18 de maio de 2011
16 de maio de 2011
13 de maio de 2011
monossilábica
você sabia se eu pudesse lhe dizer uma palavra qualquer diria todas parada à espera quando sacaram num gesto abrupto e áspero e inexato a vida das mãos as mãos pendendo sem nuvens se tiram dias de vida deveriam dar em troca uns dias de morte uma coisa não compensa a outra e as mãos pendentes à espera do que eu dissesse e você sabe se eu puder lhe direi todas.
10 de maio de 2011
heráclito
visitar um lugar que conhecemos de mapas é como ir ao encontro de quem conhecemos só de ouvir falar. a cidade que eu queria atravessar não existe mais. ainda que os traçados sejam das quase mesmas ruas, a cidade de antes apagou-se nos tratados, nas guerras, nos muros. e renasce. a cada dia no mesmo lugar, há outra. a mesma. como somos sempre os mesmos desde que nascemos e sempre outros. não sei como fazer a mala.
5 de maio de 2011
hh
Mula de Deus
Hilda Hilst
I
Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO
Alta, dourada, me pensei.
Não esta pardacim, o pelo fosco
Pois há de rir-se de mim O PRECIOSO.
Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO
Lavei com a língua os cascos
E as feridas. Sanguinolenta e viva
Esta do dorso
A cada dia se abre carmesim.
Se me vires, SENHOR, perdoa ainda.
É raro, em sendo mula, ter a chaga
E ao mesmo tempo
Aparência de limpa partitura
E perfume e frescor de terra arada.
II
Há nojosos olhares sobre mim.
Um rei que passa
E cidadãos do reino, príncipes do efêmero.
Agora é só de dor o flanco trêmulo.
Há nojosos olhares. Rústicos senhores.
Açoites, fardos, vozes, alvoroço.
E há em mim um sentir deleitoso
Um tempo onde fui ave, um outro
Onde fui tenra e haste.
Há alguém que foi luz e escureceu.
E dementado foi humano e cálido.
Há alguém que foi pai. E era meu.
III
Escrituras de pena (diria mais, de pelos)
De infinita tristura, encerrada em si mesma
Quem há de ouvir umas canções de mula?
Até das pedras lhes ouço a desventura.
Até dos porcos lhes ouço o cantochão.
E por que não de ti, poeta-mula?
E ornejos de outras mulas se juntaram aos meus.
Escoiceando os ares, espumando de gozo
Assustando mercado e mercadores
Alegrou-se de mim o coração.
IV
Um dia fui o asno de Apuléius.
Depois fui Lucius, Lucas, fui Roxana.
Fui mãe e meretriz e na Betânia
Toquei o intocado e vi Jeshua.
(Ele tocou-me o ombro aquele Jeshua pálido).
Um tempo fui ninguém: sussurro, hálito.
Alguém passou, diziam? Ninguém, ninguém.
Agora sou escombros de um alguém.
Só caminhada e estio. Carrego fardos
Aves, patos, esses que vão morrer.
Iguais a mim também.
V
Ditoso amor de mula, Te ouvi murmurando
Ó Amoroso! Ditoso amor de mim!
Poder amar a Ti com este corpo nojoso
Este de mim, pulsante de outras vidas
Mas tão triste e batido, tão crespo
De espessura e de feridas.
Ditoso amor de mim! Tão pressuroso
De amar! (E de deitar-se ao pé
De tuas alturas). Corpo acanhado de mula
Este de mim, mas tão festivo e doce
Neste Agora
Porque banhado de ti, ó FORMOSURA.
VI
Tu que me vês
Guarda de mim o olhar.
Guarda-me o flanco.
Há de custar tão pouco
Guardar o nada
E seus resíduos ocos.
Orelhas, ventas
O passo apressado sob o jugo
Casco, subidas
Isso é tudo de mim
Mas é tão pouco...
Tu que me vês
Guarda de mim, apenas
Minha demasiada coitadez.
