14 de julho de 2011

agulha e palheiro

entrei na loja.
alguém veio saber o que eu buscava. disse procuro aquela música. e cantarolei. ele disse você acha que vou saber? há cinco milhões de canções populares húngaras registradas. posso ver o que tem? ele apontou uma enorme estante onde quase uma centena de cds se exibiam.
comecei. um por um.
veio outro alguém e disse posso ajudar? repeti o que já tinha dito. ele pediu um minuto. passaram-se vários. não parei na minha busca. então, esse um me mostrou um poema. eu disse não, não. ele continuou sua expedição para dentro do tempo e dos sons. eu, nas listas. daí, ele disse: aqui. está aqui. e me mostrou. eram cinco versões. eu disse está bem, vou levar. não vai ouvir? deveria ouvir? pela certeza, disse. levantou os ombros e os abaixou.
no silêncio da loja ecoou a voz do avô seus dedos ásperos o cheiro da lenha do pão da sopa da paisagem na neve o cheiro de todas as antepassâncias que nunca soubemos e mesmo assim, dizem, trazemos em nós.
paguei e saí. o mundo era grande.
o homem que amo estava vivo. à minha espera. a me amar também.

12 de julho de 2011

uma colheita muito particular

em quintal, se se deixa, brota de tudo. nem tudo tem nome ou serventia aparente. umas coisas permanecem, outras murcham e nem fazem falta. outras instigam a curiosidade. fiquei curiosa com uma planta que crescia crescia crescia e nenhum sinal de ser de cheiro de chá de flor ou de fruta. nada. um dia, quando já moitava, num gesto bíblico eu disse ou diz a que veio ou te corto daqui a duas semanas. em duas semanas, continuava nada. meio decepcionada, meio com raiva, arranquei fora o pé de não se sabe o quê. virado do avesso para ir pro composto, lá num galho baixo, escondido entre as folhas, um botão de flor virando fruto. fiquei não sei dizer como. no mais fundo, fiquei triste. como sempre, exigi muito e não esperei ou não atentei pro tempo certo.
prometi pros ares que se houvesse outra planta igual, fosse onde fosse, teria todo o espaço para crescer. e eis. em outro canto, com mais sol, as mesmas folhas, sem cheiro sem chá sem flor sem fruto por uns meses esparramando-se onde antes havia outras coisas. deixei. promessa é aquilo. num ano deu meia duzia de pequenos tesouros. esperei na minha paciência incomum. este ano, a colheita se faz de pouco em pouco, sem nunca parar. pequenas gemas de certezas numa embalagem quase crepom.

8 de julho de 2011

então


quando o medo nos toma, toda a terra é estrangeira. toda língua nenhum significado.

5 de julho de 2011

frio


as palavras ficam um pouco quebradiças. é preciso aquecer vogais, colocar consoantes em banho-maria.

4 de julho de 2011

nos túneis




quando o trem sobrevoa a cidade tudo parece possível. pequenas coragens se aninham peitos. quando subterrâneos, tudo parede parede paredes, como se trouxesse cada um para dentro de si. intimidades. nenhuma coragem para o mundo.

1 de julho de 2011

mesmo que ninguém saiba por quê


joão capistrano não gostava dos turcos.
quando belgrado era nándorfehérvár, em 1456, joão convenceu um general húngaro a resistir aos otomanos. uma batalha esquecida decidia o destino do mundo. ocidental.
os húngaros evitaram que a europa fosse conquistada. por aquela vez.
e os sinos, por ordem de um papa ou outro, passaram a tocar ao meio dia. e tocam. toda vez. onde há igrejas. onde há sinos.

29 de junho de 2011

parece mágica


os pés atrás ele disse eu tive as mãos atadas?
talvez talvez na lua vazia o dia se preencha de pequenos nadas e tudo no nada avança.
o nada da seiva que move a lua nos corpos que não sangram. o ritmo do ciclo do silêncio e suas intermitências no sabor do nada a esgarçar veias.
um tango ele disse é lindo.

