21 de outubro de 2011
20 de outubro de 2011
pouco a pouco
"as cinzas foram acomodadas numa mini-canoa caiçara lançada ao mar em chamas, à maneira viking. flutuou bem e ficou queimando por mais de uma hora, sob uma chuvinha fina, adentrando no mar e na noite."
19 de outubro de 2011
conjugação imperfeita do verbo perder em seu futuro
eu perdi o pé, tu perdeste a mão, ele perdeu a vista.
nós perdemos o horizonte. de dentro.
nós perdemos o horizonte. de dentro.
18 de outubro de 2011
14 de outubro de 2011
13 de outubro de 2011
12 de outubro de 2011
11 de outubro de 2011
10 de outubro de 2011
6 de outubro de 2011
senhora pereira
colocou nosso nome num papel na fresta da pedra.
nada de um lamento: muitas bênçãos.
deus dos exércitos? não, não. outro.
o que no princípio era o verbo e é mãe de todos que estamos cansados.
nada de um lamento: muitas bênçãos.
deus dos exércitos? não, não. outro.
o que no princípio era o verbo e é mãe de todos que estamos cansados.
4 de outubro de 2011
no caminho, é...
"Lá vai São Francisco
Pelo caminho
De pé descalço
Tão pobrezinho
Dormindo à noite
Junto ao moinho
Bebendo a água
Do ribeirinho.
Lá vai São Francisco
De pé no chão
Levando nada
No seu surrão
Dizendo ao vento
Bom-dia, amigo
Dizendo ao fogo
Saúde, irmão.
Lá vai São Francisco
Pelo caminho
Levando ao colo
Jesuscristinho
Fazendo festa
No menininho
Contando histórias
Pros passarinhos."
(Vinícius de Moraes e Paulo Soledade)
Pelo caminho
De pé descalço
Tão pobrezinho
Dormindo à noite
Junto ao moinho
Bebendo a água
Do ribeirinho.
Lá vai São Francisco
De pé no chão
Levando nada
No seu surrão
Dizendo ao vento
Bom-dia, amigo
Dizendo ao fogo
Saúde, irmão.
Lá vai São Francisco
Pelo caminho
Levando ao colo
Jesuscristinho
Fazendo festa
No menininho
Contando histórias
Pros passarinhos."
(Vinícius de Moraes e Paulo Soledade)
3 de outubro de 2011
exercício número um
"o que deus precisa saber
deus precisa saber que eu conto com ele,
que preciso dele,
que confio nele,
que ele pode contar comigo,
que precisa de mim,
que pode confiar em mim,
que não importa para que lado as coisas caminhem,
ele não pode se comportar como um diretor de banco,
como um senhor ministro ou uma miss universo,
que não importa para que lado as coisas caminhem,
eu não posso me comportar como um diretor de banco,
como um senhor ministro ou uma miss universo,
que eu não espero dele que passe o aspirador em todo canto,
que sacuda o pó dos tapetes, que pratique natação
e deixe de fumar,
que ele não espere de mim que eu passe o aspirador em todo canto,
que eu sacuda o pó dos tapetes, que pratique natação
e deixe de fumar,
que ele leve em conta que não é só do bem que vêm as coisas boas
que não queira ser perfeito,
nem queira que o mundo seja perfeito,
que eu levo em conta que não é só do bem que vêm as coisas boas,
e não quero ser perfeito,
nem quero que o mundo seja perfeito,
mas que tudo tem limite,
que ele não acredite que eu o deixarei esquecer
que há coisas irremediáveis,
que tudo tem limite,
que eu não acredito que ele me deixe esquecer
que há coisas irremediáveis,
e afinal se ele é nada para ninguém, com certeza
se deve consigo mesmo
para mim,
e afinal se eu sou nada para ninguém, com certeza
eu me devo comigo mesmo
para ele."
(Peter Kántor)
deus precisa saber que eu conto com ele,
que preciso dele,
que confio nele,
que ele pode contar comigo,
que precisa de mim,
que pode confiar em mim,
que não importa para que lado as coisas caminhem,
ele não pode se comportar como um diretor de banco,
como um senhor ministro ou uma miss universo,
que não importa para que lado as coisas caminhem,
eu não posso me comportar como um diretor de banco,
como um senhor ministro ou uma miss universo,
que eu não espero dele que passe o aspirador em todo canto,
que sacuda o pó dos tapetes, que pratique natação
e deixe de fumar,
que ele não espere de mim que eu passe o aspirador em todo canto,
que eu sacuda o pó dos tapetes, que pratique natação
e deixe de fumar,
que ele leve em conta que não é só do bem que vêm as coisas boas
que não queira ser perfeito,
nem queira que o mundo seja perfeito,
que eu levo em conta que não é só do bem que vêm as coisas boas,
e não quero ser perfeito,
nem quero que o mundo seja perfeito,
mas que tudo tem limite,
que ele não acredite que eu o deixarei esquecer
que há coisas irremediáveis,
que tudo tem limite,
que eu não acredito que ele me deixe esquecer
que há coisas irremediáveis,
e afinal se ele é nada para ninguém, com certeza
se deve consigo mesmo
para mim,
e afinal se eu sou nada para ninguém, com certeza
eu me devo comigo mesmo
para ele."
