14 de maio de 2013
7 de maio de 2013
estrelando
li – onde foi que eu li? – que a vida é mais
tranquila se a
gente se pensa dentro de um filme sobre a gente mesmo. como somos
muitos, somos
muitos filmes projetados em muitas telas simultaneamente. no meu filme,
sou eu
o personagem principal. meus medos, alegrias, aflições, descobertas,
raivas,
tristezas. minha noite, minha véspera, meu dia seguinte, minha memória. a
trilha musical, inclusive, minha. no filme do outro, de qualquer outro,
sou só
um figurante, aquele que passa de relance com a camiseta da cor exata.
no filme do cara que cruzo na rua ou da mulher que compra peixe na feira ou do companheiro ou do filho ou do meu gato ou da árvore, da
mãe, do pai, do planeta,
do cão, da tempestade, nesses filmes sou só figurante. quando muito, com
muito
esforço e só por um tempo tempinho, chegarei a ser coadjuvante. com
muito
talento, um bom coadjuvante.
na verdade não sei se a vida fica mais tranquila. talvez seja
outra coisa: essa ideia ajuda a cavar mais pequenos silêncios no dia. e ser
coadjuvante de silêncios. figurante, antes.
2 de maio de 2013
exercícios
foto: adauto araujo
Às vezes me apareces à memória
como uma cidade vista desde o mar:
com a ânsia de aportar aí
ou como o mar visto entre as ruas de uma cidade:
com a ânsia de banhar-me aí.
Às vezes a sua lembrança cresce em mim
como uma cidade que derruba as muralhas
e as novas ruas que se cruzam
dizem o teu nome
e o meu.
Às vezes me esqueço que te foste
e falo contigo como um semáforo
que muda de cores
numa rua deserta.
Às vezes tenho claro
que o único lugar onde pude viver sem o mar
foi o teu corpo.
Às vezes te esqueço
como uma cidade que de noite
não vê o seu mar negro.
E tu também vais me esquecendo
como um porto cada dia com menos navios
com menos mar a cada dia.
manuel forcano - llei d´estrangeria
tradução: veronika paulics
o original, em catalão:
com una ciutat vista des del mar:
amb l´ánsia d´arribar-hi,
o com el mar vist entre els carrers d´una ciutat:
amb l´ánsia de banyar-m´hi.
De vegades el teu record creix en mi
com una ciutat que enderroca les murrales
i els nous carrers que es creuen
duen el teu nom
i el meu.
De vegades oblido que vas anar-te´n
i et parlo com un semàfor
que canvia de colors
en un carrer desert.
De vegades sóc conscient
que l´unic lloc on vaig poder viure sense el mar
va ser el teu cos.
De vegades t´oblido
com una ciutat que de nit
no veu el seu mar negre.
I tu també em vas oblidant
com un port cada dia amb menys vaixells,
amb menys mar cada dia.
16 de abril de 2013
12 de abril de 2013
8 de abril de 2013
21 de março de 2013
atravessar limpo o ar da manhã
"Era uma loja onde se penhoravam lembranças. Eu sabia
desde o início o que queria, mas apesar disso, para evitar qualquer
precipitação, perguntei por um dos objetos que estavam expostos. Era uma
lembrança guardada no fundo das estantes à esquerda. Podia-se ler o timbre no
cartãozinho lacrado que se sobressaía: J. M. H. 1952. Não sei por que me chamou
a atenção. Ah, esse!, me disse o empregado, é um dos depósitos mais antigos que
temos, senhor, sua proprietária por certo já faleceu, e ninguém pôde ou nem quis
recuperá-lo. São lembranças de sua infância em Sidi Ifni. Lembranças
provavelmente filtradas pela nostalgia, mas muito bonitas, eu lhe asseguro.
