13 de outubro de 2010
brisa
minha irmã. entre nós há largos desertos sem caminhos e também pequenos atalhos sombreados de terra úmida recendendo a musgo e pedras. quando éramos pequenas, ela escreveu uma redação bem bonita. cidade de interior, mereceu as páginas do jornal. achei o tudo daquilo de uma beleza tão ampla, desejável. por um tanto daquilo, vendi minha alma por poucos tostões e logo um lampejo: copiei, troquei palavra aqui, outra ali e. eis. o que se seguiu não é de se esquecer. melhor nem lembrar. a vida toda e meu amor por ela não é de grandezas, é minúcias, como uma brisa suave que ela agora escreve.
11 de outubro de 2010
ajka
sob a lama vermelha um ponto obscuro do mapa do mundo cresce, cresce. ocupa páginas de jornais. aquele é o lugar onde meu pai nasceu e cresceu. ali viveram seus pais. ali vivem tios, primos, parentes meus. na paisagem daquele lugar há o contorno de uma fábrica e um cheiro metálico no ar.
a imagem difusa e noturna que permanece em mim é um trajeto de luz amarelada em ônibus, a parada em frente à igrejinha e a praça, um longo caminho no meio da neve. meu pai, minha mãe e seus quatro filhos. era madrugada. e então uma casa toda fechada. meu pai a lançar pequenas pedras na veneziana. uma, duas. antes da terceira, alguém pergunta quem é? meu pai: sou eu. sem nome, sem nada, e lá dentro o barulho ansioso de trincos. e lá dentro, dois homens e uma mulher. e lá dentro o mais velho dos homens permanece no incompreensível. aqui fora, o mais novo, no meio do abraço, pergunta ao meu pai: e os meus lápis de cor, você trouxe?
a imagem difusa e noturna que permanece em mim é um trajeto de luz amarelada em ônibus, a parada em frente à igrejinha e a praça, um longo caminho no meio da neve. meu pai, minha mãe e seus quatro filhos. era madrugada. e então uma casa toda fechada. meu pai a lançar pequenas pedras na veneziana. uma, duas. antes da terceira, alguém pergunta quem é? meu pai: sou eu. sem nome, sem nada, e lá dentro o barulho ansioso de trincos. e lá dentro, dois homens e uma mulher. e lá dentro o mais velho dos homens permanece no incompreensível. aqui fora, o mais novo, no meio do abraço, pergunta ao meu pai: e os meus lápis de cor, você trouxe?
8 de outubro de 2010
no sonho do meu filho
eu tinha uma colmeia por dentro. quando abria a boca, abelhas entravam saíam e escorria mel.
(chico)
(chico)
7 de outubro de 2010
(in)cômoda
na primeira gaveta da esquerda, repare, há uma pequena pérola que um dia fez par em brinco, antes, fez casa em concha e, antes, bem antes de tudo, já foi areia, cisco, um pedaço minúsculo qualquer da grande explosão do mundo.
repare, há uma pequena pérola em reflexo róseo nos seus olhos agora quando entre seus dedos a areia.
nem tudo é imediato. tudo pode esperar.
repare, há uma pequena pérola em reflexo róseo nos seus olhos agora quando entre seus dedos a areia.
nem tudo é imediato. tudo pode esperar.
6 de outubro de 2010
viva
quero me lançar em cacos deitar pedra pedaços pontiagudos do mundo e dormir. quero me jogar sobre faróis ondas noite escura que não me deixa seguir e respirar.
um homem me tira do meio da rua. um homem vem e me diz sente-se, fique na calçada. respire. um homem vem e do nada se ocupa de mim. no meio do meu nada, se ele diz, deve fazer sentido. espero. calma, ele entra no carro, ele não sabe: ficará sentado horas aqui ao meu lado. juntos esperaremos a madrugada.
mesmo que eu também já não esteja.
(o rio)
um homem me tira do meio da rua. um homem vem e me diz sente-se, fique na calçada. respire. um homem vem e do nada se ocupa de mim. no meio do meu nada, se ele diz, deve fazer sentido. espero. calma, ele entra no carro, ele não sabe: ficará sentado horas aqui ao meu lado. juntos esperaremos a madrugada.
mesmo que eu também já não esteja.
(o rio)
30 de setembro de 2010
e não piso nos riscos

dias ou dias e o dia parece imóvel. oco. parado. folhas caem. cães latem. saída do dia, ouço, longe, um batedor de arame e claras nevam. rabanetes forjam-se maravilha no fundo da terra. formigas carregam minha raiva sob o dia nublado. não se vê a totalidade das horas a passar. farpas pequenas do dia se desfiam nas listas de quefazeres à espera. à espreita. na beira do mapa, o monstro de mil cabeças. se na gota houver mar, mergulhe.