(inspirado em texto de remo pellegrini)

28 de junho de 2011

iminências


coincidência, noemi jaffe
sempre me perguntam como é possível saber quando um livro é bom. respondo que boa é a literatura que consegue criar uma coincidência única entre o que se diz e a forma como se diz o que está sendo dito. mas também, acho que boa é a literatura que contém algum tipo de risco. algo está sendo posto em cheque: a linguagem, o leitor, a existência, o que já se conhece. alguma coisa vai se perder - iminência de vazio ou de morte - e/ou alguma coisa vai se criar - iminência de nascimento. a literatura que não mora na iminência não tem me interessado muito mais.

valer la pena, juan yanes
En el borde, en el límite, en la frontera, en el riesgo, en la inseguridad, en la incertidumbre, en donde empiezan las cosas que no han sido dichas, los fenómenos que no tienen nombre, las formas que no han sido definidas, los objetos que todavía nadie ha nombrado. Sólo vale la pena vivir donde empieza el vértigo.

27 de junho de 2011

nos quintais

equilibra a juba e ajeita os passos nas tábuas sobre o abismo entre os sons e o dia de janelas abertas. nem sempre rugidos ou sangues. às vezes café pão manteiga e um filhote de gato se espreguiça manhã.

22 de junho de 2011

azul e seco

moro entre dois pontos:
mal cabem minhas digitais.
o inverno por aqui é florido e ninguém estranha.
as saúvas deixam as carambolas à mostra
nem assim os vizinhos vêm colher.

alguns carregam o mundo em si
de outros o mundo mesmo se encarrega.

21 de junho de 2011

sem foto

meu espectro viaja o mundo se permaneço
onde turistas de qualquer lugar
em máquinas de retratos fotografam meus pedaços.
tunísia índia paquistão
china hungria eslovenia
polônia itália russia japão
peru colombia argentina
alemanha inglaterra frança turquia
brasil
silêncio, silêncio, por favor.

20 de junho de 2011

si us plau


o por dentro era o avesso de todos os castelos de areia onde em fendas vazadas pequenos pedaços coloridos de vidros que para iemanjá se quebraram na praia.

17 de junho de 2011

as terras que piso


mergulho nos campos vermelhos do país que me habita.
não são flores?
algumas revoam como borboletas.

"e nesse momento ela sentiu o silêncio à sua volta toda. nos ombros, nas árvores, nas montanhas, no ar. aquele silêncio grave, branco, profundo, como uma grande bolha invísível, que se derrama redonda e pesada sobre o mundo, e o mundo imóvel, sem mesmo respirar".

(a bruxa de funtinelli, albert wass)

15 de junho de 2011

a mão direita do rei repousa


o que sou atravessa oceanos.
no escuro, nas profundezas, os peixes imitam planícies.
entre o túnel e a ponte os leões espreitam.
flores. o grande rio. o penhasco.
eu me insisto rastros e me encontro transitiva.
se a lagarta me perguntasse, não saberia dizer quem sou.
preciso me relembrar que nunca, nunca há para onde voltar.

14 de junho de 2011

magyar

perdi a noção da língua. tenho poucos pés e muitos lugares por pisar. a terra corre, vira. a paisagem me revira. espelha-me.
um lugar é um lugar. o lugar onde sou é o onde estou. se corro, se deito, se vôo: sempre eu desde o aqui na imensidão.
perder a noção da língua é mais abismo que perder o chão. e os muitos que foram expulsos de sua língua e mantiveram sua escrita, mantiveram a capacidade de escrever na língua que era sua e os excluía?
esses, todo dia habitam ilhas de línguas distando dias e mundos da língua mãe.
nessa língua ilha sonha-se, também, cria-se, ao tempo que tudo permanece isolado um vínculo perdido. a língua nascida ponte que não se constrói: volta-se para quem a mantém viva e mergulha e lentamente murmura a inuberância de si.
a língua cortada no fio do pensamento. a língua sem meada.
eu e o continente língua que crio escuridão.