9 de julho de 2012

habla que baila


"La fuente de la poesia es el habla, la misma de la prosa. El habla es temporal y sucesiva: cada frase se desarrolla en el tiempo y en cada frase las palabras van una detrás de otra. Por ser tiempo, el habla es rítmica o, más bien, tiende espontaneamente a ser ritmo. De ahí que las fronteras entre la prosa y el metro sean cambiantes, imprecisas: el ritmo que las dibuja, a veces también las borra. Si el verso en ocasiones se desmorona y regresa a la prosa, en otras la prosa se levanta y baila como si fuera verso". 

(octavio paz)

6 de julho de 2012

pouco a pouco


enquanto virava as páginas eu dizia são as cebolas. as lágrimas molhavam a ponta do meu pé sem meias. se meu cabelo nascer sem cachinhos eu compro bobes eu faço papelote eu uso uma peruca de fios longos lisos e vermelhos. e o seu riso eu dizia. preparei  as crianças para esta corrida contra o tempo reuni as amigas dividi o fardo e o peso. eu digo: você. e são tantas. somos tantas nenhuma a querer carregar bandeira todas a sonhar o arado o plantar lado a lado. amassar o pão assar. e no entanto. a página não se vira sozinha eu diria. enxugo a lágrima. 
o fio da faca no coração da cebola.

5 de julho de 2012

etc

abri a caixa e era escuro dentro.
quando ele chegou eu disse veio uma caixa e está vazia.
ele perguntou se era leve eu disse nem pesada. e mostrei a caixa até um fundo vazio e já nem escuro era o que vazia dentro.
ele disse não está vazia. veja.
olhei de novo e vi que no fundo da caixa brotava um túnel de terra e no fim do túnel uma paisagem de mar. aos meus pés, um precipício.
quis dar um nome para aquilo aquele abismo.
palavra não nomina abismo.
a palavra é.

4 de julho de 2012

orides ao avesso



o poema mais ou menos diz quando se sentir cansado e entediado, imagine-se estrangeiro. a não reconhecer a língua, a estranhar a comida e também as roupas, os jeitos de andar, as placas de rua.
nesse momento estou o contrário do poema. evito os tecidos para focar peles e braços onde somos tão iguais nas palavras procuro sons que reconheço nas placas decifro sinais. faço em roma como os romenos sem abrir a boca. disfarço a alegria ao ver um bando de andorinhas.

19 de junho de 2012

ötzi


nos alto dos alpes, nas montanhas de neve entre a áustria e a itália, um homem de quase quarenta e cinco anos, olhos castanhos, cabelos compridos, de mais ou menos 50 quilos e 1,60 de altura, foi flechado pelas costas, caiu de cara no chão, morto.
antes de morrer, tinha comido cereais, folhas, carne. em seu estômago também havia pólen e sementes. vestia roupas de couro de cabra, tinha um gorro de pele de urso. seu machado, sua faca de pedra, sua agulha de costuras, fios feitos de tendões de bichos, sua mochila ficaram caídos por ali, largados à sua volta. ninguém levou sua machadinha.
a neve cobriu o corpo.
enquanto a neve o guardava, pirâmides foram erguidas e impérios. a areia velou a vida de civilizações inteiras. vieram o ferro as embarcações as guerras os aviões o silício e seu vale. vieram os gregos e se foram depois os romanos que por sua vez. civilizações maias incas astecas. espanhóis a dar a volta ao mundo. houve hunos e mongóis. houve alexandres e henriques. napoleões, hitleres. e tantos e inúmeros pequenos e grandes déspotas como cada um de nós nascemos e morremos. houve gutemberg a inquisição as certezas. o tempo. a pisada na lua. a terra azul e redonda. o sonho de viajar no tempo. o tempo. a cobrir o corpo do homem. morto por uma flecha disparada a 30 metros de distância no silêncio da neve. nas montanhas.
ninguém soube me dizer se ele tinha um cachorro.
ele bem que poderia ter deixado um bilhete.

