4 de novembro de 2012

inquirir é perguntar

de 1618 a 1622 cerca de 400 mulheres da catalunha foram mortas sob acusação de bruxarias. conheciam as ervas, as gentes e seus mistérios comuns. conheciam o que já não interessa a ninguém. depois de tudo, conheceram o fogo. agora, quando chega a noite das ausências, meninas brincam de vassouras e abóboras falsas como se não houvesse mais qualquer poesia a vagar  no escuro do universo.

23 de outubro de 2012

palavra sem lugar

sobre os Guaranis Caiovás Ñe'ẽ – a palavra alma, da antropóloga Graciela Chamorro:
 
A palavra é a unidade mais densa que explica como se trama a vida para os povos chamados guarani e como eles imaginam o transcendente. As experiências da vida são experiências de palavra. Deus é palavra. (...) O nascimento, como o momento em que a palavra se senta ou provê para si um lugar no corpo da criança. A palavra circula pelo esqueleto humano. Ela é justamente o que nos mantém em pé, que nos humaniza. (...) Na cerimônia de nominação, o xamã revelará o nome da criança, marcando com isso a recepção oficial da nova palavra na comunidade. (...) As crises da vida – doenças, tristezas, inimizades etc. – são explicadas como um afastamento da pessoa de sua palavra divinizadora. Por isso, os rezadores e as rezadoras se esforçam para ‘trazer de volta’, ‘voltar a sentar’ a palavra na pessoa, devolvendo-lhe a saúde.(...) Quando a palavra não tem mais lugar ou assento, a pessoa morre e torna-se um devir, um não-ser, uma palavra-que-não-é-mais. (...) Ñe'ẽ e ayvu podem ser traduzidos tanto como ‘palavra’ como por ‘alma’, com o mesmo significado de ‘minha palavra sou eu’ ou ‘minha alma sou eu’. (...) Assim, alma e palavra podem adjetivar-se mutuamente, podendo-se falar em palavra-alma ou alma-palavra, sendo a alma não uma parte, mas a vida como um todo.

daqui

19 de outubro de 2012

vigilia

a mulher que por estes tempos dorme ao lado do caixa eletrônico passa os dias lendo.
as floriculturas continuam cheias de flores. estranhei. quando me aproximei vi que são flores artificiais.
agora chove. as árvores perdem as folhas, o mundo vai silenciando. como um fim de festa. se esquentar um pouco, será possível colher cogumelos.
para o dia de todos os santos, castanhas assadas, panellets e moscatel.

5 de outubro de 2012

outubros

nossos filhos nasceram em outubro. para mim outubro sempre foi primavera. mas o mundo é grande. onde um dia envelhece outro lugar amanhece. na grandeza do mundo também aprendo que é possível que as ruas sejam largas, que haja praças e todos se encontrem ao caminhar por elas. que não é preciso ter medo do medo do medo, sempre o medo. na minha cidade, aquela de onde venho e onde vivo, sei que tem sido difícil plantar uma horta, que nem todas as sementes brotaram como prometido, nem todas darão frutos enquanto ainda estivermos vivos. mesmo assim, confio no que se gesta no segredo da terra. é outono aqui, as folhas caem, mas vejam, aí, nesse momento: e tudo só está nascente.

22 de setembro de 2012

um poema de md


As mãos negativas (excerto)
Chamam-se “mãos negativas” as pinturas de mãos encontradas nas grutas magdalenienses da Europa Sul-Atlântica. O contorno dessas mãos – espalmadas sobre a pedra – era recoberto de cor. O mais frequente de azul, de preto. Às vezes, de vermelho. Nenhuma explicação foi encontrada para esta prática.

Diante do oceano
sob a falésia
sobre a parede de granito

essas mãos

abertas

Azuis
E pretas

Do azul da água
Do preto da noite

O homem veio sozinho na gruta
de frente para o oceano
Todas as mãos têm o mesmo tamanho
ele estava sozinho

O homem sozinho na gruta olhou
no barulho
no barulho do mar
a imensidão das coisas

E ele gritou

Tu que tens um nome e uma identidade eu
te amo

Essas mãos
do azul da água
do preto do céu

Planas

Colocadas divididas sobre o granito cinza

Para que alguém as visse

Eu sou aquele que chama
Eu sou aquele que chamava que gritava há trinta
mil anos

Eu te amo

Eu grito que eu quero te amar, eu te amo

Eu amarei quem quer que escute o meu grito

Sobre a terra vazia ficarão essas mãos sobre a parede de
granito de frente para o fragor do oceano

