16 de julho de 2013
no tempo, o amargo é um caule rugoso
em frente a la aljafería de zaragoza, as oliveiras. colher os frutos.
experimentar o amargo. a consistência e a cor. é novembro. guardá-los no bolso. conhecer pep e norma e descobrir como se prepara, como se curte. por um mês, submergidas em água trocada a cada
dia, trinta bolinhas roxas esperam. passou o natal. passou o ano novo.
jogar fora a água pela penúltima vez e cobri-las com uma
salmoura já fria, temperos, ervas. um certo instinto de mãos. esperar janeiro. viajar. esperar
fevereiro. o calor. esperar março. a páscoa. esperar abril. então
maio. e junho. julho e se passaram oito meses. elas estão boas, muito boas.
atravessaram águas, existem como árvores. na delicadeza, são quase sementes de pedras. se.
15 de julho de 2013
26 de junho de 2013
14 de junho de 2013
montanha e mar
(os dois extremos, irreconciliáveis como a água e o fogo: a montanha pura e que esconde entre suas dobras os caminhos da libertação / o mar impuro e sem caminhos; o espaço da definição / o espaço da indefinição: a montanha e sua ondulação petrificada: a permanência / o mar e suas montanhas instáveis: o movimento e suas miragens; a montanha feita à imagem do ser, manifestação sensível do princípio de identidade, imóvel como uma tautologia / o mar que se contradiz sem cessar, o mar crítico do ser e de si mesmo)
octavio paz, o mono gramático
(tradução: lenora de barros e josé simão)
7 de junho de 2013
3 de junho de 2013
exercícios de aprender a viver
eu dizia não chore.
depois: ao falar para multidões lembre-se
também do seu pé sobre a face da terra.
ou pense no que somos todos, tubos de fazer
bosta.
quando for, bata o pó. deixe água em seu
lugar.
eu também dizia não demore.
e eu também me dizia não chore.
e eu também me alertava sobre o pé, o pó, a
bosta.
sobre a água que ficaria no meu lugar.
quando o
cachorro late, late e seus olhos amarelos me olham muito de perto, a
natureza humana se dilui na multidão viva que como uma crosta cobre a terra
ferida.
e eu digo não chore, não chore agora.
não chore
depois.
22 de maio de 2013
20 de maio de 2013
17 de maio de 2013
o cavalo do bandido
um figurante que aparece longe, desfocado, limpando as cacas do cavalo do bandido escreve para me contar que o universo não é infinito, que a quantidade de matéria e energia mantém-se desde a tal grande explosão primeira e que nada, nada se cria a si mesmo - delicadamente ele me lembra que tudo isso já se sabe há algum tempo - e esse figurante também me diz que as galáxias que vemos podem ser reflexos, apenas, e que o universo curvo permite à luz encurvar-se e passar por nós uma e outra vez, e ainda vir a ver-nos bilhões de anos depois, quando na verdade nós já nem estaremos, e todos pensaremos veja, esta luz, nem parece a mesma, como não parecem as mesmas as partículas que desaparecem aqui e aparecem ali e outras que nem se sabem ondas ou partículas. tudo isso para que ele possa, por fim, se dizer quase satisfeito em ser existente nesta escala nada, que vai do tamanho mínimo do átomo ao tamanho indefinido do espaço. e é o quase, este, que o livra de um harakiri.
(inspirado em mensagem de álvaro vianna)
(inspirado em mensagem de álvaro vianna)
14 de maio de 2013
7 de maio de 2013
estrelando
li – onde foi que eu li? – que a vida é mais
tranquila se a
gente se pensa dentro de um filme sobre a gente mesmo. como somos
muitos, somos
muitos filmes projetados em muitas telas simultaneamente. no meu filme,
sou eu
o personagem principal. meus medos, alegrias, aflições, descobertas,
raivas,
tristezas. minha noite, minha véspera, meu dia seguinte, minha memória. a
trilha musical, inclusive, minha. no filme do outro, de qualquer outro,
sou só
um figurante, aquele que passa de relance com a camiseta da cor exata.
no filme do cara que cruzo na rua ou da mulher que compra peixe na feira ou do companheiro ou do filho ou do meu gato ou da árvore, da
mãe, do pai, do planeta,
do cão, da tempestade, nesses filmes sou só figurante. quando muito, com
muito
esforço e só por um tempo tempinho, chegarei a ser coadjuvante. com
muito
talento, um bom coadjuvante.
na verdade não sei se a vida fica mais tranquila. talvez seja
outra coisa: essa ideia ajuda a cavar mais pequenos silêncios no dia. e ser
coadjuvante de silêncios. figurante, antes.
