21 de junho de 2012
19 de junho de 2012
ötzi
nos alto dos alpes, nas montanhas de neve entre a áustria e
a itália, um homem de quase quarenta e cinco anos, olhos castanhos, cabelos
compridos, de mais ou menos 50 quilos e 1,60 de altura, foi flechado pelas
costas, caiu de cara no chão, morto.
antes de morrer, tinha comido cereais, folhas, carne. em seu
estômago também havia pólen e sementes. vestia roupas de couro de cabra, tinha
um gorro de pele de urso. seu machado, sua faca de pedra, sua agulha de
costuras, fios feitos de tendões de bichos, sua mochila ficaram caídos por ali,
largados à sua volta. ninguém levou sua machadinha.
a neve cobriu o corpo.
enquanto a neve o guardava, pirâmides foram erguidas e
impérios. a areia velou a vida de civilizações inteiras. vieram o ferro as
embarcações as guerras os aviões o silício e seu vale. vieram os gregos e se foram depois os romanos que por sua vez. civilizações
maias incas astecas. espanhóis a dar a volta ao mundo. houve hunos e mongóis. houve alexandres e
henriques. napoleões, hitleres. e tantos e inúmeros pequenos e grandes déspotas
como cada um de nós nascemos e morremos. houve gutemberg a inquisição as
certezas. o tempo. a pisada na lua. a terra azul e redonda. o sonho de viajar no
tempo. o tempo. a cobrir o corpo do homem. morto por uma flecha disparada a 30 metros de distância no
silêncio da neve. nas montanhas.
ninguém soube me dizer se ele tinha um cachorro.
ele bem que poderia ter deixado um bilhete.
ele bem que poderia ter deixado um bilhete.
14 de junho de 2012
12 de junho de 2012
e não me movo
durante muito tempo, do outro lado do vidro, observamos o dragão de komodo. seus olhos tristes, como se dentro houvesse um homem que não consegue sair. os pés são mãos invertidas. a pele é casca de jaca. depois, como a imobilidade seguisse, fomos observar ninhos de flamingos.
construções altas de terra, quase cupinzeiros. ovos. as flamingas a chocar. filhotes de flamingo são feios. e cinzas e desengonçados. e também ficam muito tempo parados.
talvez o homem que habita o dragão saia nas madrugadas para brincar com os pequenos flamingos que alguma vez serão rosa e sonharão voltar para cuba.
no dia seguinte eu tinha lágrimas por todos os lados. quando
o mapa me levou para uma cidade equivocada e distante. quando no ombro da
menina a tatuagem de uma criança nascida e já morrida. quando no vagão o
violino e as danças húngaras.
na madrugada, meu filho me acordou chorando: tenho medo,
eram muitos dragões.
8 de junho de 2012
khamsin
naquela noite, uma palavra me pegou pela mão como o vento que faz naufragar cidades inteiras na areia.
mesmo que eu conseguisse contar tudo o que vejo e conseguisse prender os sentimentos ao texto como se prende um brinco nas orelhas, como se põe um anel no dedo, como a música no metrô se prende na pele da gente, a não ser que você também o tivesse experimentado não saberia o que é este estar como que pisando ilhas no ar. nada de águas. nada de terra além do minúsculo chão que piso agora.
agora.
agora.
outro agora.
depois, nada.
outra vez chão.
e nada.
ou o vento. pisar o vento.
agora.
agora.
outro agora.
depois, nada.
outra vez chão.
e nada.
ou o vento. pisar o vento.
7 de junho de 2012
4 de junho de 2012
vinho
somniar ser vi.
sentir-se raïm madur.
i veure atansar-se el veremador,
per fi.
(soñar ser vino.
sentirse uva madura.
y ver acercarse el vendimiador,
por fin.)
manuel forcano - llei d´estrangeria
original em catalão
sentir-se raïm madur.
i veure atansar-se el veremador,
per fi.
(soñar ser vino.
sentirse uva madura.
y ver acercarse el vendimiador,
por fin.)
manuel forcano - llei d´estrangeria
original em catalão
1 de junho de 2012
palau de la musica
imergir num labirinto fulgurante de palavras era aquela noite ao ouvir a sonoridade das línguas mais estranhas do mundo sob a
luz dos vitrais dos cristais das pequenas lanternas azuis e depois pelas ruas estreitas e escuras meia noite na velha cidade seguir quase sozinha na direção das largas avenidas de um mar que eu não sabia onde embora fosse sal, sim,
a maresia que se condensava nos meus olhos em busca de saída tateando as
letras desconhecidas e as calçadas.