VII
Que eu morra junto ao rio.
O caudaloso frescor das águas claras
Sobre o pelo e as chagas.
Que eu morra olhando os céus:
Mula que sou, esse impossível
Posso pedir a Deus. E entendendo nada
Como os homens da Terra
Como as mulas de Deus.
VIII
Palha
Trapos
Uma só vez o musgo das fontes
O indizível casqueando o nada
Essa sou eu.
Poeta e mula
(Aunque pueda parecer
Que del poeta es locura).
(Hilda Hilst, Estar sendo. Ter sido. São Paulo: Nankin, 1997)
Hilda Hilst
I
Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO
Alta, dourada, me pensei.
Não esta pardacim, o pelo fosco
Pois há de rir-se de mim O PRECIOSO.
Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO
Lavei com a língua os cascos
E as feridas. Sanguinolenta e viva
Esta do dorso
A cada dia se abre carmesim.
Se me vires, SENHOR, perdoa ainda.
É raro, em sendo mula, ter a chaga
E ao mesmo tempo
Aparência de limpa partitura
E perfume e frescor de terra arada.
II
Há nojosos olhares sobre mim.
Um rei que passa
E cidadãos do reino, príncipes do efêmero.
Agora é só de dor o flanco trêmulo.
Há nojosos olhares. Rústicos senhores.
Açoites, fardos, vozes, alvoroço.
E há em mim um sentir deleitoso
Um tempo onde fui ave, um outro
Onde fui tenra e haste.
Há alguém que foi luz e escureceu.
E dementado foi humano e cálido.
Há alguém que foi pai. E era meu.
III
Escrituras de pena (diria mais, de pelos)
De infinita tristura, encerrada em si mesma
Quem há de ouvir umas canções de mula?
Até das pedras lhes ouço a desventura.
Até dos porcos lhes ouço o cantochão.
E por que não de ti, poeta-mula?
E ornejos de outras mulas se juntaram aos meus.
Escoiceando os ares, espumando de gozo
Assustando mercado e mercadores
Alegrou-se de mim o coração.
IV
Um dia fui o asno de Apuléius.
Depois fui Lucius, Lucas, fui Roxana.
Fui mãe e meretriz e na Betânia
Toquei o intocado e vi Jeshua.
(Ele tocou-me o ombro aquele Jeshua pálido).
Um tempo fui ninguém: sussurro, hálito.
Alguém passou, diziam? Ninguém, ninguém.
Agora sou escombros de um alguém.
Só caminhada e estio. Carrego fardos
Aves, patos, esses que vão morrer.
Iguais a mim também.
V
Ditoso amor de mula, Te ouvi murmurando
Ó Amoroso! Ditoso amor de mim!
Poder amar a Ti com este corpo nojoso
Este de mim, pulsante de outras vidas
Mas tão triste e batido, tão crespo
De espessura e de feridas.
Ditoso amor de mim! Tão pressuroso
De amar! (E de deitar-se ao pé
De tuas alturas). Corpo acanhado de mula
Este de mim, mas tão festivo e doce
Neste Agora
Porque banhado de ti, ó FORMOSURA.
VI
Tu que me vês
Guarda de mim o olhar.
Guarda-me o flanco.
Há de custar tão pouco
Guardar o nada
E seus resíduos ocos.
Orelhas, ventas
O passo apressado sob o jugo
Casco, subidas
Isso é tudo de mim
Mas é tão pouco...
Tu que me vês
Guarda de mim, apenas
Minha demasiada coitadez.
VII
Que eu morra junto ao rio.
O caudaloso frescor das águas claras
Sobre o pelo e as chagas.
Que eu morra olhando os céus:
Mula que sou, esse impossível
Posso pedir a Deus. E entendendo nada
Como os homens da Terra
Como as mulas de Deus.
VIII
Palha
Trapos
Uma só vez o musgo das fontes
O indizível casqueando o nada
Essa sou eu.