2 de maio de 2013
exercícios
foto: adauto araujo
Às vezes me apareces à memória
como uma cidade vista desde o mar:
com a ânsia de aportar aí
ou como o mar visto entre as ruas de uma cidade:
com a ânsia de banhar-me aí.
Às vezes a sua lembrança cresce em mim
como uma cidade que derruba as muralhas
e as novas ruas que se cruzam
dizem o teu nome
e o meu.
Às vezes me esqueço que te foste
e falo contigo como um semáforo
que muda de cores
numa rua deserta.
Às vezes tenho claro
que o único lugar onde pude viver sem o mar
foi o teu corpo.
Às vezes te esqueço
como uma cidade que de noite
não vê o seu mar negro.
E tu também vais me esquecendo
como um porto cada dia com menos navios
com menos mar a cada dia.
manuel forcano - llei d´estrangeria
tradução: veronika paulics
o original, em catalão:
com una ciutat vista des del mar:
amb l´ánsia d´arribar-hi,
o com el mar vist entre els carrers d´una ciutat:
amb l´ánsia de banyar-m´hi.
De vegades el teu record creix en mi
com una ciutat que enderroca les murrales
i els nous carrers que es creuen
duen el teu nom
i el meu.
De vegades oblido que vas anar-te´n
i et parlo com un semàfor
que canvia de colors
en un carrer desert.
De vegades sóc conscient
que l´unic lloc on vaig poder viure sense el mar
va ser el teu cos.
De vegades t´oblido
com una ciutat que de nit
no veu el seu mar negre.
I tu també em vas oblidant
com un port cada dia amb menys vaixells,
amb menys mar cada dia.
16 de abril de 2013
12 de abril de 2013
8 de abril de 2013
21 de março de 2013
atravessar limpo o ar da manhã
"Era uma loja onde se penhoravam lembranças. Eu sabia
desde o início o que queria, mas apesar disso, para evitar qualquer
precipitação, perguntei por um dos objetos que estavam expostos. Era uma
lembrança guardada no fundo das estantes à esquerda. Podia-se ler o timbre no
cartãozinho lacrado que se sobressaía: J. M. H. 1952. Não sei por que me chamou
a atenção. Ah, esse!, me disse o empregado, é um dos depósitos mais antigos que
temos, senhor, sua proprietária por certo já faleceu, e ninguém pôde ou nem quis
recuperá-lo. São lembranças de sua infância em Sidi Ifni. Lembranças
provavelmente filtradas pela nostalgia, mas muito bonitas, eu lhe asseguro.
Perguntei a ele o preço, mas ele me respondeu com uma amável evasiva. Seu preço
está dentro do razoável, me disse. Se tiver interesse é só uma questão de
conversarmos, estou certo de que chegaremos a um acordo satisfatório. As
lembranças, ele acrescentou, se deterioram com o tempo ou pelo menos se
transformam, sabe? Estão aqui, aparentemente imóveis, fora da cabeça de seus
donos, mas pouco a pouco se transformam, se refinam, poderíamos dizer. Com eles
acontece praticamente o mesmo que acontece com as lembranças que temos em nossa
memória. Isso lhes dá uma beleza particular, como se fossem vivas destilações
do tempo. Me interessei pelo grupo de lembranças que estava absolutamente
ordenado em uma cristaleira, envoltos em papel verde com sua etiqueta
correspondente também lacrada. Refere-se a esses daí?, me disse. São
alucinações. Mas não pense que admitimos todas, imagine. Só aquelas que são
realmente extraordinárias.
Visões desmesuradas da realidade, algumas, autênticas
deformações, quase monstruosas. Não é fácil encontrar gente que se desprenda delas.
