22 de setembro de 2012

um poema de md


As mãos negativas (excerto)
Chamam-se “mãos negativas” as pinturas de mãos encontradas nas grutas magdalenienses da Europa Sul-Atlântica. O contorno dessas mãos – espalmadas sobre a pedra – era recoberto de cor. O mais frequente de azul, de preto. Às vezes, de vermelho. Nenhuma explicação foi encontrada para esta prática.

Diante do oceano
sob a falésia
sobre a parede de granito

essas mãos

abertas

Azuis
E pretas

Do azul da água
Do preto da noite

O homem veio sozinho na gruta
de frente para o oceano
Todas as mãos têm o mesmo tamanho
ele estava sozinho

O homem sozinho na gruta olhou
no barulho
no barulho do mar
a imensidão das coisas

E ele gritou

Tu que tens um nome e uma identidade eu
te amo

Essas mãos
do azul da água
do preto do céu

Planas

Colocadas divididas sobre o granito cinza

Para que alguém as visse

Eu sou aquele que chama
Eu sou aquele que chamava que gritava há trinta
mil anos

Eu te amo

Eu grito que eu quero te amar, eu te amo

Eu amarei quem quer que escute o meu grito

Sobre a terra vazia ficarão essas mãos sobre a parede de
granito de frente para o fragor do oceano

Insustentável

Ninguém escutará mais

Ninguém verá

Trinta mil anos
Estas mãos, pretas

A refração da luz sobre o mar faz tremer
a parede da pedra

Eu sou alguém eu sou aquele que chamava que
gritava nessa luz branca

O desejo

a palavra ainda não foi inventada

Ele olhou a imensidão das coisas no fragor
das ondas, a imensidão de sua força

e depois gritou

Acima dele as florestas da Europa,
sem fim

Ele se segurou no centro da pedra
dos corredores
das vias de pedra
de todas as partes

Tu que tens um nome e uma identidade eu
te amo com um amor indefinido

Seria necessário descer a falésia
vencer o medo
O vento sopra do continente ele empurra
o oceano
As ondas lutam contra o vento
Elas avançam
abrandadas por sua força
e pacientemente alcançam
a parede

Tudo se esmaga

Eu te amo mais longe do que tu
Eu amarei quem quer que escutará que eu grito que eu
te amo

Trinta mil anos

Eu chamo

Eu chamo aquele que me responder

Eu quero te amar eu te amo

Há trinta mil anos eu grito em frente ao mar o
espectro branco

Eu sou aquele que gritava que te amava, tu

(Marguerite Duras, traduzido por Érica Zíngano e Marcela Vieira e publicado aqui)


https://www.youtube.com/watch?v=UKr1PvBt7SM 

20 de setembro de 2012

os porquês em revoada


um dia, muitos anos depois, no longo trajeto entre budapeste e barcelona, entrei em sežana. cheguei na estação não pelo trilho mas pelo caminho de quem veio a pé e quer pegar um trem. sem a mão da minha mãe, cheguei no embarque e desembarque. uma sensação me tomava vertigem. aquilo não podia ser. passos pra frente e um olhar para trás. e lá estava, era a cena exata do sonho. a mesma claridade da estação, a placa com o nome da cidade, a linha do trem. como pode isso? já existia quando eu a sonhei? os outros lugares todos, então - as matas escuras, os precipícios, as casas dos pesadelos com seus estranhos banheiros, infinitos corredores escadas e penumbras de susto - também existem? em que lugar me esperam? quando fecho os olhos, a vigília é uma estreita passagem sobre abismos.

19 de setembro de 2012

onírica

quando eu tinha uns nove ou dez anos, sonhei que chegava na estação de trem de sezana com minha mãe. o trem parava antes da plataforma e nós descíamos e íamos na direção da estação. e na estação havia a placa com o nome "sezana". quando acordei e contei meu sonho, meu pai sugeriu que olhássemos no atlas se a tal cidade existia. e existia. e era perto de trieste.

10 de setembro de 2012

abandono


"Hay dolor pero también hay felicidad al abandonar un libro. Me ha pasado así, al menos: primeiro el melodrama de haber perdido tantas noches en una pasión inútil. Pero luego, con el paso de los días, prevalece un ligero viento favorable. Volvemos a sentirnos cómodos en esa habitación en que escribimos sin mayores planes, sin propósitos precisos.
Abandonamos un libro cuando comprendemos que no estaba para nosostros. De tanto querer leerlo creímos que nos correspondía escribirlo. Estábamos cansados de esperar que alguien escribiera el libro que queríamos leer.
No pienso abandonar, sin embargo, mi novela."

