22 de novembro de 2011

ao pote

a palavra um poço, um fosso, uma planta. a palavra uma construção. o que tem que ser. palavras que sobram não florescem não constroem nem protegem. palavras que sobram, nem água. em volta da palavra exata frase, todas as outras minas terrestres, armadilhas, muros, cercas, sustos. não me aproximo. desarmo, derrubo, destruo. gasto energia para chegar e quando chego palavra nenhuma posso. tanta palavra e eu a morrer de sede.

11 de novembro de 2011

faixa

listras no chão e um semáforo entre a minha casa e a estação reduziram o volume de adrenalina que meu corpo produzia a cada ida a toda volta.

10 de novembro de 2011

do outro lado do atlântico

Andar a pé (publicado aqui)

Para as crianças dos pobres, a estrada é no Verão como um quarto de recreio. (...) Malditos sejam os automóveis sibilantes que frios e pérfidos avançam para os jogos das crianças, para o paraíso da infância, e chegam a pôr estes pequenos seres inocentes em perigo de ser esmagados. A ideia tremenda de que uma criança possa de facto ser atropelada por um desses triunfantes monstros mecânicos, quero afastá-la completamente, pois doutro modo a indignação levar-me-ia a declarações rudes, as quais, como é sabido, não levam a grandes resultados.
Às pessoas que passam num automóvel sibilante, lançando nuvens de poeira, mostro sempre um semblante carregado e duro e elas não merecem, realmente, mais. Pensam então que sou um controlador ou polícia civil, encarregue por altas entidades e autoridades de vigiar o trânsito e de registar as matrículas dos veículos para depois fazer uma denúncia. Mas o meu olhar sombrio recai sobre os veículos, sobre o conjunto, e não sobre os ocupantes, que só desprezo por uma questão de princípio e não por razões pessoais. Pois não entendo nem nunca entenderei que se considere um prazer passar acelerando por todas as formas e objectos que o nosso belo planeta exibe, como se um ataque de loucura nos obrigasse a fugir para evitar cair num terrível desespero. De facto, amo a tranquilidade e o repouso. Amo a parcimónia e a moderação e sinto a mais profunda aversão pela pressa e pela precipitação. E não é preciso acrescentar mais nada à pura verdade. Não é por causa destas declarações que deixará de haver automóveis em circulação nem o correspondente mau cheiro que polui a atmosfera e que, seguramente, ninguém aprecia e defende. Seria mesmo antinatural que algum nariz inspirasse com gosto e satisfação aquilo que para qualquer nariz humano normal, mesmo atendendo às mudanças de humor, só pode ser revoltante e nauseabundo. Mas deixemos o assunto por aqui e continuemos com o passeio. Que prazer celestial, benéfico, ancestral e simples o andar a pé, desde que os sapatos e as botas estejam em bom estado!

Robert Walser, O Passeio (1917). Tradução de Fernanda Gil Costa.

5 de novembro de 2011

stoskopf


na pressa, disse ao peixeiro deixa que eu limpo. ao abrir o peixe abriu-se em mim o mais antigo livro ilustrado de anatomia animal. há tanto só supermercados em bandejas pedaços higienizados filmes plásticos brancos.
vísceras. também eu oculto.
um dos segredos da poesia é parecer ao outro que são suas as tripas que são minhas.

2 de novembro de 2011

cinquenta e seis

num dia vinte e três de outubro milhares de pessoas derrubaram uma estátua de seis toneladas. as estátuas – todos sabemos – não nos fazem mal. as ditaduras nos lembram que o percurso vale tanto ou mais que a chegada. o tempo passa, dou um laço que junta o fim ao começo. cinqüenta e cinco é um sopro. por dentro do sopro a vela em sua chama. a parafina fina cera de abelha um dia guardou mel. a flor vem da raiz. a raiz persiste. algumas, como algumas cigarras, adormecem quase décadas.

1 de novembro de 2011

como proceder ao encontrar animais feridos

primavera gelada e vento. olho pela janela e nada vejo. minha garganta rouca, os músculos imóveis. primavera céu azul e espero. espero. silenciosa. outubro quase sempre assim. nada posso. não estou triste. o ciclo vida morte vida de cada manhã. os filhos. somos sete bilhões e um espanto. há um cacho novo na bananeira. aos poucos me adaptei às saúvas. trocamos uns móveis de lugar. escrevo uma palavra por dia e parece demais.

20 de outubro de 2011

pouco a pouco

"as cinzas foram acomodadas numa mini-canoa caiçara lançada ao mar em chamas, à maneira viking. flutuou bem e ficou queimando por mais de uma hora, sob uma chuvinha fina, adentrando no mar e na noite."

19 de outubro de 2011

6 de outubro de 2011

senhora pereira

colocou nosso nome num papel na fresta da pedra.
nada de um lamento: muitas bênçãos.
deus dos exércitos? não, não. outro.
o que no princípio era o verbo e é mãe de todos que estamos cansados.

4 de outubro de 2011

no caminho, é...

"Lá vai São Francisco
Pelo caminho
De pé descalço
Tão pobrezinho
Dormindo à noite
Junto ao moinho
Bebendo a água
Do ribeirinho.

Lá vai São Francisco
De pé no chão
Levando nada
No seu surrão
Dizendo ao vento
Bom-dia, amigo
Dizendo ao fogo
Saúde, irmão.

Lá vai São Francisco
Pelo caminho
Levando ao colo
Jesuscristinho
Fazendo festa
No menininho
Contando histórias
Pros passarinhos."

(Vinícius de Moraes e Paulo Soledade)

3 de outubro de 2011

um belo horizonte

exercício número um

"o que deus precisa saber

deus precisa saber que eu conto com ele,
que preciso dele,
que confio nele,

que ele pode contar comigo,
que precisa de mim,
que pode confiar em mim,

que não importa para que lado as coisas caminhem,
ele não pode se comportar como um diretor de banco,
como um senhor ministro ou uma miss universo,

que não importa para que lado as coisas caminhem,
eu não posso me comportar como um diretor de banco,
como um senhor ministro ou uma miss universo,

que eu não espero dele que passe o aspirador em todo canto,
que sacuda o pó dos tapetes, que pratique natação
e deixe de fumar,

que ele não espere de mim que eu passe o aspirador em todo canto,
que eu sacuda o pó dos tapetes, que pratique natação
e deixe de fumar,

que ele leve em conta que não é só do bem que vêm as coisas boas
que não queira ser perfeito,
nem queira que o mundo seja perfeito,

que eu levo em conta que não é só do bem que vêm as coisas boas,
e não quero ser perfeito,
nem quero que o mundo seja perfeito,

mas que tudo tem limite,
que ele não acredite que eu o deixarei esquecer
que há coisas irremediáveis,

que tudo tem limite,
que eu não acredito que ele me deixe esquecer
que há coisas irremediáveis,

e afinal se ele é nada para ninguém, com certeza
se deve consigo mesmo
para mim,

e afinal se eu sou nada para ninguém, com certeza
eu me devo comigo mesmo
para ele."

(Peter Kántor)