29 de setembro de 2010
monogramatica
dia desses, mandou descer o quadro do sótão, que desembrulhassem e tirassem o pó.
ficou na sala a observar.
o marido chegou, viu o quadro, perguntou que quadro é esse?
ela disse um homem que me amava muito me deu o quadro. logo depois um acidente, não sei ao certo.
o marido desentendeu mas é um quadro todo verde? só verde?
não é todo do mesmo verde, repare, há vários tons, ela disse. depois, disse também é porque eu tinha olhos verdes.
o marido estranhou você tinha os olhos verdes?
é, os cabelos também. e também a pele. eu demorei muito para amadurecer.
escorreram nas faces duas lágrimas de reflexos verdes.
quando teria sido a hora de trazer as crianças e a copeira teria servido o jantar, já tudo estava seco novamente: olhos rostos mãos.
há também os que amadurecem e custam a verdejar.
ficou na sala a observar.
o marido chegou, viu o quadro, perguntou que quadro é esse?
ela disse um homem que me amava muito me deu o quadro. logo depois um acidente, não sei ao certo.
o marido desentendeu mas é um quadro todo verde? só verde?
não é todo do mesmo verde, repare, há vários tons, ela disse. depois, disse também é porque eu tinha olhos verdes.
o marido estranhou você tinha os olhos verdes?
é, os cabelos também. e também a pele. eu demorei muito para amadurecer.
escorreram nas faces duas lágrimas de reflexos verdes.
quando teria sido a hora de trazer as crianças e a copeira teria servido o jantar, já tudo estava seco novamente: olhos rostos mãos.
há também os que amadurecem e custam a verdejar.
28 de setembro de 2010
quando o quase
minha mão não sei o que faço.
se estendo os dedos sei que resvalo em sua pele clara e delicada no vão que se revela entre a mão dela e o casaco de longas mangas e escuras e meus olhos mergulham no onde a blusa se encolhe no gesto não pensado e das costas um pedaço quase sei.
e se me deitasse agora e pedisse socorro e me virasse e pedisse abrigo e se eu agora me estendesse no mundo e lentamente pudesse passar as mãos em seus ombros frágeis frágeis e os seios que imagino seda e o ventre?
um nada é esse que quase sei.
se estendo os dedos sei que resvalo em sua pele clara e delicada no vão que se revela entre a mão dela e o casaco de longas mangas e escuras e meus olhos mergulham no onde a blusa se encolhe no gesto não pensado e das costas um pedaço quase sei.
e se me deitasse agora e pedisse socorro e me virasse e pedisse abrigo e se eu agora me estendesse no mundo e lentamente pudesse passar as mãos em seus ombros frágeis frágeis e os seios que imagino seda e o ventre?
um nada é esse que quase sei.
27 de setembro de 2010
sem foco
pandonar, o cruel, dizia que se ficássemos um longo tempo a mirar um mesmo ponto preto seríamos fortes, determinados, potentes.
invencíveis.
não sei.
sei que se mantenho o foco por dias a fio ao final me perco, desfoco-me.
não vejo nem o mundo nem a mim. no por dentro ou no por fora, só.
loucura de dias a se suceder.
17 de setembro de 2010
três dias
14 de setembro de 2010
flor de beleza
depois de se haver perdido, ela vinha na minha direção, sem me ver. inconfundível, atravessou o descampado e chegou. ao meu lado, sem saber. seguiu. seguiu.
por vezes, vamos na direção, seguimos, seguimos, sem chegar a lugar algum.
não foi o caso. ela, quando seguiu, chegou. veio. esteve, está.
foi um acaso. como a vida é uma parte de acasos. foi um presente. bom, muito bom. como quando dizem se alcança uma graça. uma flor. o mistério de um ovo. de páscoa.
por vezes, vamos na direção, seguimos, seguimos, sem chegar a lugar algum.
não foi o caso. ela, quando seguiu, chegou. veio. esteve, está.
foi um acaso. como a vida é uma parte de acasos. foi um presente. bom, muito bom. como quando dizem se alcança uma graça. uma flor. o mistério de um ovo. de páscoa.
10 de setembro de 2010
o que vale
gosto das organizações, ainda que não durem no tempo.
as contas, por exemplo. podem ser organizadas por tipo - água luz telefone - ou cronologia - meses anos décadas. mas se nada fazemos com as tais contas organizadas - controle de gastos redução ampliação de consumo - a organização deixa de fazer sentido. tudo ali a permanecer na ordem inicial, mas, sem porquê, nada de organização.
o mesmo com as roupas. organizo-as por tipo cor estação para uso. se engordo emagreço ou me mudo para o polo sul, tudo fica sem sentido.
não há organização que dê conta disso. dessas mudanças.
tampouco escapa a rotina, que é a organização do tempo.
quando trabalho planejo a hora de sair de chegar de voltar e onde ir planejo reuniões responsabilidades relatórios projetos.
se me aposento, desorganiza-se o que era planejado. se insisto em respeitar a antiga organização, não há como, minha vida saberá a ruínas.
