26 de agosto de 2013

um redondo e sonoro "ah!"

Era uma vez um homem que um dia decidiu ser escritor. E o leitor pergunta: “Que homem, exactamente?” E eu respondo: “Um homenzinho pequeno, sólido, na casa dos quarenta, com óculos de lentes grossas, dessas que tornam os olhos muito pequenos e distantes, e uma cabeça em forma de pêra, a alongar-se para o céu e a ameaçar desprender-se do corpo a qualquer momento.” E o leitor pergunta: "Em que dia precisamente decidiu ser escritor?" E eu respondo: "Precisamente no dia 28 de Julho."
Pois bem, o homem dedicou-se então a inventar uma técnica que lhe permitisse cumprir esse desejo sem grande esforço. Colocou as mãos nas têmporas, adoptou o ar meditativo de um sábio alemão (jamais esquecerei o seu ar meditativo de sábio alemão) e, duma só vez, inventou várias técnicas. A mais simples consistia em engolir grandes quantidades de palavras até soltar um redondo e sonoro "Ah!" de satisfação.
O homem recolhia esse “Ah!” e colocava-o entre as páginas de um caderno em branco. Em pouco tempo o “Ah!” transformava-se, secretamente, numa história.
E o leitor, fazendo uma pregazinha irónica com a boca, pergunta: “Mas como se passava a coisa, objectivamente?” E eu respondo, tirando dos lábios o resto de uma beata: “Objectivamente, ninguém sabe como a coisa se passava. E embora não seja muito experiente nesta matéria nem tenha a pretensão de a esgotar por completo, o que me parece é que as histórias cresciam a partir desse ‘Ah!’ como uma semente e o seu rebento. A palavrinha crescia e transformava-se numa longa e maravilhosa história.”
E eu pergunto: “A coisa passar-se-ia realmente assim?” E eu respondo: “Por um lado, talvez sim, por outro, talvez não. Mas é provável que não.”


(rui manuel amaral, daqui)

21 de agosto de 2013

herbig-haro 46/47



leio que a mil e quatrocentos anos-luz da terra, na constelação vela do hemisfério sul, uma estrela que está acabando de se formar dispara jatos de gás que alcançam velocidades de até um milhão de quilômetros por hora e brilham ao chocar com o gás do seu entorno, e penso que tudo isso, todas estas cores no universo distante, foi mesmo há mil e quatrocentos anos num lugar que nem sei onde, porque por mais que olhe o céu ou a terra e tente entender, não entendo, não reconheço as constelações mais banais, quero dizer reconheço as três marias, o cruzeiro do sul e outro dia ainda vi a cauda de escorpião­, mas não muito mais do que isso, no céu didaticamente escuro em um praia sem luz. meus avós também devem ter estranhado as constelações deste hemisfério, talvez sem nunca saberem embora pudessem intuir que as estrelas nascem e morrem e que há buracos negros e que o universo se dobra sobre si mesmo como quando sentimos uma dor muito forte no estômago, ou quando o sono é tanto que não conseguimos dormir, ou quando um pesadelo nos desperta olhos em lágrimas, ou quando quando quando. como cada um de nós se dobra universo sobre si mesmo, fazendo-se ponto, estrela, buraco negro, fazendo-se uma absurda interrogação.

13 de agosto de 2013

mistério óptico



aos vinte, era insuportável e não sabia esperar a noite das bruxas.
achava a poesia inútil para a pobreza do mundo.
hoje, espero cada noite, que me espera porque também sou bruxa. e como as bruxas, não corto cabelos nem pinto unhas. e ninguém tem nada com isso.
continuo achando a poesia inútil e por isso mesmo tão capaz de reduzir a pobreza do mundo como rosas que se abrem em tardes de chuvas.
quando me dizem: veja, é só um ponto, exercito um aproximar, um olhar bem de perto aquilo, aquele um ponto. sabê-lo orifício mínimo artifício óptico por onde a luz brinca quando do outro lado é luz, por onde a luz brinca quando do outro lado é escuro. o outro lado pode ser luz, o outro lado pode não ser.
toda poesia é um ponto. todo jardim, chuva. toda noite, bruxas.
a luz inverte os caminhos. os pontos.