Insustentável

Ninguém escutará mais

Ninguém verá

Trinta mil anos
Estas mãos, pretas

A refração da luz sobre o mar faz tremer
a parede da pedra

Eu sou alguém eu sou aquele que chamava que
gritava nessa luz branca

O desejo

a palavra ainda não foi inventada

Ele olhou a imensidão das coisas no fragor
das ondas, a imensidão de sua força

e depois gritou

Acima dele as florestas da Europa,
sem fim

Ele se segurou no centro da pedra
dos corredores
das vias de pedra
de todas as partes

Tu que tens um nome e uma identidade eu
te amo com um amor indefinido

Seria necessário descer a falésia
vencer o medo
O vento sopra do continente ele empurra
o oceano
As ondas lutam contra o vento
Elas avançam
abrandadas por sua força
e pacientemente alcançam
a parede

Tudo se esmaga

Eu te amo mais longe do que tu
Eu amarei quem quer que escutará que eu grito que eu
te amo

Trinta mil anos

Eu chamo

Eu chamo aquele que me responder

Eu quero te amar eu te amo

Há trinta mil anos eu grito em frente ao mar o
espectro branco

Eu sou aquele que gritava que te amava, tu

(Marguerite Duras, traduzido por Érica Zíngano e Marcela Vieira e publicado aqui)


https://www.youtube.com/watch?v=UKr1PvBt7SM 

20 de setembro de 2012

os porquês em revoada


um dia, muitos anos depois, no longo trajeto entre budapeste e barcelona, entrei em sežana. cheguei na estação não pelo trilho mas pelo caminho de quem veio a pé e quer pegar um trem. sem a mão da minha mãe, cheguei no embarque e desembarque. uma sensação me tomava vertigem. aquilo não podia ser. passos pra frente e um olhar para trás. e lá estava, era a cena exata do sonho. a mesma claridade da estação, a placa com o nome da cidade, a linha do trem. como pode isso? já existia quando eu a sonhei? os outros lugares todos, então - as matas escuras, os precipícios, as casas dos pesadelos com seus estranhos banheiros, infinitos corredores escadas e penumbras de susto - também existem? em que lugar me esperam? quando fecho os olhos, a vigília é uma estreita passagem sobre abismos.

19 de setembro de 2012

onírica

quando eu tinha uns nove ou dez anos, sonhei que chegava na estação de trem de sezana com minha mãe. o trem parava antes da plataforma e nós descíamos e íamos na direção da estação. e na estação havia a placa com o nome "sezana". quando acordei e contei meu sonho, meu pai sugeriu que olhássemos no atlas se a tal cidade existia. e existia. e era perto de trieste.

10 de setembro de 2012

abandono


"Hay dolor pero también hay felicidad al abandonar un libro. Me ha pasado así, al menos: primeiro el melodrama de haber perdido tantas noches en una pasión inútil. Pero luego, con el paso de los días, prevalece un ligero viento favorable. Volvemos a sentirnos cómodos en esa habitación en que escribimos sin mayores planes, sin propósitos precisos.
Abandonamos un libro cuando comprendemos que no estaba para nosostros. De tanto querer leerlo creímos que nos correspondía escribirlo. Estábamos cansados de esperar que alguien escribiera el libro que queríamos leer.
No pienso abandonar, sin embargo, mi novela."

(alejandro zambra, formas de volver a casa)

6 de setembro de 2012

sob o sol


será preciso dar água às palavras para que não se quebrem.
para que úmidas fiquem maleáveis e próximas.  seco se entregar molhado casca se revirar miolo toca se tornar ninho.
duras, as palavras viram pó, areia, sereno, uma mancha na pele.
envelhecem.
pedra.

21 de julho de 2012

têmpera



a mulher viu as peras na árvore e se disse pereira.
viu o tronco áspero e nele plantou dois meninos. que fotografou.
depois desvelou um lobo numa praia, uma barriga de baleia na beira de um barco, umas flores de monet em seu jardim.
saiu de madrugada levando consigo o que tinha trazido.
uma chave esquecida no vento de galápagos.
e um pouco mais.

trrriiiimmm!

(foto: sandra pereira)

13 de julho de 2012

tudo isso antes...

eu disse "a" e o mundo me entregou alfabetos em todas as línguas entregou mensagens em forma de enigmas e uns hieróglifos rascunhados numa tampa de refrigerante. fiquei quieta um tempo, a reorganizar palavras. num silêncio um mundo se compreende.

"els anys no paseu debades, ni les pluges, ni els silencis" (miquel marti i pol)