Perguntei a ele o preço, mas ele me respondeu com uma amável evasiva. Seu preço
está dentro do razoável, me disse. Se tiver interesse é só uma questão de
conversarmos, estou certo de que chegaremos a um acordo satisfatório. As
lembranças, ele acrescentou, se deterioram com o tempo ou pelo menos se
transformam, sabe? Estão aqui, aparentemente imóveis, fora da cabeça de seus
donos, mas pouco a pouco se transformam, se refinam, poderíamos dizer. Com eles
acontece praticamente o mesmo que acontece com as lembranças que temos em nossa
memória. Isso lhes dá uma beleza particular, como se fossem vivas destilações
do tempo. Me interessei pelo grupo de lembranças que estava absolutamente
ordenado em uma cristaleira, envoltos em papel verde com sua etiqueta
correspondente também lacrada. Refere-se a esses daí?, me disse. São
alucinações. Mas não pense que admitimos todas, imagine. Só aquelas que são
realmente extraordinárias.
Visões desmesuradas da realidade, algumas, autênticas
deformações, quase monstruosas. Não é fácil encontrar gente que se desprenda delas.
Os proprietários de alucinações verdadeiramente intensas têm muito apego a esse
tipo de pensamento. Para nós, têm muito valor e são muito solicitadas. Também
os sonhos. Estão bem ao lado das alucinações nesta outra cristaleira. São os
dois tipos de lembranças mais valiosas que temos aqui e que as pessoas mais
apreciam. Temos uma clientela muito seleta de compradores de alucinações e
sonhos.
Tive vontade de interrompê-lo para explicar o propósito que
me havia levado até ali, mas me contive e assim lhe dei corda para que me
mostrasse a série de lembranças que estavam colocadas nas prateleiras da
frente. Aqui o senhor encontra histórias de amor e desamor. São lembranças de
amor e desamor em geral, o que poderíamos chamar de paixões. Alguns episódios
têm, desde o ponto de vista comercial, uma saída aceitável e chegam a despertar
certo interesse, mas, sendo sincero, em sua maioria são histórias de uma enorme
vulgaridade. Veja as etiquetas. Ali estava grande parte da escala dos
comportamentos amorosos. A entomologia do sentimentalismo, pensei.
Pareceu se animar quando me apontou um grupo de lembranças
que se destacava do resto, pela sua quantidade. Estes, disse, mostrando as
prateleiras superiores, são muito peculiares e também muito apreciados por
nossos clientes. São viagens. Viagens aos lugares mais inesperados do planeta,
lembranças de aventuras cheias de riscos e vicissitudes. Algumas são autênticas
provas de heroísmo, acredite-me, realizadas por pessoas comuns. Mas nem todas
são proezas de muita ousadia, claro. Também há lembranças de travessias
plácidas e paisagens muito bonitas, lhe asseguro. E não só a lugares
desconhecidos, há lembranças de viagens dentro da própria cidade que
surpreendem por sua ternura e complexidade. Me deu a impressão de que exagerava,
mas talvez realmente gostasse de falar das lembranças que guardava entre
aquelas quatro paredes. Continuou. Também há paisagens de solidão e multidão.
Fez um gesto de me convidar para passarmos a uma sala contígua, para seguir me explicando o resto da coleção. Não consegui entender se ele era o proprietário do estabelecimento ou um simples empregado. Sem dúvida, era uma pessoa sensível, conhecedora de seu ofício. Me explicou que tinham uma amplíssima variedade de lembranças sobre conversas, muitas das quais verdadeiras joias, e outra coleção ampla sobre a morte. O senhor deveria vê-las mais detidamente porque abarcam uma gama muito extensa...