12 de junho de 2012

e não me movo




durante muito tempo, do outro lado do vidro, observamos o dragão de komodo. seus olhos tristes, como se dentro houvesse um homem que não consegue sair. os pés são mãos invertidas. a pele é casca de jaca. depois, como a imobilidade seguisse, fomos observar ninhos de flamingos.
construções altas de terra, quase cupinzeiros. ovos. as flamingas a chocar. filhotes de flamingo são feios. e cinzas e desengonçados. e também ficam muito tempo parados.
talvez o homem que habita o dragão saia nas madrugadas para brincar com os pequenos flamingos que alguma vez serão rosa e sonharão voltar para cuba.
no dia seguinte eu tinha lágrimas por todos os lados. quando o mapa me levou para uma cidade equivocada e distante. quando no ombro da menina a tatuagem de uma criança nascida e já morrida. quando no vagão o violino e as danças húngaras.  
na madrugada, meu filho me acordou chorando: tenho medo, eram muitos dragões.


8 de junho de 2012

khamsin

naquela noite, uma palavra me pegou pela mão como o vento que faz naufragar cidades inteiras na areia. mesmo que eu conseguisse contar tudo o que vejo e conseguisse prender os sentimentos ao texto como se prende um brinco nas orelhas, como se põe um anel no dedo, como a música no metrô se prende na pele da gente, a não ser que você também o tivesse experimentado não saberia o que é este estar como que pisando ilhas no ar. nada de águas. nada de terra além do minúsculo chão que piso agora.
agora.
agora.
outro agora.
depois, nada.
outra vez chão.
e nada.
ou o vento. pisar o vento.

4 de junho de 2012

vinho

somniar ser vi.
sentir-se raïm madur.

i veure atansar-se el veremador,
per fi.


(soñar ser vino.
sentirse uva madura.

 
y ver acercarse el vendimiador,
por fin.)


manuel forcano - llei d´estrangeria
original em catalão  

1 de junho de 2012

palau de la musica




imergir num labirinto fulgurante de palavras era aquela noite ao ouvir a sonoridade das línguas mais estranhas do mundo sob a luz dos vitrais dos cristais das pequenas lanternas azuis e depois pelas ruas estreitas e escuras meia noite na velha cidade seguir quase sozinha na direção das largas avenidas de um mar que eu não sabia onde embora fosse sal, sim, a maresia que se condensava nos meus olhos em busca de saída tateando as letras desconhecidas e as calçadas.

23 de maio de 2012

e vejo alguém passar de relance


tenho dentes amarelos de fumante que nunca fui e o fígado inchado.há alguém em mim que fuma e bebe? um outro me habita e não sei? ninguém. me diz.
ando pelos jardins de luxemburgo e volto a ter seis anos e volto a gostar de paisagens pintadas com pétalas intensas, laranjas mais que maduras entre folhagens.
estou à deriva. sempre. sempre. sempre.
dedos sujos de nicotina, a dentadura postiça. pernas que não se firmam imensas colunas me desabam. poderia escrever cartas, muitas cartas. melhor assim.
quando finalmente for à índia o primeiro item da lista será a bagagem.e todo o resto se completaria.
nos caminhos do parque há pedrinhas minúsculas.já não entram nos sapatos. eu descalço.

21 de maio de 2012

há flores nos ramos

considerar a vida um momento transitório
entre o nada e o eterno
traz o risco de não nos permitirmos
cultivar qualquer planta
criar qualquer bicho.
considerar a vida um instante mágico
depois do nada anterior e antes do nada eterno
traz o risco de não nos permitirmos
cultivar alguma planta
criar algum bicho.
considerar a vida
traz todos os riscos.
todo o extático.

16 de maio de 2012

ser estéril, ¡y con tantas sensaciones! perpetua poesía sin palabras.
(emil cioran, traducido por esther seligson)

14 de maio de 2012

a contemplar o avesso

a poesia assusta. o que seria ponte entre uma vida e outra vira uma cerca de arame e farpas, um fosso. o medo da frase quebrada em verso quebra o ritmo que o poeta queria construído.
a lagarta de alice diz não gosto de poesia. mas lê paris e gosta, sim, claro que gosta da poesia que está ali, aqui.
fui a uma noite de poesia. entre vitrais e escadarias, uma pequena multidão. também tenho medo de poetas. destes que levitam e cujo poema de três linhas necessita um livro de mil páginas para então ser entendido e ecoar.
na língua que aos poucos me amanhece, eu pensava zebras. gnus. manadas.
às vezes uma gazela, um elefante se largam e se entregam ao predador para que o coletivo prossiga correndo correndo correndo, acreditando-se liberto a atravessar planícies em ruído.
o humano gregário: também um se entrega. ao pensamento da morte, do medo, do intenso da alegria. se entrega à solidão. ao amor. ao espanto. ao grito.
sem o farpado do arame, eu paro. a ler o que devora o um que se deixou desproteger.