Poeta e mula
(Aunque pueda parecer
Que del poeta es locura).
(Hilda Hilst, Estar sendo. Ter sido. São Paulo: Nankin, 1997)
4 de maio de 2011
nó
não gosto de tênis brancos, brincos grandes, grades nas janelas. de bolsas sem alças ou calças sem bolsos. ruas que não estão nos mapas, mapas sem relevo, praias com muito vento. gosto dos plurais, ali cabe isso e mais.
28 de abril de 2011
na liberdade
ali era a forca.
proibido acender velas coloridas.
chaguinhas um condenado por exigir o que era seu. o corpo lançado no ar. na primeira, a corda se rompeu. na segunda, a corda se rompeu. na terceira, a multidão a buscar os mistérios da santidade esperava aflita e a corda novamente se rompeu. na quarta, o laço de couro, não houve jeito. chaguinhas evadiu-se para a crença de todos e dos filhos dos todos.
a devoção e a mudança dos tempos fizeram a forca virar capela. o cemitério virou casas, restou o beco.
os aflitos que dialogam transcendência vão ali, com suas luzes. vermelha pra ogum verde pra oxóssi azul iemanjá amarela oxum laranja iansã. marrom para xangô.
no subterrâneo da capela velas brancas brilham pela memória dos amados. prontas para reciclagem, que uma vela de qualquer cor conspurcaria.
e no enquanto sempre todas oxalá.
proibido acender velas coloridas.
chaguinhas um condenado por exigir o que era seu. o corpo lançado no ar. na primeira, a corda se rompeu. na segunda, a corda se rompeu. na terceira, a multidão a buscar os mistérios da santidade esperava aflita e a corda novamente se rompeu. na quarta, o laço de couro, não houve jeito. chaguinhas evadiu-se para a crença de todos e dos filhos dos todos.
a devoção e a mudança dos tempos fizeram a forca virar capela. o cemitério virou casas, restou o beco.
os aflitos que dialogam transcendência vão ali, com suas luzes. vermelha pra ogum verde pra oxóssi azul iemanjá amarela oxum laranja iansã. marrom para xangô.
no subterrâneo da capela velas brancas brilham pela memória dos amados. prontas para reciclagem, que uma vela de qualquer cor conspurcaria.
e no enquanto sempre todas oxalá.
27 de abril de 2011
tükörtojás
um dia ainda me lançarei no abismo:
apontarei o ideograma e nada pedirei de explicações.
talvez eu voe.
talvez eu simule um súbito mal estar.
(no amplo salão, sou a única a olhar para o vasto mínimo aquário onde peixes.
a única que não entende o doce emaranhado das ondas dos sons.
e vê noel chegar montado em dragões.)
será mais discreto do que quando entrei.
juro.
26 de abril de 2011
anyu
às vezes, acordo com saudades. ontem, olhando para o casal na mesa ao lado, nem sei bem por quê, me lembrei de nós juntas na estrada, no escuro os faróis do carro a iluminar poças ou poeiras, no calor da lenha as frutas se desfazendo, sopas, panquecas, lángos.
meus filhos nos seus braços. uma vez, numa única boca de gás, o melhor arroz com brócolis que já comi na vida.
meus filhos nos seus braços. uma vez, numa única boca de gás, o melhor arroz com brócolis que já comi na vida.
25 de abril de 2011
a cada dia uma pequena revolução
em 1984 eu tinha quase vinte e não sabia quanto tempo uma ditadura pode permanecer entranhada depois de haver sido vencida. não me esqueço quando descobri sob uma garoa fina que o hino, que nos haviam feito cantar quase como uma imposição sempre antes de subirmos as escadas, seria, a partir daquela noite, a possibilidade de haver um mundo com espaço para todos nós. os nascidos, os trazidos, os chegados. os que tiveram que ir antes da hora.