24 de maio de 2012
23 de maio de 2012
e vejo alguém passar de relance
tenho dentes amarelos de fumante que nunca fui e o fígado
inchado.há alguém em mim que fuma e bebe? um outro me
habita e não sei? ninguém. me diz.
ando pelos jardins de luxemburgo e volto a ter seis anos e
volto a gostar de paisagens pintadas com pétalas intensas, laranjas mais que
maduras entre folhagens.
estou à deriva. sempre. sempre. sempre.
dedos sujos de nicotina, a dentadura postiça. pernas que não
se firmam imensas colunas me desabam. poderia escrever cartas, muitas cartas. melhor assim.
quando finalmente for à índia o primeiro item da lista será
a bagagem.e todo o resto se completaria.
nos caminhos do parque há pedrinhas minúsculas.já não entram nos sapatos. eu descalço.
22 de maio de 2012
21 de maio de 2012
há flores nos ramos
considerar a vida um momento transitório
entre o nada e o eterno
traz o risco de não nos permitirmos
cultivar qualquer planta
criar qualquer bicho.
depois do nada anterior e antes do nada eterno
traz o risco de não nos permitirmos
cultivar alguma planta
criar algum bicho.
traz todos os riscos.
entre o nada e o eterno
traz o risco de não nos permitirmos
cultivar qualquer planta
criar qualquer bicho.
considerar a vida um instante mágico
depois do nada anterior e antes do nada eterno
traz o risco de não nos permitirmos
cultivar alguma planta
criar algum bicho.
considerar a vida
traz todos os riscos.
todo o extático.
16 de maio de 2012
14 de maio de 2012
a contemplar o avesso
a poesia assusta. o que seria ponte entre uma vida e outra vira uma cerca de arame e farpas, um fosso. o medo da frase quebrada em verso quebra o ritmo que o poeta queria construído.
a lagarta de alice diz não gosto de poesia. mas lê paris e gosta, sim, claro que gosta da poesia que está ali, aqui.
fui a uma noite de poesia. entre vitrais e escadarias, uma pequena multidão. também tenho medo de poetas. destes que levitam e cujo poema de três linhas necessita um livro de mil páginas para então ser entendido e ecoar.
na língua que aos poucos me amanhece, eu pensava zebras. gnus. manadas.
às vezes uma gazela, um elefante se largam e se entregam ao predador para que o coletivo prossiga correndo correndo correndo, acreditando-se liberto a atravessar planícies em ruído.
o humano gregário: também um se entrega. ao pensamento da morte, do medo, do intenso da alegria. se entrega à solidão. ao amor. ao espanto. ao grito.
sem o farpado do arame, eu paro. a ler o que devora o um que se deixou desproteger.
a lagarta de alice diz não gosto de poesia. mas lê paris e gosta, sim, claro que gosta da poesia que está ali, aqui.
fui a uma noite de poesia. entre vitrais e escadarias, uma pequena multidão. também tenho medo de poetas. destes que levitam e cujo poema de três linhas necessita um livro de mil páginas para então ser entendido e ecoar.
na língua que aos poucos me amanhece, eu pensava zebras. gnus. manadas.
às vezes uma gazela, um elefante se largam e se entregam ao predador para que o coletivo prossiga correndo correndo correndo, acreditando-se liberto a atravessar planícies em ruído.
o humano gregário: também um se entrega. ao pensamento da morte, do medo, do intenso da alegria. se entrega à solidão. ao amor. ao espanto. ao grito.
sem o farpado do arame, eu paro. a ler o que devora o um que se deixou desproteger.
4 de maio de 2012
3 de maio de 2012
27 de abril de 2012
24 de abril de 2012
20 de abril de 2012
andarei vestido com as armas de jorge
na capadócia, um dragão atacava um reino. o medo deu ao dragão dois cordeiros a cada dia. assim, sem fome, talvez nem atacasse a vila. quando já se acabavam os animais, um deles passou a ser substituído por um alguém: sorteio. a família enlutada ficava rica. o povo se cansou de nunca ninguém da família real ir até o dragão. há também quem diga que a princesa, puro azar. e ela foi. quando já quase na cova do dragão, eis que jorge e seu cavalo e sua lança. jorge matou o dragão e resgatou a princesa. do sangue uma rosa vermelha, rosas. que jorge entregou à moça.
a riqueza que o rei ofereceu o cavaleiro distribuiu entre todos. todos. sem sorteio.
a riqueza que o rei ofereceu o cavaleiro distribuiu entre todos. todos. sem sorteio.
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