10 de setembro de 2012

abandono


"Hay dolor pero también hay felicidad al abandonar un libro. Me ha pasado así, al menos: primeiro el melodrama de haber perdido tantas noches en una pasión inútil. Pero luego, con el paso de los días, prevalece un ligero viento favorable. Volvemos a sentirnos cómodos en esa habitación en que escribimos sin mayores planes, sin propósitos precisos.
Abandonamos un libro cuando comprendemos que no estaba para nosostros. De tanto querer leerlo creímos que nos correspondía escribirlo. Estábamos cansados de esperar que alguien escribiera el libro que queríamos leer.
No pienso abandonar, sin embargo, mi novela."

(alejandro zambra, formas de volver a casa)

6 de setembro de 2012

sob o sol


será preciso dar água às palavras para que não se quebrem.
para que úmidas fiquem maleáveis e próximas.  seco se entregar molhado casca se revirar miolo toca se tornar ninho.
duras, as palavras viram pó, areia, sereno, uma mancha na pele.
envelhecem.
pedra.

21 de julho de 2012

têmpera



a mulher viu as peras na árvore e se disse pereira.
viu o tronco áspero e nele plantou dois meninos. que fotografou.
depois desvelou um lobo numa praia, uma barriga de baleia na beira de um barco, umas flores de monet em seu jardim.
saiu de madrugada levando consigo o que tinha trazido.
uma chave esquecida no vento de galápagos.
e um pouco mais.

trrriiiimmm!

(foto: sandra pereira)

13 de julho de 2012

tudo isso antes...

eu disse "a" e o mundo me entregou alfabetos em todas as línguas entregou mensagens em forma de enigmas e uns hieróglifos rascunhados numa tampa de refrigerante. fiquei quieta um tempo, a reorganizar palavras. num silêncio um mundo se compreende.

"els anys no paseu debades, ni les pluges, ni els silencis" (miquel marti i pol)

11 de julho de 2012

nó na madeira

"Mas até hoje escrever me dá muito trabalho. É como se alguém me pedisse pra fazer uma cadeira, objeto simples, diário, necessário. Mas eu não sou carpinteiro."

(mari somdipincel, daqui)

10 de julho de 2012

disposição da palavra

"E o que não faz sentido é nossa incapacidade de perceber e acompanhar o sentido de uma frase longa e bem lastrada. Isso compele. E nos leva adiante. E talvez seja uma maneira de lembrar - numa feição análoga, aliás, aos planos-sequências de Bela Tarr - que a frase curta é apenas um dos veículos da elegância e da concisão. E que essa mesma concisão e essa idêntica elegância podem ser atingidas por frases que parecem não ter fim. Quer dizer, não é o tamanho da frase o que determina a concisão e a elegância. Mas o ritmo dela. Seu modo de dispor-se. Sua disposição."

(Ruy Vasconcelos daqui)

9 de julho de 2012

habla que baila


"La fuente de la poesia es el habla, la misma de la prosa. El habla es temporal y sucesiva: cada frase se desarrolla en el tiempo y en cada frase las palabras van una detrás de otra. Por ser tiempo, el habla es rítmica o, más bien, tiende espontaneamente a ser ritmo. De ahí que las fronteras entre la prosa y el metro sean cambiantes, imprecisas: el ritmo que las dibuja, a veces también las borra. Si el verso en ocasiones se desmorona y regresa a la prosa, en otras la prosa se levanta y baila como si fuera verso". 

(octavio paz)

6 de julho de 2012

pouco a pouco


enquanto virava as páginas eu dizia são as cebolas. as lágrimas molhavam a ponta do meu pé sem meias. se meu cabelo nascer sem cachinhos eu compro bobes eu faço papelote eu uso uma peruca de fios longos lisos e vermelhos. e o seu riso eu dizia. preparei  as crianças para esta corrida contra o tempo reuni as amigas dividi o fardo e o peso. eu digo: você. e são tantas. somos tantas nenhuma a querer carregar bandeira todas a sonhar o arado o plantar lado a lado. amassar o pão assar. e no entanto. a página não se vira sozinha eu diria. enxugo a lágrima. 
o fio da faca no coração da cebola.

5 de julho de 2012

etc

abri a caixa e era escuro dentro.
quando ele chegou eu disse veio uma caixa e está vazia.
ele perguntou se era leve eu disse nem pesada. e mostrei a caixa até um fundo vazio e já nem escuro era o que vazia dentro.
ele disse não está vazia. veja.
olhei de novo e vi que no fundo da caixa brotava um túnel de terra e no fim do túnel uma paisagem de mar. aos meus pés, um precipício.
quis dar um nome para aquilo aquele abismo.
palavra não nomina abismo.
a palavra é.

