28 de julho de 2012
21 de julho de 2012
têmpera
viu o tronco áspero e nele plantou dois meninos. que fotografou.
depois desvelou um lobo numa praia, uma barriga de baleia na
beira de um barco, umas flores de monet em seu jardim.
saiu de madrugada levando consigo o que tinha trazido.
uma chave esquecida no vento de galápagos.
e um pouco mais.
trrriiiimmm!
(foto: sandra pereira)
uma chave esquecida no vento de galápagos.
e um pouco mais.
trrriiiimmm!
(foto: sandra pereira)
13 de julho de 2012
tudo isso antes...
eu disse "a" e o mundo me entregou alfabetos em todas as línguas entregou mensagens em forma de enigmas e uns hieróglifos rascunhados numa tampa de refrigerante. fiquei quieta um tempo, a reorganizar palavras. num silêncio um mundo se compreende.
"els anys no paseu debades, ni les pluges, ni els silencis" (miquel marti i pol)
"els anys no paseu debades, ni les pluges, ni els silencis" (miquel marti i pol)
11 de julho de 2012
nó na madeira
"Mas até hoje escrever me dá muito trabalho. É como se alguém me pedisse
pra fazer uma cadeira, objeto simples, diário, necessário. Mas eu não
sou carpinteiro."
(mari somdipincel, daqui)
(mari somdipincel, daqui)
10 de julho de 2012
disposição da palavra
"E
o que não faz sentido é nossa incapacidade de perceber e acompanhar o
sentido de uma frase longa e bem lastrada. Isso compele. E nos leva
adiante. E talvez seja uma maneira de lembrar - numa feição análoga,
aliás, aos planos-sequências de Bela Tarr - que a frase curta é apenas
um dos veículos da elegância e da concisão. E que essa mesma concisão e
essa idêntica elegância podem ser atingidas por frases que parecem não
ter fim. Quer dizer, não é o tamanho da frase o que determina a concisão
e a elegância. Mas o ritmo dela. Seu modo de dispor-se. Sua disposição."
(Ruy Vasconcelos daqui)
9 de julho de 2012
habla que baila
"La fuente de la poesia es el habla, la misma de la prosa. El
habla es temporal y sucesiva: cada frase se desarrolla en el tiempo y en cada
frase las palabras van una detrás de otra. Por ser tiempo, el habla es rítmica
o, más bien, tiende espontaneamente a ser ritmo. De ahí que las fronteras entre
la prosa y el metro sean cambiantes, imprecisas: el ritmo que las dibuja, a
veces también las borra. Si el verso en ocasiones se desmorona y regresa a la
prosa, en otras la prosa se levanta y baila como si fuera verso".
(octavio paz)
6 de julho de 2012
pouco a pouco
enquanto virava as páginas eu dizia são as cebolas. as
lágrimas molhavam a ponta do meu pé sem meias. se meu cabelo nascer sem
cachinhos eu compro bobes eu faço papelote eu uso uma peruca de fios longos lisos e vermelhos.
e o seu riso eu dizia. preparei as
crianças para esta corrida contra o tempo reuni as amigas dividi o fardo e o
peso. eu digo: você. e são tantas. somos tantas nenhuma a querer carregar
bandeira todas a sonhar o arado o plantar lado a lado. amassar o pão assar. e
no entanto. a página não se vira sozinha eu diria. enxugo a lágrima.
o fio da faca no coração da cebola.
5 de julho de 2012
etc
abri a caixa e era escuro dentro.
quando ele chegou eu disse veio uma caixa e está vazia.
ele perguntou se era leve eu disse nem pesada. e mostrei a caixa até um fundo vazio e já nem escuro era o que vazia dentro.
ele disse não está vazia. veja.
olhei de novo e vi que no fundo da caixa brotava um túnel de terra e no fim do túnel uma paisagem de mar. aos meus pés, um precipício.
quis dar um nome para aquilo aquele abismo.
palavra não nomina abismo.
a palavra é.
quando ele chegou eu disse veio uma caixa e está vazia.
ele perguntou se era leve eu disse nem pesada. e mostrei a caixa até um fundo vazio e já nem escuro era o que vazia dentro.
ele disse não está vazia. veja.
olhei de novo e vi que no fundo da caixa brotava um túnel de terra e no fim do túnel uma paisagem de mar. aos meus pés, um precipício.
quis dar um nome para aquilo aquele abismo.
palavra não nomina abismo.
a palavra é.
4 de julho de 2012
orides ao avesso
o poema mais ou menos diz quando se sentir cansado e entediado, imagine-se estrangeiro. a não reconhecer a língua, a estranhar a comida e também as roupas, os jeitos de andar, as placas de rua.
nesse momento estou o contrário do poema. evito os tecidos para focar peles e braços onde somos tão iguais nas palavras procuro sons que reconheço nas placas decifro sinais. faço em roma como os romenos sem abrir a boca. disfarço a alegria ao ver um bando de andorinhas.
