nos alto dos alpes, nas montanhas de neve entre a áustria e
a itália, um homem de quase quarenta e cinco anos, olhos castanhos, cabelos
compridos, de mais ou menos 50 quilos e 1,60 de altura, foi flechado pelas
costas, caiu de cara no chão, morto.
antes de morrer, tinha comido cereais, folhas, carne. em seu
estômago também havia pólen e sementes. vestia roupas de couro de cabra, tinha
um gorro de pele de urso. seu machado, sua faca de pedra, sua agulha de
costuras, fios feitos de tendões de bichos, sua mochila ficaram caídos por ali,
largados à sua volta. ninguém levou sua machadinha.
a neve cobriu o corpo.
enquanto a neve o guardava, pirâmides foram erguidas e
impérios. a areia velou a vida de civilizações inteiras. vieram o ferro as
embarcações as guerras os aviões o silício e seu vale. vieram os gregos e se foram depois os romanos que por sua vez. civilizações
maias incas astecas. espanhóis a dar a volta ao mundo. houve hunos e mongóis. houve alexandres e
henriques. napoleões, hitleres. e tantos e inúmeros pequenos e grandes déspotas
como cada um de nós nascemos e morremos. houve gutemberg a inquisição as
certezas. o tempo. a pisada na lua. a terra azul e redonda. o sonho de viajar no
tempo. o tempo. a cobrir o corpo do homem. morto por uma flecha disparada a 30 metros de distância no
silêncio da neve. nas montanhas.
ninguém soube me dizer se ele tinha um cachorro.
ele bem que poderia ter deixado um bilhete.