4 de julho de 2012

orides ao avesso



o poema mais ou menos diz quando se sentir cansado e entediado, imagine-se estrangeiro. a não reconhecer a língua, a estranhar a comida e também as roupas, os jeitos de andar, as placas de rua.
nesse momento estou o contrário do poema. evito os tecidos para focar peles e braços onde somos tão iguais nas palavras procuro sons que reconheço nas placas decifro sinais. faço em roma como os romenos sem abrir a boca. disfarço a alegria ao ver um bando de andorinhas.

19 de junho de 2012

ötzi


nos alto dos alpes, nas montanhas de neve entre a áustria e a itália, um homem de quase quarenta e cinco anos, olhos castanhos, cabelos compridos, de mais ou menos 50 quilos e 1,60 de altura, foi flechado pelas costas, caiu de cara no chão, morto.
antes de morrer, tinha comido cereais, folhas, carne. em seu estômago também havia pólen e sementes. vestia roupas de couro de cabra, tinha um gorro de pele de urso. seu machado, sua faca de pedra, sua agulha de costuras, fios feitos de tendões de bichos, sua mochila ficaram caídos por ali, largados à sua volta. ninguém levou sua machadinha.
a neve cobriu o corpo.
enquanto a neve o guardava, pirâmides foram erguidas e impérios. a areia velou a vida de civilizações inteiras. vieram o ferro as embarcações as guerras os aviões o silício e seu vale. vieram os gregos e se foram depois os romanos que por sua vez. civilizações maias incas astecas. espanhóis a dar a volta ao mundo. houve hunos e mongóis. houve alexandres e henriques. napoleões, hitleres. e tantos e inúmeros pequenos e grandes déspotas como cada um de nós nascemos e morremos. houve gutemberg a inquisição as certezas. o tempo. a pisada na lua. a terra azul e redonda. o sonho de viajar no tempo. o tempo. a cobrir o corpo do homem. morto por uma flecha disparada a 30 metros de distância no silêncio da neve. nas montanhas.
ninguém soube me dizer se ele tinha um cachorro.
ele bem que poderia ter deixado um bilhete.

12 de junho de 2012

e não me movo




durante muito tempo, do outro lado do vidro, observamos o dragão de komodo. seus olhos tristes, como se dentro houvesse um homem que não consegue sair. os pés são mãos invertidas. a pele é casca de jaca. depois, como a imobilidade seguisse, fomos observar ninhos de flamingos.
construções altas de terra, quase cupinzeiros. ovos. as flamingas a chocar. filhotes de flamingo são feios. e cinzas e desengonçados. e também ficam muito tempo parados.
talvez o homem que habita o dragão saia nas madrugadas para brincar com os pequenos flamingos que alguma vez serão rosa e sonharão voltar para cuba.
no dia seguinte eu tinha lágrimas por todos os lados. quando o mapa me levou para uma cidade equivocada e distante. quando no ombro da menina a tatuagem de uma criança nascida e já morrida. quando no vagão o violino e as danças húngaras.  
na madrugada, meu filho me acordou chorando: tenho medo, eram muitos dragões.


8 de junho de 2012

khamsin

naquela noite, uma palavra me pegou pela mão como o vento que faz naufragar cidades inteiras na areia. mesmo que eu conseguisse contar tudo o que vejo e conseguisse prender os sentimentos ao texto como se prende um brinco nas orelhas, como se põe um anel no dedo, como a música no metrô se prende na pele da gente, a não ser que você também o tivesse experimentado não saberia o que é este estar como que pisando ilhas no ar. nada de águas. nada de terra além do minúsculo chão que piso agora.
agora.
agora.
outro agora.
depois, nada.
outra vez chão.
e nada.
ou o vento. pisar o vento.

4 de junho de 2012

vinho

somniar ser vi.
sentir-se raïm madur.

i veure atansar-se el veremador,
per fi.


(soñar ser vino.
sentirse uva madura.

 
y ver acercarse el vendimiador,
por fin.)


manuel forcano - llei d´estrangeria
original em catalão  

1 de junho de 2012

palau de la musica




imergir num labirinto fulgurante de palavras era aquela noite ao ouvir a sonoridade das línguas mais estranhas do mundo sob a luz dos vitrais dos cristais das pequenas lanternas azuis e depois pelas ruas estreitas e escuras meia noite na velha cidade seguir quase sozinha na direção das largas avenidas de um mar que eu não sabia onde embora fosse sal, sim, a maresia que se condensava nos meus olhos em busca de saída tateando as letras desconhecidas e as calçadas.