1 de julho de 2011
mesmo que ninguém saiba por quê
joão capistrano não gostava dos turcos.
quando belgrado era nándorfehérvár, em 1456, joão convenceu um general húngaro a resistir aos otomanos. uma batalha esquecida decidia o destino do mundo. ocidental.
os húngaros evitaram que a europa fosse conquistada. por aquela vez.
e os sinos, por ordem de um papa ou outro, passaram a tocar ao meio dia. e tocam. toda vez. onde há igrejas. onde há sinos.
30 de junho de 2011
29 de junho de 2011
parece mágica
os pés atrás ele disse eu tive as mãos atadas?
talvez talvez na lua vazia o dia se preencha de pequenos nadas e tudo no nada avança.
o nada da seiva que move a lua nos corpos que não sangram. o ritmo do ciclo do silêncio e suas intermitências no sabor do nada a esgarçar veias.
um tango ele disse é lindo.
(inspirado em texto de remo pellegrini)
28 de junho de 2011
iminências
coincidência, noemi jaffe
sempre me perguntam como é possível saber quando um livro é bom. respondo que boa é a literatura que consegue criar uma coincidência única entre o que se diz e a forma como se diz o que está sendo dito. mas também, acho que boa é a literatura que contém algum tipo de risco. algo está sendo posto em cheque: a linguagem, o leitor, a existência, o que já se conhece. alguma coisa vai se perder - iminência de vazio ou de morte - e/ou alguma coisa vai se criar - iminência de nascimento. a literatura que não mora na iminência não tem me interessado muito mais.
valer la pena, juan yanes
En el borde, en el límite, en la frontera, en el riesgo, en la inseguridad, en la incertidumbre, en donde empiezan las cosas que no han sido dichas, los fenómenos que no tienen nombre, las formas que no han sido definidas, los objetos que todavía nadie ha nombrado. Sólo vale la pena vivir donde empieza el vértigo.
27 de junho de 2011
nos quintais
equilibra a juba e ajeita os passos nas tábuas sobre o abismo entre os sons e o dia de janelas abertas. nem sempre rugidos ou sangues. às vezes café pão manteiga e um filhote de gato se espreguiça manhã.
23 de junho de 2011
22 de junho de 2011
azul e seco
moro entre dois pontos:
mal cabem minhas digitais.
o inverno por aqui é florido e ninguém estranha.
as saúvas deixam as carambolas à mostra
nem assim os vizinhos vêm colher.
alguns carregam o mundo em si
de outros o mundo mesmo se encarrega.
mal cabem minhas digitais.
o inverno por aqui é florido e ninguém estranha.
as saúvas deixam as carambolas à mostra
nem assim os vizinhos vêm colher.
alguns carregam o mundo em si
de outros o mundo mesmo se encarrega.
21 de junho de 2011
sem foto
meu espectro viaja o mundo se permaneço
onde turistas de qualquer lugar
em máquinas de retratos fotografam meus pedaços.
tunísia índia paquistão
china hungria eslovenia
polônia itália russia japão
peru colombia argentina
alemanha inglaterra frança turquia
brasil
silêncio, silêncio, por favor.
onde turistas de qualquer lugar
em máquinas de retratos fotografam meus pedaços.
tunísia índia paquistão
china hungria eslovenia
polônia itália russia japão
peru colombia argentina
alemanha inglaterra frança turquia
brasil
silêncio, silêncio, por favor.
20 de junho de 2011
si us plau
o por dentro era o avesso de todos os castelos de areia onde em fendas vazadas pequenos pedaços coloridos de vidros que para iemanjá se quebraram na praia.
17 de junho de 2011
as terras que piso
mergulho nos campos vermelhos do país que me habita.
não são flores?
algumas revoam como borboletas.
"e nesse momento ela sentiu o silêncio à sua volta toda. nos ombros, nas árvores, nas montanhas, no ar. aquele silêncio grave, branco, profundo, como uma grande bolha invísível, que se derrama redonda e pesada sobre o mundo, e o mundo imóvel, sem mesmo respirar".
(a bruxa de funtinelli, albert wass)
16 de junho de 2011
15 de junho de 2011
a mão direita do rei repousa
o que sou atravessa oceanos.
no escuro, nas profundezas, os peixes imitam planícies.
entre o túnel e a ponte os leões espreitam.
flores. o grande rio. o penhasco.
eu me insisto rastros e me encontro transitiva.
se a lagarta me perguntasse, não saberia dizer quem sou.
preciso me relembrar que nunca, nunca há para onde voltar.