Dei a entender que já era suficiente o que havia visto e demos por concluída a visita. Virou-se um tanto cerimoniosamente, e me perguntou. O senhor sabe o que busca exatamente ou o que é que nos oferece e veremos em que medida podemos ajudá-lo? Aqui tem, de todo modo, nosso catálogo, onde apresentamos a totalidade dos produtos disponíveis, e que atualizamos periodicamente. Fora de catálogo temos... Voltei a interrompê-lo, talvez de uma maneira um pouco abrupta, e lhe disse: Não quero comprar nada. O senhor foi muito amável ao me explicar tudo o que há na loja, com tanto detalhe. Eu quero penhorar todas as minhas lembranças. Absolutamente todas. Não importa quanto me paguem.
Fez um gesto de me convidar para passarmos a uma sala contígua, para seguir me explicando o resto da coleção. Não consegui entender se ele era o proprietário do estabelecimento ou um simples empregado. Sem dúvida, era uma pessoa sensível, conhecedora de seu ofício. Me explicou que tinham uma amplíssima variedade de lembranças sobre conversas, muitas das quais verdadeiras joias, e outra coleção ampla sobre a morte. O senhor deveria vê-las mais detidamente porque abarcam uma gama muito extensa...
Dei a entender que já era suficiente o que havia visto e demos por concluída a visita. Virou-se um tanto cerimoniosamente, e me perguntou. O senhor sabe o que busca exatamente ou o que é que nos oferece e veremos em que medida podemos ajudá-lo? Aqui tem, de todo modo, nosso catálogo, onde apresentamos a totalidade dos produtos disponíveis, e que atualizamos periodicamente. Fora de catálogo temos... Voltei a interrompê-lo, talvez de uma maneira um pouco abrupta, e lhe disse: Não quero comprar nada. O senhor foi muito amável ao me explicar tudo o que há na loja, com tanto detalhe. Eu quero penhorar todas as minhas lembranças. Absolutamente todas. Não importa quanto me paguem.
Então me respondeu um tanto surpreendido, perdendo
momentaneamente a compostura: todas, todas, ele repetia, aqui não há lembranças
de vidas completas, somente fragmentos de memória. As pessoas não se desprendem
nunca da totalidade de suas lembranças, senhor. Assim me coloca numa situação
muito incômoda, deveria pensar melhor em tudo isso. O senhor perderia sua
identidade, não se lembraria quem é, nem onde vive. Além disso, enquanto durar
o depósito, estas lembranças são nossas e desaparecem de sua mente. Se alguém
as compra, o senhor só poderá recuperar o dinheiro, mas não as lembranças.
Então eu lhe disse o que realmente pensava desde o princípio, antes mesmo de
por os pés naquela casa de penhores.
O que eu quero é começar uma vida sem lembranças. Quero atravessar limpo o ar da manhã, me entende? Ver as coisas, todas as coisas, pela primeira vez."
O que eu quero é começar uma vida sem lembranças. Quero atravessar limpo o ar da manhã, me entende? Ver as coisas, todas as coisas, pela primeira vez."
(Juan Yanes, escritor das Ilhas Canárias, tem dois blogues
intensos: maquina de coser palabras,
de onde traduzi este texto, e el
oscuro borde de la luz em sua terceira edição.)
20 de março de 2013
no vento que vem dos desertos
Khamsin
... Hoje está um dia de ventanias: é a época do chamado khamsin, um vento que vem do deserto carregado de areia depois de ter varrido a Arábia com fúria. Invade irado o Egito e chega ao Cairo naufragando a cidade em uma imensa nuvem arenosa. Se despenteiam as palmeiras, o Nilo fica lamacento e muda de cor, o ar fica espesso, os pássaros sem respirar. Dos terraços caem antenas, roupa estendida, grades. Da terra se levantam redemoinhos de pó que invadem as ruas e dificultam o caminhar. A areia finíssima está por todo lado: no mastigar, no entre a roupa, dentro da cama, na geladeira. Chega misteriosamente. Uma rajada me folheou os livros abertos sobre a mesa. Graças a isso descobri uns versos de amor escritos pelo divino Platão quando era jovem: “Tinha aos lábios a minha alma e quando a beijei, a infeliz entrou nos seus como para fugir”. Agora mesmo tranquei as portas para evitar que as rajadas arrebentem os vidros, e antes de me fechar na penumbra do quarto, vi voando umas calças pelo ar... É o khamsin. Basta ter paciência e esperar que em mais cinco ou seis dias se desencalhe e siga avançando em direção ao ventre mudo do deserto líbio. Saí para tomar um chá no grande bazar com um amigo. Queria lhe falar dos versos de Platão. Pela rua todos correm empoeirados a proteger muito bem os olhos, a boca, as orelhas. Também eu tive que lutar contra o vento entre papéis, bolsas e nuvens desordenadas de areia. Um galho de acácia me chicoteou a cara. Por sorte estava toda florida. E assim chegou aqui a primavera...