(Peter Kántor)
28 de setembro de 2011
26 de setembro de 2011
mangas verdes
ele se virou para entender melhor quando ela disse que preferia não saber onde estavam os sapatos perdidos nem onde se pode comprar um bom azeite ou as opiniões das senhoras no mercado, que preferia nunca ter ouvido que houve um satélite a cair sobre o mundo, que preferiria esquecer o que disse nostradamus – era um livro na banca e há muitos anos ela pegou ao acaso para olhar e preferia não ter pego e não ter lido. uma vez quê, preferiria não se lembrar – e também não saber o que vai nas capas dos jornais e no recheio das salsichas. depois, bem depois, chorando ela gostaria de dizer que acompanhava cada movimento do vento no quintal e mesmo o quintal era um mundo muito grande para ela. por menor que seja o tamanho de quem morre, é a morte inteira que vem buscar. e a morte no mistério do nada e do tudo torna as coisas todas particularmente imensas e universalmente minúsculas, como nós.
23 de setembro de 2011
plural
"A condição poética
Como se tivesse em vez de olhos binóculos ao contrário, o mundo
se distancia e pessoas, árvores, ruas, tudo diminui, mas nada
nada perde a clareza, fica mais denso.
Já tive antes momentos assim, escrevendo poemas, conheço então
a distância, a contemplação desinteressada, sei assumir
um eu que é não-eu, mas agora é sempre assim e me pergunto
o que significa isso, se entrei numa permanente condição poética.
As coisas difíceis antes, agora são fáceis, mas não sinto desejo
forte de transmiti-las por escrito.
Só agora estou sadio, e era doente, porque o meu tempo
galopava e afligia-me o medo do que viria.
A cada momento o espetáculo do mundo é para mim de novo
surpreendente e tão cômico que não entendo como a literatura
podia querer dominá-la.
Sentindo fisicamente, ao alcance da mão, cada momento, amanso
o sofrimento e não suplico a Deus que queira afastá-lo de mim:
por que o afastaria de mim se não o afasta dos outros?
Sonhei que me encontrava numa estreita borda sobre o oceano
onde se viam nadando enormes peixes marítimos.
Tive medo que se olhasse, cairia. Virei, então,
agarrei-me nas asperezas da parede rochosa,
e movendo-me lentamente, de costas para o mar, cheguei
a um lugar seguro.
Eu era impaciente e irritava-me a perda de tempo com coisas triviais
incluindo entre elas a faxina e a preparação da comida. Agora
corto com cuidado a cebola, espremo os limões, preparo
vários tipos de molho."
(Czeslaw Milosz, tradução de Ana C. César e Grazyna Drabik)
Como se tivesse em vez de olhos binóculos ao contrário, o mundo
se distancia e pessoas, árvores, ruas, tudo diminui, mas nada
nada perde a clareza, fica mais denso.
Já tive antes momentos assim, escrevendo poemas, conheço então
a distância, a contemplação desinteressada, sei assumir
um eu que é não-eu, mas agora é sempre assim e me pergunto
o que significa isso, se entrei numa permanente condição poética.
As coisas difíceis antes, agora são fáceis, mas não sinto desejo
forte de transmiti-las por escrito.
Só agora estou sadio, e era doente, porque o meu tempo
galopava e afligia-me o medo do que viria.
A cada momento o espetáculo do mundo é para mim de novo
surpreendente e tão cômico que não entendo como a literatura
podia querer dominá-la.
Sentindo fisicamente, ao alcance da mão, cada momento, amanso
o sofrimento e não suplico a Deus que queira afastá-lo de mim:
por que o afastaria de mim se não o afasta dos outros?
Sonhei que me encontrava numa estreita borda sobre o oceano
onde se viam nadando enormes peixes marítimos.
Tive medo que se olhasse, cairia. Virei, então,
agarrei-me nas asperezas da parede rochosa,
e movendo-me lentamente, de costas para o mar, cheguei
a um lugar seguro.
Eu era impaciente e irritava-me a perda de tempo com coisas triviais
incluindo entre elas a faxina e a preparação da comida. Agora
corto com cuidado a cebola, espremo os limões, preparo
vários tipos de molho."
(Czeslaw Milosz, tradução de Ana C. César e Grazyna Drabik)
21 de setembro de 2011
singular
“Haverá talvez verdades que ficam além da linguagem e que podem ser de grande relevância para o homem no singular, isto é, para o homem que, seja o que for, não é um ser político. Mas os homens no plural, isto é, os homens que vivem e se movem e agem neste mundo, só podem experimentar o significado das coisas por poderem falar e ser inteligíveis entre si e consigo mesmos.”