Os proprietários de alucinações verdadeiramente intensas têm muito apego a esse
tipo de pensamento. Para nós, têm muito valor e são muito solicitadas. Também
os sonhos. Estão bem ao lado das alucinações nesta outra cristaleira. São os
dois tipos de lembranças mais valiosas que temos aqui e que as pessoas mais
apreciam. Temos uma clientela muito seleta de compradores de alucinações e
sonhos.
Tive vontade de interrompê-lo para explicar o propósito que
me havia levado até ali, mas me contive e assim lhe dei corda para que me
mostrasse a série de lembranças que estavam colocadas nas prateleiras da
frente. Aqui o senhor encontra histórias de amor e desamor. São lembranças de
amor e desamor em geral, o que poderíamos chamar de paixões. Alguns episódios
têm, desde o ponto de vista comercial, uma saída aceitável e chegam a despertar
certo interesse, mas, sendo sincero, em sua maioria são histórias de uma enorme
vulgaridade. Veja as etiquetas. Ali estava grande parte da escala dos
comportamentos amorosos. A entomologia do sentimentalismo, pensei.
Pareceu se animar quando me apontou um grupo de lembranças
que se destacava do resto, pela sua quantidade. Estes, disse, mostrando as
prateleiras superiores, são muito peculiares e também muito apreciados por
nossos clientes. São viagens. Viagens aos lugares mais inesperados do planeta,
lembranças de aventuras cheias de riscos e vicissitudes. Algumas são autênticas
provas de heroísmo, acredite-me, realizadas por pessoas comuns. Mas nem todas
são proezas de muita ousadia, claro. Também há lembranças de travessias
plácidas e paisagens muito bonitas, lhe asseguro. E não só a lugares
desconhecidos, há lembranças de viagens dentro da própria cidade que
surpreendem por sua ternura e complexidade. Me deu a impressão de que exagerava,
mas talvez realmente gostasse de falar das lembranças que guardava entre
aquelas quatro paredes. Continuou. Também há paisagens de solidão e multidão.
Fez um gesto de me convidar para passarmos a uma sala contígua, para seguir me explicando o resto da coleção. Não consegui entender se ele era o proprietário do estabelecimento ou um simples empregado. Sem dúvida, era uma pessoa sensível, conhecedora de seu ofício. Me explicou que tinham uma amplíssima variedade de lembranças sobre conversas, muitas das quais verdadeiras joias, e outra coleção ampla sobre a morte. O senhor deveria vê-las mais detidamente porque abarcam uma gama muito extensa...
Dei a entender que já era suficiente o que havia visto e demos por concluída a visita. Virou-se um tanto cerimoniosamente, e me perguntou. O senhor sabe o que busca exatamente ou o que é que nos oferece e veremos em que medida podemos ajudá-lo? Aqui tem, de todo modo, nosso catálogo, onde apresentamos a totalidade dos produtos disponíveis, e que atualizamos periodicamente. Fora de catálogo temos... Voltei a interrompê-lo, talvez de uma maneira um pouco abrupta, e lhe disse: Não quero comprar nada. O senhor foi muito amável ao me explicar tudo o que há na loja, com tanto detalhe. Eu quero penhorar todas as minhas lembranças. Absolutamente todas. Não importa quanto me paguem.
Fez um gesto de me convidar para passarmos a uma sala contígua, para seguir me explicando o resto da coleção. Não consegui entender se ele era o proprietário do estabelecimento ou um simples empregado. Sem dúvida, era uma pessoa sensível, conhecedora de seu ofício. Me explicou que tinham uma amplíssima variedade de lembranças sobre conversas, muitas das quais verdadeiras joias, e outra coleção ampla sobre a morte. O senhor deveria vê-las mais detidamente porque abarcam uma gama muito extensa...
Dei a entender que já era suficiente o que havia visto e demos por concluída a visita. Virou-se um tanto cerimoniosamente, e me perguntou. O senhor sabe o que busca exatamente ou o que é que nos oferece e veremos em que medida podemos ajudá-lo? Aqui tem, de todo modo, nosso catálogo, onde apresentamos a totalidade dos produtos disponíveis, e que atualizamos periodicamente. Fora de catálogo temos... Voltei a interrompê-lo, talvez de uma maneira um pouco abrupta, e lhe disse: Não quero comprar nada. O senhor foi muito amável ao me explicar tudo o que há na loja, com tanto detalhe. Eu quero penhorar todas as minhas lembranças. Absolutamente todas. Não importa quanto me paguem.