(Manuel Forcano - Llei d´estrangeria)
o original, em catalão:
... Avui fa um dia ventós: és l´època de l´anomenat khamsin, un vent del desert que ve carregat de sorra després d´haver escombrat l´Aràbia amb fúria. Envaeix Egipte irat i arriba al Caire enfonsant la ciutat en un núvol immens d´arena. Es despentinen totes les palmeres, el Nil s´enfanga i muda la color, l´aire s´espesseix, s´alatrenquen els ocells. Dels terrats cauen antenes, roba estesa, baranes. Del terra s´aixequen remolins de pols que escombren els carrers i fan difícil caminar-hi. L´arena finíssima se´t fica pertot: la mastegues, la sents entre la roba, dins el llit, a la nevera. Misteriosament hi arriba. Una ràfega m´ha fullejat els llibres oberts damunt la taula. Gracies a això he descobert uns versos d´amor escrits pel diví Plató quan era jove: ¨Tenia als llavis la meva anima, i quan el vaig besar, la dissortada va entrar als seus com per fugir¨. Ara mateix he tancat els porticons per evitar que més ràfegues m´esbotzin els vidres, i abans no m´he clos en la penombra de la cambra he vist volant per l´aire uns pantalons... És el khamsin. Nomes cal tenir paciència i esperar que en cinc o sis dies més es desencalli i segueix avançant cap al ventre mut del desert libi. He sortit per anar a prendre un te al gran basar amb um amic. Volia comentar-li els versos de Plató. Pel carrer tothom corre empolsinat i protegint-se amb força els ulls, la boca, les orelles. Jo també m´he hagut de barallar amb el vent entre papers, bosses i núvols desendreçats de sorra. Una branca sacsejada d´una acàcia m´ha fuetejat la cara. Encara sort que era florida. Així ha arribat aquí la primavera...
... Hoje está um dia de ventanias: é a época do chamado khamsin, um vento que vem do deserto carregado de areia depois de ter varrido a Arábia com fúria. Invade irado o Egito e chega ao Cairo naufragando a cidade em uma imensa nuvem arenosa. Se despenteiam as palmeiras, o Nilo fica lamacento e muda de cor, o ar fica espesso, os pássaros sem respirar. Dos terraços caem antenas, roupa estendida, grades. Da terra se levantam redemoinhos de pó que invadem as ruas e dificultam o caminhar. A areia finíssima está por todo lado: no mastigar, no entre a roupa, dentro da cama, na geladeira. Chega misteriosamente. Uma rajada me folheou os livros abertos sobre a mesa. Graças a isso descobri uns versos de amor escritos pelo divino Platão quando era jovem: “Tinha aos lábios a minha alma e quando a beijei, a infeliz entrou nos seus como para fugir”. Agora mesmo tranquei as portas para evitar que as rajadas arrebentem os vidros, e antes de me fechar na penumbra do quarto, vi voando umas calças pelo ar... É o khamsin. Basta ter paciência e esperar que em mais cinco ou seis dias se desencalhe e siga avançando em direção ao ventre mudo do deserto líbio. Saí para tomar um chá no grande bazar com um amigo. Queria lhe falar dos versos de Platão. Pela rua todos correm empoeirados a proteger muito bem os olhos, a boca, as orelhas. Também eu tive que lutar contra o vento entre papéis, bolsas e nuvens desordenadas de areia. Um galho de acácia me chicoteou a cara. Por sorte estava toda florida. E assim chegou aqui a primavera...