20 de abril de 2011
ao mestre, com carinho
alguns dias, acordo mais sensível aos sons. todas melodias se confundem objetos.
conheci um homem que ouvia a música dos motores e queria afiná-los. sem sucesso.
outro me dizia que a primavera era de sons graves. nada de agudos ao violino. pai, vou ser mãe e isto encheu seu coração de alegrias ocultas.
conheci um homem que ouvia a música dos motores e queria afiná-los. sem sucesso.
outro me dizia que a primavera era de sons graves. nada de agudos ao violino. pai, vou ser mãe e isto encheu seu coração de alegrias ocultas.
19 de abril de 2011
18 de abril de 2011
no fio do son(h)o
à noite, fica mais intensa a fonte de perguntas que ele é. por que a gente morre quem inventou a gravidade como você sabe que é minha mãe por que não venta na lua como o vovô jimmy espirrava quando estou sozinho estou comigo mesmo, né, você me dá beijo quando sair? eu digo chega, é hora de dormir. e tudo se estanca. no silêncio da respiração que se finge pausada sei que perguntas aflitas encavalam na garganta. até que o sono vem e vence. palavras sem jorrar vida adentro pesadelam-nos por vezes madrugadas e escuros. no geral, embaralham-se lindos poemas. amém.
15 de abril de 2011
14 de abril de 2011
em tempos de guerra
na noite na cidade ocupada o inimigo bate à porta. bêbado, esmurra grita e quer uma mulher. elas no sótão, os homens de prontidão. no silêncio. seguram suas ferramentas únicas armas. um momento e o inimigo se afasta. saem os homens no escuro.
quando o dia, mais uma manhã mais uma jornada de trabalho mais um ancinho a menos para o feno.
quando o dia, mais uma manhã mais uma jornada de trabalho mais um ancinho a menos para o feno.
13 de abril de 2011
hoje
às vezes nada mais há que se possa fazer eu digo chega você não está ponho as mãos no rosto nada nada que se possa vou dormir nada a fazer nada há uma pequena tristeza a escorrer lágrima na face mas nada que se faça nada chega nada não está nada nada nada um mantra que adormece o rosto e as mãos. que o nada às vezes me permanece.
9 de abril de 2011
saudade em casa de mim
minha vida um longo fio tricotado de mil jeitos tecido de outros e quando me afasto é como se a ponta do fio que sou ficasse preso ao onde você está e na distância ao se distender o fio vou me desfazendo do trançado que eu era vou soltando a tecedura do que me construo no mundo quando com você estou.
8 de abril de 2011
vento
algumas pessoas nascem esculturas prontas e resta ao tempo devastá-las. outras vêm ao mundo massa informe, e ao tempo cabe forjá-las, esculpi-las.
eola gostava de andar nas tardes claras de ventania quando o movimento do ar traça sulcos em gestos e rosto, como se erodisse planícies. o pensamento segue pedaços de painas no asfalto, ângulos exatos entre janela e céu, sombras na calçada, placas de trânsito invertidas, construções novas em terrenos antes vazios.
o seu tesouro o fundo de um vale nascente na gruta dos olhos nas mãos de veias salientes e dedos grossos.
eola gostava de andar nas tardes claras de ventania quando o movimento do ar traça sulcos em gestos e rosto, como se erodisse planícies. o pensamento segue pedaços de painas no asfalto, ângulos exatos entre janela e céu, sombras na calçada, placas de trânsito invertidas, construções novas em terrenos antes vazios.
o seu tesouro o fundo de um vale nascente na gruta dos olhos nas mãos de veias salientes e dedos grossos.
6 de abril de 2011
as mulheres gulosas
no ônibus, uma senhora de pé. qualquer um pensa adivinhá-la no cabelo, na roupa contida, no calçado raso. óbvia.
ela se senta, então.
e no tornozelo descoberto, em letras mínimas, tatuado naquele quase pergaminho, um poema de drummond.
ela se senta, então.
e no tornozelo descoberto, em letras mínimas, tatuado naquele quase pergaminho, um poema de drummond.
4 de abril de 2011
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