17 de dezembro de 2010

café da tarde

sete senhoras, senhoras, entraram na sala errada do cinema. quando se sentaram e olharam para a tela, riram nervosas e constrangidas com o inusitado. no fundo, bem que gostaram e se deixaram ficar até o limite da vergonha. então, uma se levantou e outra e outra até que todas fora da sala cúmplices se consolaram. e riram e riram. juntas foram tomar café. encontraram outras quatro, que chegaram atrasadas para o cinema. onze mulheres ali e eu, a me esquecer para ouvir suas risadas.

16 de dezembro de 2010

tectec-tectectec-tec-tectectectec

na madrugada, o barulho da máquina de escrever costurava mínimos pedaços do tecido que eu gostaria de ser.
me lembro disso quando na máquina de costura junto pedaços de tecidos floridos para que neles possam caber mundos e fundos.
não sou deus. minhas linhas tortas aqui e ali sem certezas não me denunciam, me desnudam.
olhe bem um papel em branco: você, o que vê?

14 de dezembro de 2010

escrever

"É uma coisa curiosa um escritor. Uma contradição e também um absurdo. Escrever é também não falar. É se calar. É berrar sem fazer barulho. É muitas vezes o repouso de um escritor e ele tem muito a ouvir. Não fala muito porque é impossível falar com alguém de um livro que se escreveu e sobretudo de um livro que se está escrevendo. É impossível. (...) Porque um livro é o desconhecido, é a noite, é fechado, é assim."

(marguerite duras)

13 de dezembro de 2010

passagens

com o tempo, o tempo se alarga e é possível virá-lo do avesso e do direito, por um lado encontrar foco, por outro mergulhar no difuso iluminado do mundo do entorno.

6 de dezembro de 2010

dias lentos



o café se perde servido na xícara, a roupa venta, no jornal somem as letras.
apesar do lindo vestido seus olhos choram
e escorrem em bolinhas brancas sobre fundo preto.
as mãos. pra quê?
os pés. e onde?
o resto. e nada? tudo azul. eu escuto.

1 de dezembro de 2010

todas as coisas pequenas

na nova organização dos livros, caio e zé ficam amigos. camila e kavafis conversam. a senhora jaffe chega tímida, tímida como na vida real.

29 de novembro de 2010

28 de novembro de 2010

27 de novembro de 2010

medo?

“um aleph desgovernado me levando para nunca mais. fazendo de mim um longe dos meus, fazenda de linho sem lastro, buraco de um tricô sem ponto”

(jader scalzaretto)

26 de novembro de 2010

medo?




medo? a guerra. no medo de ter medo o tempo inteiro. e em nada, nada mais acreditar. uma arma roleta russa apontada para a cabeça de quem você ama. a te obrigarem a segurar a arma, apertar o gatilho.

25 de novembro de 2010

medo?




meus filhos sofrendo sem mim. penso e me aperta o coração, um medo que dói.
mas a barata eu mato mas o rato. tenho saudade do tempo em que eu não sabia que havia o medo no equilíbrio de não negar fugir fingir ou sucumbir.

24 de novembro de 2010

medo?




medo? que nossos filhos morram. que eles sofram. que o ar não entre, que o ar não saia. mesmo que eu não vire nem cinza nem fumaça, nada. o que dá náusea desespero o verdadeiro nome do medo imagine atravessando a rua e eu a levo pela mão, a pequena, e um carro – quase, por um triz – e o que eu faria o resto da vida o que eu faria como eu viveria com isso? tive medo.

23 de novembro de 2010

sem espera, a vida



(foto de zsolt zsoló koté)
outras fotos de zsoló aqui.

medo?




medo? a impossibilidade de um salto. o escuro e no escuro uma barata, no escuro um rato.

medo? a doença que detona o fio da vida de cada um. quero morrer de surpresa sem perceber. temo o que no oculto se tece.

medo? o beijo do inimigo que a gente não sabe. o bicho que se esconde e nos esquece.

(sigo sem saber piadas em inglês.)

22 de novembro de 2010

segunda?

quando eu tinha quase vinte, e os retratos eram em papel, frequentava o laboratório de fotografia de um museu pequeno e pleno de árvores.
vera, fotógrafa dali, estava mudando seu foco - do mundo amplo para os detalhes minúsculos de sua casa e seu cotidiano.
aquilo para mim parecia um monolito indecifrável. como diante das rochosas, restava olhar e admirar o puro não entendimento.
o tempo dá delicadezas aos olhos e provoca pequenas fendas nas imensas paredes de pedra. um filete de água escorre.