21 de junho de 2012
19 de junho de 2012
ötzi
nos alto dos alpes, nas montanhas de neve entre a áustria e
a itália, um homem de quase quarenta e cinco anos, olhos castanhos, cabelos
compridos, de mais ou menos 50 quilos e 1,60 de altura, foi flechado pelas
costas, caiu de cara no chão, morto.
antes de morrer, tinha comido cereais, folhas, carne. em seu
estômago também havia pólen e sementes. vestia roupas de couro de cabra, tinha
um gorro de pele de urso. seu machado, sua faca de pedra, sua agulha de
costuras, fios feitos de tendões de bichos, sua mochila ficaram caídos por ali,
largados à sua volta. ninguém levou sua machadinha.
a neve cobriu o corpo.
enquanto a neve o guardava, pirâmides foram erguidas e
impérios. a areia velou a vida de civilizações inteiras. vieram o ferro as
embarcações as guerras os aviões o silício e seu vale. vieram os gregos e se foram depois os romanos que por sua vez. civilizações
maias incas astecas. espanhóis a dar a volta ao mundo. houve hunos e mongóis. houve alexandres e
henriques. napoleões, hitleres. e tantos e inúmeros pequenos e grandes déspotas
como cada um de nós nascemos e morremos. houve gutemberg a inquisição as
certezas. o tempo. a pisada na lua. a terra azul e redonda. o sonho de viajar no
tempo. o tempo. a cobrir o corpo do homem. morto por uma flecha disparada a 30 metros de distância no
silêncio da neve. nas montanhas.
ninguém soube me dizer se ele tinha um cachorro.
ele bem que poderia ter deixado um bilhete.
ele bem que poderia ter deixado um bilhete.
14 de junho de 2012
12 de junho de 2012
e não me movo
durante muito tempo, do outro lado do vidro, observamos o dragão de komodo. seus olhos tristes, como se dentro houvesse um homem que não consegue sair. os pés são mãos invertidas. a pele é casca de jaca. depois, como a imobilidade seguisse, fomos observar ninhos de flamingos.
construções altas de terra, quase cupinzeiros. ovos. as flamingas a chocar. filhotes de flamingo são feios. e cinzas e desengonçados. e também ficam muito tempo parados.
talvez o homem que habita o dragão saia nas madrugadas para brincar com os pequenos flamingos que alguma vez serão rosa e sonharão voltar para cuba.
no dia seguinte eu tinha lágrimas por todos os lados. quando
o mapa me levou para uma cidade equivocada e distante. quando no ombro da
menina a tatuagem de uma criança nascida e já morrida. quando no vagão o
violino e as danças húngaras.
na madrugada, meu filho me acordou chorando: tenho medo,
eram muitos dragões.
8 de junho de 2012
khamsin
naquela noite, uma palavra me pegou pela mão como o vento que faz naufragar cidades inteiras na areia.
mesmo que eu conseguisse contar tudo o que vejo e conseguisse prender os sentimentos ao texto como se prende um brinco nas orelhas, como se põe um anel no dedo, como a música no metrô se prende na pele da gente, a não ser que você também o tivesse experimentado não saberia o que é este estar como que pisando ilhas no ar. nada de águas. nada de terra além do minúsculo chão que piso agora.
agora.
agora.
outro agora.
depois, nada.
outra vez chão.
e nada.
ou o vento. pisar o vento.
agora.
agora.
outro agora.
depois, nada.
outra vez chão.
e nada.
ou o vento. pisar o vento.
7 de junho de 2012
4 de junho de 2012
vinho
somniar ser vi.
sentir-se raïm madur.
i veure atansar-se el veremador,
per fi.
(soñar ser vino.
sentirse uva madura.
y ver acercarse el vendimiador,
por fin.)
manuel forcano - llei d´estrangeria
original em catalão
sentir-se raïm madur.
i veure atansar-se el veremador,
per fi.
(soñar ser vino.
sentirse uva madura.
y ver acercarse el vendimiador,
por fin.)
manuel forcano - llei d´estrangeria
original em catalão
1 de junho de 2012
palau de la musica
imergir num labirinto fulgurante de palavras era aquela noite ao ouvir a sonoridade das línguas mais estranhas do mundo sob a
luz dos vitrais dos cristais das pequenas lanternas azuis e depois pelas ruas estreitas e escuras meia noite na velha cidade seguir quase sozinha na direção das largas avenidas de um mar que eu não sabia onde embora fosse sal, sim,
a maresia que se condensava nos meus olhos em busca de saída tateando as
letras desconhecidas e as calçadas.
24 de maio de 2012
23 de maio de 2012
e vejo alguém passar de relance
tenho dentes amarelos de fumante que nunca fui e o fígado
inchado.há alguém em mim que fuma e bebe? um outro me
habita e não sei? ninguém. me diz.
ando pelos jardins de luxemburgo e volto a ter seis anos e
volto a gostar de paisagens pintadas com pétalas intensas, laranjas mais que
maduras entre folhagens.
estou à deriva. sempre. sempre. sempre.
dedos sujos de nicotina, a dentadura postiça. pernas que não
se firmam imensas colunas me desabam. poderia escrever cartas, muitas cartas. melhor assim.
quando finalmente for à índia o primeiro item da lista será
a bagagem.e todo o resto se completaria.
nos caminhos do parque há pedrinhas minúsculas.já não entram nos sapatos. eu descalço.
22 de maio de 2012
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