Então me respondeu um tanto surpreendido, perdendo
momentaneamente a compostura: todas, todas, ele repetia, aqui não há lembranças
de vidas completas, somente fragmentos de memória. As pessoas não se desprendem
nunca da totalidade de suas lembranças, senhor. Assim me coloca numa situação
muito incômoda, deveria pensar melhor em tudo isso. O senhor perderia sua
identidade, não se lembraria quem é, nem onde vive. Além disso, enquanto durar
o depósito, estas lembranças são nossas e desaparecem de sua mente. Se alguém
as compra, o senhor só poderá recuperar o dinheiro, mas não as lembranças.
Então eu lhe disse o que realmente pensava desde o princípio, antes mesmo de
por os pés naquela casa de penhores.
O que eu quero é começar uma vida sem lembranças. Quero atravessar limpo o ar da manhã, me entende? Ver as coisas, todas as coisas, pela primeira vez."
O que eu quero é começar uma vida sem lembranças. Quero atravessar limpo o ar da manhã, me entende? Ver as coisas, todas as coisas, pela primeira vez."
(Juan Yanes, escritor das Ilhas Canárias, tem dois blogues
intensos: maquina de coser palabras,
de onde traduzi este texto, e el
oscuro borde de la luz em sua terceira edição.)
20 de março de 2013
no vento que vem dos desertos
Khamsin
... Hoje está um dia de ventanias: é a época do chamado khamsin, um vento que vem do deserto carregado de areia depois de ter varrido a Arábia com fúria. Invade irado o Egito e chega ao Cairo naufragando a cidade em uma imensa nuvem arenosa. Se despenteiam as palmeiras, o Nilo fica lamacento e muda de cor, o ar fica espesso, os pássaros sem respirar. Dos terraços caem antenas, roupa estendida, grades. Da terra se levantam redemoinhos de pó que invadem as ruas e dificultam o caminhar. A areia finíssima está por todo lado: no mastigar, no entre a roupa, dentro da cama, na geladeira. Chega misteriosamente. Uma rajada me folheou os livros abertos sobre a mesa. Graças a isso descobri uns versos de amor escritos pelo divino Platão quando era jovem: “Tinha aos lábios a minha alma e quando a beijei, a infeliz entrou nos seus como para fugir”. Agora mesmo tranquei as portas para evitar que as rajadas arrebentem os vidros, e antes de me fechar na penumbra do quarto, vi voando umas calças pelo ar... É o khamsin. Basta ter paciência e esperar que em mais cinco ou seis dias se desencalhe e siga avançando em direção ao ventre mudo do deserto líbio. Saí para tomar um chá no grande bazar com um amigo. Queria lhe falar dos versos de Platão. Pela rua todos correm empoeirados a proteger muito bem os olhos, a boca, as orelhas. Também eu tive que lutar contra o vento entre papéis, bolsas e nuvens desordenadas de areia. Um galho de acácia me chicoteou a cara. Por sorte estava toda florida. E assim chegou aqui a primavera...
(Manuel Forcano - Llei d´estrangeria)
o original, em catalão:
... Avui fa um dia ventós: és l´època de l´anomenat khamsin, un vent del desert que ve carregat de sorra després d´haver escombrat l´Aràbia amb fúria. Envaeix Egipte irat i arriba al Caire enfonsant la ciutat en un núvol immens d´arena. Es despentinen totes les palmeres, el Nil s´enfanga i muda la color, l´aire s´espesseix, s´alatrenquen els ocells. Dels terrats cauen antenes, roba estesa, baranes. Del terra s´aixequen remolins de pols que escombren els carrers i fan difícil caminar-hi. L´arena finíssima se´t fica pertot: la mastegues, la sents entre la roba, dins el llit, a la nevera. Misteriosament hi arriba. Una ràfega m´ha fullejat els llibres oberts damunt la taula. Gracies a això he descobert uns versos d´amor escrits pel diví Plató quan era jove: ¨Tenia als llavis la meva anima, i quan el vaig besar, la dissortada va entrar als seus com per fugir¨. Ara mateix he tancat els porticons per evitar que més ràfegues m´esbotzin els vidres, i abans no m´he clos en la penombra de la cambra he vist volant per l´aire uns pantalons... És el khamsin. Nomes cal tenir paciència i esperar que en cinc o sis dies més es desencalli i segueix avançant cap al ventre mut del desert libi. He sortit per anar a prendre un te al gran basar amb um amic. Volia comentar-li els versos de Plató. Pel carrer tothom corre empolsinat i protegint-se amb força els ulls, la boca, les orelles. Jo també m´he hagut de barallar amb el vent entre papers, bosses i núvols desendreçats de sorra. Una branca sacsejada d´una acàcia m´ha fuetejat la cara. Encara sort que era florida. Així ha arribat aquí la primavera...