as contas, por exemplo. podem ser organizadas por tipo - água luz telefone - ou cronologia - meses anos décadas. mas se nada fazemos com as tais contas organizadas - controle de gastos redução ampliação de consumo - a organização deixa de fazer sentido. tudo ali a permanecer na ordem inicial, mas, sem porquê, nada de organização.
o mesmo com as roupas. organizo-as por tipo cor estação para uso. se engordo emagreço ou me mudo para o polo sul, tudo fica sem sentido.
não há organização que dê conta disso. dessas mudanças.
tampouco escapa a rotina, que é a organização do tempo.
quando trabalho planejo a hora de sair de chegar de voltar e onde ir planejo reuniões responsabilidades relatórios projetos.
se me aposento, desorganiza-se o que era planejado. se insisto em respeitar a antiga organização, não há como, minha vida saberá a ruínas.
6 de setembro de 2010
nas pátrias
quando eu era criança, achava que todos falávamos a mesma língua no espaço público. em casa, no restrito da família, cada uns tinham seu próprio código, só por eles mesmos compreendido. como nós tínhamos. eu não sabia da imensidão que poderia ser uma língua. também não sabia o tudo que poderia ser um país.
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3 de setembro de 2010
fiume
a hungria, na planície da panônia, é o maior país da europa central. tem duzentos e cinqüenta quilômetros de largura e quinhentos e vinte quilômetros de comprimento. mais de dois mil quilômetros de divisa com os sete países que o cercam – sérvia, croácia, eslovênia, ucrânia, romênia, eslováquia e áustria. sua capital é budapest, quatro cidades tornadas uma há pouco mais de cem anos. dois grandes rios cruzam suas terras: o danúbio e o tisza, ambos navegáveis. o grande lago balaton, também chamado de mar húngaro, é o maior lago da europa central e oriental. em junho de 1920, no tratado de trianon, derrotada na guerra, a hungria perdeu quase três quartos do seu território e dois terços da sua população. também perdeu seu pedaço minúsculo de mar. mar, mesmo.
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2 de setembro de 2010
1 de setembro de 2010
no escuro, farejo
longe, o mar. os cães agora silenciam a lua.
não amanhece por mais que eu peça. tudo pesa. nada leve. na minha cabeça, caixas empilhadas ameaçam desabar. como se milhares de bolinhas de gude azuis escorressem nas infinitas escadarias de uma catedral. ensurdeço. conto carneiros. imagino constelações. constato o que há nos cantos da casa. nada.
não durmo e não sonho. vou me tornando cinza. depois brasa. depois verde. depois, outra vez, desespero. então choro. a noite não passa. o mar não para. acendo a luz arde em meus olhos. apago. fico tonta. nada mais respira no mundo. tudo está morto.
lembro que no japão trabalham. e há uma mulher que, olhando o mar, sabe que antípodas dormem. ela, então, sente muito sono e não pode dormir. por um momento eu me aproprio de seu sono. e adormeço. pensando no mar do japão. liberto do meu querer, o dia amanhece.
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não amanhece por mais que eu peça. tudo pesa. nada leve. na minha cabeça, caixas empilhadas ameaçam desabar. como se milhares de bolinhas de gude azuis escorressem nas infinitas escadarias de uma catedral. ensurdeço. conto carneiros. imagino constelações. constato o que há nos cantos da casa. nada.
não durmo e não sonho. vou me tornando cinza. depois brasa. depois verde. depois, outra vez, desespero. então choro. a noite não passa. o mar não para. acendo a luz arde em meus olhos. apago. fico tonta. nada mais respira no mundo. tudo está morto.
lembro que no japão trabalham. e há uma mulher que, olhando o mar, sabe que antípodas dormem. ela, então, sente muito sono e não pode dormir. por um momento eu me aproprio de seu sono. e adormeço. pensando no mar do japão. liberto do meu querer, o dia amanhece.
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25 de agosto de 2010
terceira lua cheia
24 de agosto de 2010
cisma

talvez ela seja uma rainha, atravessando desertos.
nada de água. nada de ar. nada de dromedários. nada.
nem um oásis ela se permite.
a areia está em seus olhos. e também na sua boca e na impossibilidade de mover os pés.
não adianta ser rainha. ou mandar cortar cabeças.
porque o que não se diz está dito. o que não se grita, dói.
ponha o avental, prepare-se.
é preciso farinha, fermento, sal.
e silencie.
não há realeza que o faça voltar.
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23 de agosto de 2010
quando
quando nada está acontecendo, ela está olhando. às vezes eu paro para ver o que ela vê. é bonito. há alguma ancestralidade em comum.
de vez em quando nossos olhares se cruzam para, logo em seguida, seguirem suas próprias viagens.
veja, é difícil não gostar.
e um dia ainda vamos nos conhecer. eu sei.
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de vez em quando nossos olhares se cruzam para, logo em seguida, seguirem suas próprias viagens.
veja, é difícil não gostar.
e um dia ainda vamos nos conhecer. eu sei.
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