(Manuel Forcano - Llei d´estrangeria)
o original, em catalão:
... Avui fa um dia ventós: és l´època de l´anomenat khamsin, un vent del desert que ve carregat de sorra després d´haver escombrat l´Aràbia amb fúria. Envaeix Egipte irat i arriba al Caire enfonsant la ciutat en un núvol immens d´arena. Es despentinen totes les palmeres, el Nil s´enfanga i muda la color, l´aire s´espesseix, s´alatrenquen els ocells. Dels terrats cauen antenes, roba estesa, baranes. Del terra s´aixequen remolins de pols que escombren els carrers i fan difícil caminar-hi. L´arena finíssima se´t fica pertot: la mastegues, la sents entre la roba, dins el llit, a la nevera. Misteriosament hi arriba. Una ràfega m´ha fullejat els llibres oberts damunt la taula. Gracies a això he descobert uns versos d´amor escrits pel diví Plató quan era jove: ¨Tenia als llavis la meva anima, i quan el vaig besar, la dissortada va entrar als seus com per fugir¨. Ara mateix he tancat els porticons per evitar que més ràfegues m´esbotzin els vidres, i abans no m´he clos en la penombra de la cambra he vist volant per l´aire uns pantalons... És el khamsin. Nomes cal tenir paciència i esperar que en cinc o sis dies més es desencalli i segueix avançant cap al ventre mut del desert libi. He sortit per anar a prendre un te al gran basar amb um amic. Volia comentar-li els versos de Plató. Pel carrer tothom corre empolsinat i protegint-se amb força els ulls, la boca, les orelles. Jo també m´he hagut de barallar amb el vent entre papers, bosses i núvols desendreçats de sorra. Una branca sacsejada d´una acàcia m´ha fuetejat la cara. Encara sort que era florida. Així ha arribat aquí la primavera...
19 de março de 2013
14 de março de 2013
12 de março de 2013
11 de março de 2013
às vezes
o gato, às vezes, fica horas parado num canto. dorme, acorda. depois olha, concentra-se num detalhe do mundo. de
repente se levanta, vem na minha direçao, pula no meu colo. pede
carinho. faço carinho. pede que coce, e eu coço, coço suas costas, sua
barriga, o pescoço, o entre os olhos. ele fica feliz, ronrona, às vezes
se ajeita e dorme no meu colo enquanto escrevo. outras vezes, do nada,
se levanta e vai embora.
às vezes, o gato.
às vezes, o gato.
8 de março de 2013
27 de fevereiro de 2013
chang dai-chien
barack virág ág
esik. a
becsukódo virágok magukba zárnak minden
fényt.
de micsoda öröm
az ha minden
ami él at van itatva
és ujra
kinyilik
-- ilyenkor
megyek ki a kertbe.
galho com flor de pessegueiro
chove. as flores que se fecham guardam em si toda luz.
mas que alegria quando tudo o que vive está encharcado
e novamente desabrocha
-- nessas horas eu vou ao jardim.
minha avó gostava de pintar. paisagens de lagos entre
montanhas nevadas, flores, beija-flores. em geral, copiava pinturas de outros. ou fotos. numa de suas pinturas de flores de
pessegueiro, havia uns ideogramas pintados. junto à pintura, ela guardava um
papel como se fosse a tradução dos ideogramas orientais para o húngaro. do húngaro, traduzi para o português. as chuvas tropicais e o jardim verde e pleno sempre me lembram esta pintura e este texto.
