quinhentos e vinte quilômetros de comprimento. mais de dois mil quilômetros de divisa com os sete países que o cercam – sérvia, croácia, eslovênia, ucrânia, romênia, eslováquia e áustria. sua capital é budapest, quatro cidades tornadas uma há pouco mais de cem anos. dois grandes rios cruzam suas terras: o danúbio e o tisza, ambos navegáveis. o grande lago balaton, também chamado de mar húngaro, é o maior lago da europa central e oriental. em junho de 1920, no tratado de trianon, derrotada na guerra, a hungria perdeu quase três quartos do seu território e dois terços da sua população. também perdeu seu pedaço minúsculo de mar. mar, mesmo.


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1 de setembro de 2010

no escuro, farejo

longe, o mar. os cães agora silenciam a lua.
não amanhece por mais que eu peça. tudo pesa. nada leve. na minha cabeça, caixas empilhadas ameaçam desabar. como se milhares de bolinhas de gude azuis escorressem nas infinitas escadarias de uma catedral. ensurdeço. conto carneiros. imagino constelações. constato o que há nos cantos da casa. nada.
não durmo e não sonho. vou me tornando cinza. depois brasa. depois verde. depois, outra vez, desespero. então choro. a noite não passa. o mar não para. acendo a luz arde em meus olhos. apago. fico tonta. nada mais respira no mundo. tudo está morto.
lembro que no japão trabalham. e há uma mulher que, olhando o mar, sabe que antípodas dormem. ela, então, sente muito sono e não pode dormir. por um momento eu me aproprio de seu sono. e adormeço. pensando no mar do japão. liberto do meu querer, o dia amanhece.



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25 de agosto de 2010

terceira lua cheia



acho que só vou conseguir compreender quando a humanidade toda for um pouco sábia, eu sei, quando a gente se tornar um tanto existentes. este mistério, é um mistério tão duro, tão duro. tão profundo. não sei dizer. ela disse.



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24 de agosto de 2010

cisma



talvez ela seja uma rainha, atravessando desertos.
nada de água. nada de ar. nada de dromedários. nada.
nem um oásis ela se permite.
a areia está em seus olhos. e também na sua boca e na impossibilidade de mover os pés.
não adianta ser rainha. ou mandar cortar cabeças.
porque o que não se diz está dito. o que não se grita, dói.
ponha o avental, prepare-se.
é preciso farinha, fermento, sal.
e silencie.
não há realeza que o faça voltar.


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23 de agosto de 2010

quando

quando nada está acontecendo, ela está olhando. às vezes eu paro para ver o que ela vê. é bonito. há alguma ancestralidade em comum.
de vez em quando nossos olhares se cruzam para, logo em seguida, seguirem suas próprias viagens.
veja, é difícil não gostar.
e um dia ainda vamos nos conhecer. eu sei.


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17 de agosto de 2010

esquento as mãos

meu pai tinha uma belina azul piscina.
eu tinha seis anos e um vestido de florzinhas com um laço.
o duto tinha uma calça boca de sino cor de rosa.
minha tia tinha cabelos pretos e longos, divididos em duas tranças.
com as meninas na rua a gente brincava de amarelinha, de fita e de mamãe me dá polenta.
era bom.
ontem, quando entrei no carro na hora do meio dia, gostei tanto do calor, quentinho e quietinho, que fiquei ali, pensando em coisas desse tipo. uma sucessão de pequenas bobagens, tão amarelas quanto os ipês, que voltaram.

16 de agosto de 2010

num detalhe

se os diários fossem romances, seriam romances mal escritos. repare, os personagens surgem do nada, permanecem enquanto necessários para o desenrolar da trama, não sabemos ao certo de onde vieram e, quando repentinamente se vão, também não sabemos para onde. inclusive o protagonista. e mesmo assim nos prendem até o fim. que fim?


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12 de agosto de 2010

na mosca

nessas linhas desse seu texto eu me vi. é que são como nuvens: neles vemos o que queremos. mas não é coisa que se diga em público por isso esse particular. se me perguntassem eu também não saberia quais três letras. e no dentro de mim, te garanto, eu me perderia muito mais.


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