... Hoje está um dia de ventanias: é a época do chamado khamsin, um vento que vem do deserto carregado de areia depois de ter varrido a Arábia com fúria. Invade irado o Egito e chega ao Cairo naufragando a cidade em uma imensa nuvem arenosa. Se despenteiam as palmeiras, o Nilo fica lamacento e muda de cor, o ar fica espesso, os pássaros sem respirar. Dos terraços caem antenas, roupa estendida, grades. Da terra se levantam redemoinhos de pó que invadem as ruas e dificultam o caminhar. A areia finíssima está por todo lado: no mastigar, no entre a roupa, dentro da cama, na geladeira. Chega misteriosamente. Uma rajada me folheou os livros abertos sobre a mesa. Graças a isso descobri uns versos de amor escritos pelo divino Platão quando era jovem: “Tinha aos lábios a minha alma e quando a beijei, a infeliz entrou nos seus como para fugir”. Agora mesmo tranquei as portas para evitar que as rajadas arrebentem os vidros, e antes de me fechar na penumbra do quarto, vi voando umas calças pelo ar... É o khamsin. Basta ter paciência e esperar que em mais cinco ou seis dias se desencalhe e siga avançando em direção ao ventre mudo do deserto líbio. Saí para tomar um chá no grande bazar com um amigo. Queria lhe falar dos versos de Platão. Pela rua todos correm empoeirados a proteger muito bem os olhos, a boca, as orelhas. Também eu tive que lutar contra o vento entre papéis, bolsas e nuvens desordenadas de areia. Um galho de acácia me chicoteou a cara. Por sorte estava toda florida. E assim chegou aqui a primavera...
(Manuel Forcano - Llei d´estrangeria)
o original, em catalão:
... Avui fa um dia ventós: és l´època de l´anomenat khamsin, un vent del desert que ve carregat de sorra després d´haver escombrat l´Aràbia amb fúria. Envaeix Egipte irat i arriba al Caire enfonsant la ciutat en un núvol immens d´arena. Es despentinen totes les palmeres, el Nil s´enfanga i muda la color, l´aire s´espesseix, s´alatrenquen els ocells. Dels terrats cauen antenes, roba estesa, baranes. Del terra s´aixequen remolins de pols que escombren els carrers i fan difícil caminar-hi. L´arena finíssima se´t fica pertot: la mastegues, la sents entre la roba, dins el llit, a la nevera. Misteriosament hi arriba. Una ràfega m´ha fullejat els llibres oberts damunt la taula. Gracies a això he descobert uns versos d´amor escrits pel diví Plató quan era jove: ¨Tenia als llavis la meva anima, i quan el vaig besar, la dissortada va entrar als seus com per fugir¨. Ara mateix he tancat els porticons per evitar que més ràfegues m´esbotzin els vidres, i abans no m´he clos en la penombra de la cambra he vist volant per l´aire uns pantalons... És el khamsin. Nomes cal tenir paciència i esperar que en cinc o sis dies més es desencalli i segueix avançant cap al ventre mut del desert libi. He sortit per anar a prendre un te al gran basar amb um amic. Volia comentar-li els versos de Plató. Pel carrer tothom corre empolsinat i protegint-se amb força els ulls, la boca, les orelles. Jo també m´he hagut de barallar amb el vent entre papers, bosses i núvols desendreçats de sorra. Una branca sacsejada d´una acàcia m´ha fuetejat la cara. Encara sort que era florida. Així ha arribat aquí la primavera...
19 de março de 2013
14 de março de 2013
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