muitos
anos depois de a minha avó já ter morrido, um amigo levou a pintura para seu pai decodificar. e não era nada daquilo que estava escrito. a inscrição dizia sobre um grande general e suas virtudes.
chang dai-chen, por sua vez, assinalado por minha avó como o
autor da pintura que ela estava copiando, e talvez do texto, era um falsificador. como
falsificador, chang criou obras tão perfeitas que chegaram e ser vendidas por
milhares de dólares. suas obras, mesmo depois de serem reconhecidas como
falsificações, permaneceram nos museus para serem admiradas. (wikipedia)
25 de fevereiro de 2013
e me curvo, e me submeto
Iniciação
(Orides Fontela)
Se vens a uma terra estranha
curva-te
se este lugar é esquisito
curva-te
se o dia é todo estranheza
submete-te
-- és infinitamente mais estranho.
(Orides Fontela)
Se vens a uma terra estranha
curva-te
se este lugar é esquisito
curva-te
se o dia é todo estranheza
submete-te
-- és infinitamente mais estranho.
22 de fevereiro de 2013
no cais
sou labirinto obscuro. o caos que se mostra é menos que o
desenho perdido de um mapa – dos inencontráveis. mapa. no mapa, nada de cidades
rotas ruas estradas geografias relevos caminhos nada. nem do labirinto qualquer
sinal. no mapa brilham faróis. um intrincado de luzes intermitentes em um emaranhado
de pétalas em uma rosa – murcha. nós. e um mapa do tempo. o tempo, esta escuridão.
21 de fevereiro de 2013
15 de fevereiro de 2013
work in progress
quando
sei quem já não sou mas ainda não sei quem serei, junto farinha, fermento, sal. amasso. asso. perfume de pão pela casa. a vida pulsa.
pouco a pouco eu chego.
6 de fevereiro de 2013
4 de fevereiro de 2013
água
como um navio se afasta
sem ancorar
de um porto mal vislumbrado:
o todo que sou:
o medo e o medo
do que ainda não
sou mesmo sabendo
que me espera dentro de mim
me espreita mesmo
que eu não queira
o tigre e sua sede
o cão e sua sede
o rato
o medo que de mim mesma – porto –
trago por dentro
ancorada que estou
*
*
*
sem ancorar
de um porto mal vislumbrado:
o todo que sou:
o medo e o medo
do que ainda não
sou mesmo sabendo
que me espera dentro de mim
me espreita mesmo
que eu não queira
o tigre e sua sede
o cão e sua sede
o rato
o medo que de mim mesma – porto –
trago por dentro
ancorada que estou
*
com un vaixell
s’allunya
sense ancorar
d’un port mal
entrevist:
el tot que sóc:
la por i la por
del que encara
no
sóc tot i
sabent
que m’espera
dins meu
m’aguaita tot i
que jo no
vulgui
el tigre i la
seua set
el gos i la
seua set
la rata
la por que de
mi mateixa – port –
porto per dins
ancorada que
estic
[Traducció: Joan Navarro]
como un navío se aleja
sin ancorar
de un puerto mal vislumbrado:
el todo que soy:
el miedo y el miedo
de lo que todavía no
soy asimismo sabiendo
que me espera dentro de mí
me acecha aunque
yo no quiera
el tigre y su sed
el perro y su sed
la rata
el miedo que de mi misma – puerto –
traigo por dentro
ancorada que estoy
[Traducción: Joan Navarro]
mint egy hajó ahogy elhagyja
horgony nélkül
egy alig meg pillantott kikötőt:
az egész ami vagyok:
a félelem és
a félelem
attól, ami még nem
is
vagyok még ha tudom is
hogy vár bennem
leselkedik belőlem még ha
nem is szeretném
a tigris és
a szomjúsága
az eb és a szomjúsága
az egér
a félelem amit
saját magamtól – kikötő–
hozok belülről
lehorgonyozva ahogy vagyok
[lefordítás: skrabák-paulics petra és paulics veronika]
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