24 de novembro de 2010

medo?




medo? que nossos filhos morram. que eles sofram. que o ar não entre, que o ar não saia. mesmo que eu não vire nem cinza nem fumaça, nada. o que dá náusea desespero o verdadeiro nome do medo imagine atravessando a rua e eu a levo pela mão, a pequena, e um carro – quase, por um triz – e o que eu faria o resto da vida o que eu faria como eu viveria com isso? tive medo.

23 de novembro de 2010

sem espera, a vida



(foto de zsolt zsoló koté)
outras fotos de zsoló aqui.

medo?




medo? a impossibilidade de um salto. o escuro e no escuro uma barata, no escuro um rato.

medo? a doença que detona o fio da vida de cada um. quero morrer de surpresa sem perceber. temo o que no oculto se tece.

medo? o beijo do inimigo que a gente não sabe. o bicho que se esconde e nos esquece.

(sigo sem saber piadas em inglês.)

22 de novembro de 2010

segunda?

quando eu tinha quase vinte, e os retratos eram em papel, frequentava o laboratório de fotografia de um museu pequeno e pleno de árvores.
vera, fotógrafa dali, estava mudando seu foco - do mundo amplo para os detalhes minúsculos de sua casa e seu cotidiano.
aquilo para mim parecia um monolito indecifrável. como diante das rochosas, restava olhar e admirar o puro não entendimento.
o tempo dá delicadezas aos olhos e provoca pequenas fendas nas imensas paredes de pedra. um filete de água escorre.

12 de novembro de 2010

o tempo




de manhã abriu a porta olhou em volta e disse vou ali mergulhar naquele olhos já volto.
até agora nada.

11 de novembro de 2010

fábio e gabriel

quero e não quero dez pãezinhos.
quero é o quase nada. rara coleção de quase nadas.
como se depois de termos ido juntos numa tarde chuvosa à padaria comêssemos os pãezinhos frescos mornos com manteiga uns a preferir a casca outros a devorar o miolo.
e quando já todos alimentados, mesa quase vazia, alguém se voltasse e visse na toalha uma pequena migalha largada sob a luz também largada acesa.
é esse que quero esse quase nada.

8 de novembro de 2010

novena de maria rô

saí do desespero quando recebi as tais rosas e já duvidava da risada de deus. também ri muito antes chorei. antes ainda só eu era espera no mundo à espera inteiro. nem rosas nem amarelas. queria toda nenhuma cor qualquer. queria muito a tal flor, aquela. sei não só eu espero sei nem só para mim pétalas demoradas em som de riso sei mas é porque eu quis, quis tanto. e, então, só então, eu vi.

5 de novembro de 2010

kulina




enquanto uma me pergunta dúvidas sobre o suspirar, outra me conta de sua siesta ao sol. certeira.
nem uma das duas se sabe poeta.
não sei porque, mas penso, penso, penso muito, nas pequenas sementes que moram na pequena menina que se prepara para nascer. também sua mãe é pequena, como pode ser pequeno quem tem tanta semente por aí.
deve ser por haver pela casa uma mini floresta em terra escuro janela estufa banheiro algodão. o milagre exposto. lento e misterioso nos olhos de meninos. também pequenos, como os feijões.

3 de novembro de 2010

dia de festa




a alegria não nasce pronta.
há um tempo, tanto e tão pouco, plantamos uma mangueira. cresceu. precisou de poda. precisa de sol. já deu mangas, já dá crianças nos galhos. às vezes, muitas.
nessa primavera, um casal de sabiás-laranjeira fez ninho nela. num dia de ventania, apareceu um ovo pequeno azul pintadinho que bem pode ter caído de lá. não sei.
o ninho, como na coleção mais linda que já vi, persistiu.
dia desses, ouvimos uns piados. seriam os filhotes? curiosa, subi, subi, subi até chegar nos galhos finos e mesmo assim só a ponta de um bico. minúsculo.
desci, voltei com a máquina de retratos estendi os braços fotografei cegamente. e então pudemos ver a beleza deles que está e está por vir.

29 de outubro de 2010

fusível

uma antepassada com o mesmo nome que o meu plantou uma amoreira no canto esquerdo do pátio do fundo da casa. como eu.
quando fecho as janelas ao entardecer para barrar o vento frio da noite vivo um pequeno luto pelo dia. um luto calmo e consolado e profundo e triste como por alguém que viveu a vida amplamente e já velhinho morreu. ainda assim, um luto.
nem sempre o amanhecer me faz pensar nascimentos.
houve um dia em que uma tartaruguinha se perdeu neste imenso quintal.
os dias transcorrem inturgescidos por pequenos espinhos pontas agudas de facas excesso de prendedores no varal onde a roupa poderia voejar.

28 de outubro de 2010

no escuro, farejo

acordo no meio da noite e ali está o mar que conheço tão bem, quase uivo com os cães. quase grito porque existo. permaneço deitada no escuro à espera das primeiras claridades. para que eu possa sair e deixar a manhã entrar em mim como no sonho. quase tenho sono. mas não durmo. espero.

(foto: joão)

27 de outubro de 2010

revisito

"estrelas não me deixam só no fundo
do menor poço-planeta do universo
e a elas eu remeto cada verso
que do fundo do meu poço-pó aguço

(se debruçam no poço e eu me debruço
na poça para vê-las em reverso
- seu calar agudo, um segundo
cair de gota d´água sobre o mundo)"

(carlito azevedo)

20 de outubro de 2010

isotrópica



na grande avenida, dois homens andam balançando suas barrigas. os dois de terno preto, um com a gravata rosa e o outro de gravata azul de bolinha. eu sei que se me virar, verei seus rabos. peludos. por isso não me viro para ver. como também não olho para o chão, evitando confirmar o que mapas aproximados me dizem: qualquer volta em volta de casa e me enovelo emaranhada num trópico. o de capricórnio. por via das dúvidas, desconfio do que vejo. e não confio no que poderia ver.