14 de junho de 2011
magyar
perdi a noção da língua. tenho poucos pés e muitos lugares por pisar. a terra corre, vira. a paisagem me revira. espelha-me.
um lugar é um lugar. o lugar onde sou é o onde estou. se corro, se deito, se vôo: sempre eu desde o aqui na imensidão.
perder a noção da língua é mais abismo que perder o chão. e os muitos que foram expulsos de sua língua e mantiveram sua escrita, mantiveram a capacidade de escrever na língua que era sua e os excluía?
esses, todo dia habitam ilhas de línguas distando dias e mundos da língua mãe.
nessa língua ilha sonha-se, também, cria-se, ao tempo que tudo permanece isolado um vínculo perdido. a língua nascida ponte que não se constrói: volta-se para quem a mantém viva e mergulha e lentamente murmura a inuberância de si.
a língua cortada no fio do pensamento. a língua sem meada.
eu e o continente língua que crio escuridão.
um lugar é um lugar. o lugar onde sou é o onde estou. se corro, se deito, se vôo: sempre eu desde o aqui na imensidão.
perder a noção da língua é mais abismo que perder o chão. e os muitos que foram expulsos de sua língua e mantiveram sua escrita, mantiveram a capacidade de escrever na língua que era sua e os excluía?
esses, todo dia habitam ilhas de línguas distando dias e mundos da língua mãe.
nessa língua ilha sonha-se, também, cria-se, ao tempo que tudo permanece isolado um vínculo perdido. a língua nascida ponte que não se constrói: volta-se para quem a mantém viva e mergulha e lentamente murmura a inuberância de si.
a língua cortada no fio do pensamento. a língua sem meada.
eu e o continente língua que crio escuridão.
13 de junho de 2011
18 de maio de 2011
16 de maio de 2011
13 de maio de 2011
monossilábica
você sabia se eu pudesse lhe dizer uma palavra qualquer diria todas parada à espera quando sacaram num gesto abrupto e áspero e inexato a vida das mãos as mãos pendendo sem nuvens se tiram dias de vida deveriam dar em troca uns dias de morte uma coisa não compensa a outra e as mãos pendentes à espera do que eu dissesse e você sabe se eu puder lhe direi todas.
10 de maio de 2011
heráclito
visitar um lugar que conhecemos de mapas é como ir ao encontro de quem conhecemos só de ouvir falar. a cidade que eu queria atravessar não existe mais. ainda que os traçados sejam das quase mesmas ruas, a cidade de antes apagou-se nos tratados, nas guerras, nos muros. e renasce. a cada dia no mesmo lugar, há outra. a mesma. como somos sempre os mesmos desde que nascemos e sempre outros. não sei como fazer a mala.
5 de maio de 2011
hh
Mula de Deus
Hilda Hilst
I
Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO
Alta, dourada, me pensei.
Não esta pardacim, o pelo fosco
Pois há de rir-se de mim O PRECIOSO.
Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO
Lavei com a língua os cascos
E as feridas. Sanguinolenta e viva
Esta do dorso
A cada dia se abre carmesim.
Se me vires, SENHOR, perdoa ainda.
É raro, em sendo mula, ter a chaga
E ao mesmo tempo
Aparência de limpa partitura
E perfume e frescor de terra arada.
II
Há nojosos olhares sobre mim.
Um rei que passa
E cidadãos do reino, príncipes do efêmero.
Agora é só de dor o flanco trêmulo.
Há nojosos olhares. Rústicos senhores.
Açoites, fardos, vozes, alvoroço.
E há em mim um sentir deleitoso
Um tempo onde fui ave, um outro
Onde fui tenra e haste.
Há alguém que foi luz e escureceu.
E dementado foi humano e cálido.
Há alguém que foi pai. E era meu.
III
Escrituras de pena (diria mais, de pelos)
De infinita tristura, encerrada em si mesma
Quem há de ouvir umas canções de mula?
Até das pedras lhes ouço a desventura.
Até dos porcos lhes ouço o cantochão.
E por que não de ti, poeta-mula?
E ornejos de outras mulas se juntaram aos meus.
Escoiceando os ares, espumando de gozo
Assustando mercado e mercadores
Alegrou-se de mim o coração.
IV
Um dia fui o asno de Apuléius.
Depois fui Lucius, Lucas, fui Roxana.
Fui mãe e meretriz e na Betânia
Toquei o intocado e vi Jeshua.
(Ele tocou-me o ombro aquele Jeshua pálido).
Um tempo fui ninguém: sussurro, hálito.
Alguém passou, diziam? Ninguém, ninguém.
Agora sou escombros de um alguém.
Só caminhada e estio. Carrego fardos
Aves, patos, esses que vão morrer.
Iguais a mim também.
V
Ditoso amor de mula, Te ouvi murmurando
Ó Amoroso! Ditoso amor de mim!
Poder amar a Ti com este corpo nojoso
Este de mim, pulsante de outras vidas
Mas tão triste e batido, tão crespo
De espessura e de feridas.
Ditoso amor de mim! Tão pressuroso
De amar! (E de deitar-se ao pé
De tuas alturas). Corpo acanhado de mula
Este de mim, mas tão festivo e doce
Neste Agora
Porque banhado de ti, ó FORMOSURA.