(Hannah Arendt, A condição humana)
20 de setembro de 2011
em camadas
"são as mulheres que
fazem chorar as cebolas
como se descascassem a própria vida
e, arredondando-se então, descobrissem
um corpo, o seu
uma vida, a sua
e, no entanto, nada que de verdade
pudessem seu chamar
ou talvez sim, mas só
aquela gota de água salpicando
um canto do avental onde
desponta uma flor de pano colorida que
ainda ontem ali não ardia"
(Bénédicte Houart, daqui)
19 de setembro de 2011
onde estou
...
alice tirava o silêncio dos cantos da casa.
depois abria janelas. dizia está calor. está ouvindo os grilos?
aqui, é sempre calor, lili. sempre este insuportável calor. as cigarras. é de enlouquecer.
ela se levantava, afastava a cadeira, afagava o rosto do homem que amava e dizia venha vamos um pouco ali fora ver o céu. está todo estrelado.
não reconheço as constelações.
mas se deixava conduzir pela mão. olhavam o céu. sentiam o cheiro úmido de mato. ouviam os barulhos das casas vizinhas, os bichos nos quintais. uma brisa.
as cigarras que silenciavam.
***
juan yanes, em sua maquina de coser palabras, traduziu para o castelhano.
alice tirava o silêncio dos cantos da casa.
depois abria janelas. dizia está calor. está ouvindo os grilos?
aqui, é sempre calor, lili. sempre este insuportável calor. as cigarras. é de enlouquecer.
ela se levantava, afastava a cadeira, afagava o rosto do homem que amava e dizia venha vamos um pouco ali fora ver o céu. está todo estrelado.
não reconheço as constelações.
mas se deixava conduzir pela mão. olhavam o céu. sentiam o cheiro úmido de mato. ouviam os barulhos das casas vizinhas, os bichos nos quintais. uma brisa.
as cigarras que silenciavam.
***
donde estoy
alicia sacaba el silencio de las esquinas de la casa.
después abría ventanas. decía hace calor. ¿estas escuchando los grillos?
aqui, hace siempre calor, lili. siempre este insoportable calor. las cigarras. es como para enloquecer.
ella se levantaba, echaba para atrás la silla, acariciaba el rostro del hombre que amaba y decía, vamos a un poco a fuera a ver el cielo. está todo estrellado.
no reconozco las constelaciones.
pero se dejaba llevar de la mano. miraban el cielo. sentían el olor húmedo de la hierba. oían el barullo de las casas vecinas, los animales en los patios. una brisa.
las cigarras que se callaban.
alicia sacaba el silencio de las esquinas de la casa.
después abría ventanas. decía hace calor. ¿estas escuchando los grillos?
aqui, hace siempre calor, lili. siempre este insoportable calor. las cigarras. es como para enloquecer.
ella se levantaba, echaba para atrás la silla, acariciaba el rostro del hombre que amaba y decía, vamos a un poco a fuera a ver el cielo. está todo estrellado.
no reconozco las constelaciones.
pero se dejaba llevar de la mano. miraban el cielo. sentían el olor húmedo de la hierba. oían el barullo de las casas vecinas, los animales en los patios. una brisa.
las cigarras que se callaban.
juan yanes, em sua maquina de coser palabras, traduziu para o castelhano.
14 de setembro de 2011
os faróis daqui não sinalizam ilhas nem silêncios
tenho a vista curta. e eu disse isso a ela. o céu desabava na cidade, não enxergo um palmo, veja. depois disso, havia guarda-chuvas de toda cor. a cidade profusão.
não entendo a língua também eu disse. meus ouvidos moucos e a cidade enlouquecida em sílabas tremas consoantes de anúncios incompreensíveis.
se a banda passasse eu nem saberia. que banda? ela perguntou.
sinto muito ou nem sinto nada não disse porque disso não saberia dizer a ela: a ponte entre o dentro e o fora perdi no último dos poemas que escrevi sentada à espera no metrô.
e porque ela não perguntou, não pude dizer do gosto que a cidade me deixa na boca – sabendo a açúcar e metal – as coisas que a ferrugem devora.
também não disse que há redomas. e então sou capaz de me mexer e estender a mão. verto sobre o mundo aquilo que não sou.
poderia ter dito sonhos sem nexo. o medo que tenho do mar no escuro.
não poderia, a cidade revirada em terremotos.
este momento.
selei.
e não há correios.
não entendo a língua também eu disse. meus ouvidos moucos e a cidade enlouquecida em sílabas tremas consoantes de anúncios incompreensíveis.
se a banda passasse eu nem saberia. que banda? ela perguntou.
sinto muito ou nem sinto nada não disse porque disso não saberia dizer a ela: a ponte entre o dentro e o fora perdi no último dos poemas que escrevi sentada à espera no metrô.
e porque ela não perguntou, não pude dizer do gosto que a cidade me deixa na boca – sabendo a açúcar e metal – as coisas que a ferrugem devora.
também não disse que há redomas. e então sou capaz de me mexer e estender a mão. verto sobre o mundo aquilo que não sou.
poderia ter dito sonhos sem nexo. o medo que tenho do mar no escuro.
não poderia, a cidade revirada em terremotos.
este momento.
selei.
e não há correios.
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