(alejandro zambra, formas de volver a casa)

6 de setembro de 2012

sob o sol


será preciso dar água às palavras para que não se quebrem.
para que úmidas fiquem maleáveis e próximas.  seco se entregar molhado casca se revirar miolo toca se tornar ninho.
duras, as palavras viram pó, areia, sereno, uma mancha na pele.
envelhecem.
pedra.

21 de julho de 2012

têmpera



a mulher viu as peras na árvore e se disse pereira.
viu o tronco áspero e nele plantou dois meninos. que fotografou.
depois desvelou um lobo numa praia, uma barriga de baleia na beira de um barco, umas flores de monet em seu jardim.
saiu de madrugada levando consigo o que tinha trazido.
uma chave esquecida no vento de galápagos.
e um pouco mais.

trrriiiimmm!

(foto: sandra pereira)

13 de julho de 2012

tudo isso antes...

eu disse "a" e o mundo me entregou alfabetos em todas as línguas entregou mensagens em forma de enigmas e uns hieróglifos rascunhados numa tampa de refrigerante. fiquei quieta um tempo, a reorganizar palavras. num silêncio um mundo se compreende.

"els anys no paseu debades, ni les pluges, ni els silencis" (miquel marti i pol)

11 de julho de 2012

nó na madeira

"Mas até hoje escrever me dá muito trabalho. É como se alguém me pedisse pra fazer uma cadeira, objeto simples, diário, necessário. Mas eu não sou carpinteiro."

(mari somdipincel, daqui)

10 de julho de 2012

disposição da palavra

"E o que não faz sentido é nossa incapacidade de perceber e acompanhar o sentido de uma frase longa e bem lastrada. Isso compele. E nos leva adiante. E talvez seja uma maneira de lembrar - numa feição análoga, aliás, aos planos-sequências de Bela Tarr - que a frase curta é apenas um dos veículos da elegância e da concisão. E que essa mesma concisão e essa idêntica elegância podem ser atingidas por frases que parecem não ter fim. Quer dizer, não é o tamanho da frase o que determina a concisão e a elegância. Mas o ritmo dela. Seu modo de dispor-se. Sua disposição."

(Ruy Vasconcelos daqui)

9 de julho de 2012

habla que baila


"La fuente de la poesia es el habla, la misma de la prosa. El habla es temporal y sucesiva: cada frase se desarrolla en el tiempo y en cada frase las palabras van una detrás de otra. Por ser tiempo, el habla es rítmica o, más bien, tiende espontaneamente a ser ritmo. De ahí que las fronteras entre la prosa y el metro sean cambiantes, imprecisas: el ritmo que las dibuja, a veces también las borra. Si el verso en ocasiones se desmorona y regresa a la prosa, en otras la prosa se levanta y baila como si fuera verso". 

(octavio paz)

6 de julho de 2012

pouco a pouco


enquanto virava as páginas eu dizia são as cebolas. as lágrimas molhavam a ponta do meu pé sem meias. se meu cabelo nascer sem cachinhos eu compro bobes eu faço papelote eu uso uma peruca de fios longos lisos e vermelhos. e o seu riso eu dizia. preparei  as crianças para esta corrida contra o tempo reuni as amigas dividi o fardo e o peso. eu digo: você. e são tantas. somos tantas nenhuma a querer carregar bandeira todas a sonhar o arado o plantar lado a lado. amassar o pão assar. e no entanto. a página não se vira sozinha eu diria. enxugo a lágrima. 
o fio da faca no coração da cebola.

5 de julho de 2012

etc

abri a caixa e era escuro dentro.
quando ele chegou eu disse veio uma caixa e está vazia.
ele perguntou se era leve eu disse nem pesada. e mostrei a caixa até um fundo vazio e já nem escuro era o que vazia dentro.
ele disse não está vazia. veja.
olhei de novo e vi que no fundo da caixa brotava um túnel de terra e no fim do túnel uma paisagem de mar. aos meus pés, um precipício.
quis dar um nome para aquilo aquele abismo.
palavra não nomina abismo.
a palavra é.

4 de julho de 2012

orides ao avesso



o poema mais ou menos diz quando se sentir cansado e entediado, imagine-se estrangeiro. a não reconhecer a língua, a estranhar a comida e também as roupas, os jeitos de andar, as placas de rua.
nesse momento estou o contrário do poema. evito os tecidos para focar peles e braços onde somos tão iguais nas palavras procuro sons que reconheço nas placas decifro sinais. faço em roma como os romenos sem abrir a boca. disfarço a alegria ao ver um bando de andorinhas.