VI
Tu que me vês
Guarda de mim o olhar.
Guarda-me o flanco.
Há de custar tão pouco
Guardar o nada
E seus resíduos ocos.
Orelhas, ventas
O passo apressado sob o jugo
Casco, subidas
Isso é tudo de mim
Mas é tão pouco...
Tu que me vês
Guarda de mim, apenas
Minha demasiada coitadez.
VII
Que eu morra junto ao rio.
O caudaloso frescor das águas claras
Sobre o pelo e as chagas.
Que eu morra olhando os céus:
Mula que sou, esse impossível
Posso pedir a Deus. E entendendo nada
Como os homens da Terra
Como as mulas de Deus.
VIII
Palha
Trapos
Uma só vez o musgo das fontes
O indizível casqueando o nada
Essa sou eu.
Poeta e mula
(Aunque pueda parecer
Que del poeta es locura).
(Hilda Hilst, Estar sendo. Ter sido. São Paulo: Nankin, 1997)
Hilda Hilst
I
Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO
Alta, dourada, me pensei.
Não esta pardacim, o pelo fosco
Pois há de rir-se de mim O PRECIOSO.
Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO
Lavei com a língua os cascos
E as feridas. Sanguinolenta e viva
Esta do dorso
A cada dia se abre carmesim.
Se me vires, SENHOR, perdoa ainda.
É raro, em sendo mula, ter a chaga
E ao mesmo tempo
Aparência de limpa partitura
E perfume e frescor de terra arada.
II
Há nojosos olhares sobre mim.
Um rei que passa
E cidadãos do reino, príncipes do efêmero.
Agora é só de dor o flanco trêmulo.
Há nojosos olhares. Rústicos senhores.
Açoites, fardos, vozes, alvoroço.
E há em mim um sentir deleitoso
Um tempo onde fui ave, um outro
Onde fui tenra e haste.
Há alguém que foi luz e escureceu.
E dementado foi humano e cálido.
Há alguém que foi pai. E era meu.
III
Escrituras de pena (diria mais, de pelos)
De infinita tristura, encerrada em si mesma
Quem há de ouvir umas canções de mula?
Até das pedras lhes ouço a desventura.
Até dos porcos lhes ouço o cantochão.
E por que não de ti, poeta-mula?
E ornejos de outras mulas se juntaram aos meus.
Escoiceando os ares, espumando de gozo
Assustando mercado e mercadores
Alegrou-se de mim o coração.
IV
Um dia fui o asno de Apuléius.
Depois fui Lucius, Lucas, fui Roxana.
Fui mãe e meretriz e na Betânia
Toquei o intocado e vi Jeshua.
(Ele tocou-me o ombro aquele Jeshua pálido).
Um tempo fui ninguém: sussurro, hálito.
Alguém passou, diziam? Ninguém, ninguém.
Agora sou escombros de um alguém.
Só caminhada e estio. Carrego fardos
Aves, patos, esses que vão morrer.
Iguais a mim também.
V
Ditoso amor de mula, Te ouvi murmurando
Ó Amoroso! Ditoso amor de mim!
Poder amar a Ti com este corpo nojoso
Este de mim, pulsante de outras vidas
Mas tão triste e batido, tão crespo
De espessura e de feridas.
Ditoso amor de mim! Tão pressuroso
De amar! (E de deitar-se ao pé
De tuas alturas). Corpo acanhado de mula
Este de mim, mas tão festivo e doce
Neste Agora
Porque banhado de ti, ó FORMOSURA.
VI
Tu que me vês
Guarda de mim o olhar.
Guarda-me o flanco.
Há de custar tão pouco
Guardar o nada
E seus resíduos ocos.
Orelhas, ventas
O passo apressado sob o jugo
Casco, subidas
Isso é tudo de mim
Mas é tão pouco...
Tu que me vês
Guarda de mim, apenas
Minha demasiada coitadez.
VII
Que eu morra junto ao rio.
O caudaloso frescor das águas claras
Sobre o pelo e as chagas.
Que eu morra olhando os céus:
Mula que sou, esse impossível
Posso pedir a Deus. E entendendo nada
Como os homens da Terra
Como as mulas de Deus.
VIII
Palha
Trapos
Uma só vez o musgo das fontes
O indizível casqueando o nada
Essa sou eu.
Poeta e mula
(Aunque pueda parecer
Que del poeta es locura).
(Hilda Hilst, Estar sendo. Ter sido. São Paulo: Nankin, 1997)
4 de maio de 2011
nó
não gosto de tênis brancos, brincos grandes, grades nas janelas. de bolsas sem alças ou calças sem bolsos. ruas que não estão nos mapas, mapas sem relevo, praias com muito vento. gosto dos plurais, ali cabe isso e mais.
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