16 de julho de 2013

no tempo, o amargo é um caule rugoso

em frente a la aljafería de zaragoza, as oliveiras. colher os frutos. experimentar o amargo. a consistência e a cor. é novembro. guardá-los no bolso. conhecer pep e norma e descobrir como se prepara, como se curte. por um mês, submergidas em água trocada a cada dia, trinta bolinhas roxas esperam. passou o natal. passou o ano novo. jogar fora a água pela penúltima vez e cobri-las com uma salmoura já fria, temperos, ervas. um certo instinto de mãos. esperar janeiro. viajar. esperar fevereiro. o calor. esperar março. a páscoa. esperar abril. então maio. e junho. julho e se passaram oito meses. elas estão boas, muito boas. atravessaram águas, existem como árvores. na delicadeza, são quase sementes de pedras. se.

14 de junho de 2013

montanha e mar


(os dois extremos, irreconciliáveis como a água e o fogo:  a montanha  pura e que esconde entre suas dobras os caminhos da libertação / o mar impuro e sem caminhos; o espaço da definição / o espaço da indefinição:  a montanha e sua ondulação petrificada: a permanência / o mar e suas montanhas instáveis: o movimento e suas miragens; a montanha feita à imagem do ser, manifestação sensível do princípio de identidade, imóvel como uma tautologia / o mar que se contradiz sem cessar, o mar crítico do ser e de si mesmo)

octavio paz, o mono gramático
(tradução: lenora de barros e josé simão)

3 de junho de 2013

exercícios de aprender a viver



eu dizia não chore.
depois: ao falar para multidões lembre-se também do seu pé sobre a face da terra.
ou pense no que somos todos, tubos de fazer bosta.
quando for, bata o pó. deixe água em seu lugar.
eu também dizia não demore.

e eu também me dizia não chore.
e eu também me alertava sobre o pé, o pó, a bosta.
sobre a água que ficaria no meu lugar.
quando o  cachorro late, late e seus olhos amarelos me olham muito de perto, a natureza humana se dilui na multidão viva que como uma crosta cobre a terra ferida.
e eu digo não chore, não chore agora.
não chore depois.

17 de maio de 2013

o cavalo do bandido

um figurante que aparece longe, desfocado, limpando as cacas do cavalo do bandido escreve para me contar que o universo não é infinito, que a quantidade de matéria e energia mantém-se desde a tal grande explosão primeira e que nada, nada se cria a si mesmo - delicadamente ele me lembra que tudo isso já se sabe há algum tempo - e esse figurante também me diz que as galáxias que vemos podem ser reflexos, apenas, e que o universo curvo permite à luz encurvar-se e passar por nós uma e outra vez, e ainda vir a ver-nos bilhões de anos depois, quando na verdade nós já nem estaremos, e todos pensaremos veja, esta luz, nem parece a mesma, como não parecem as mesmas as partículas que desaparecem aqui e aparecem ali e outras que nem se sabem ondas ou partículas. tudo isso para que ele possa, por fim, se dizer quase satisfeito em ser existente nesta escala nada, que vai do tamanho mínimo do átomo ao tamanho indefinido do espaço. e é o quase, este, que o livra de um harakiri.

(inspirado em mensagem de álvaro vianna)

7 de maio de 2013

estrelando


li – onde foi que eu li? – que a vida é mais tranquila se a gente se pensa dentro de um filme sobre a gente mesmo. como somos muitos, somos muitos filmes projetados em muitas telas simultaneamente. no meu filme, sou eu o personagem principal. meus medos, alegrias, aflições, descobertas, raivas, tristezas. minha noite, minha véspera, meu dia seguinte, minha memória. a trilha musical, inclusive, minha. no filme do outro, de qualquer outro, sou só um figurante, aquele que passa de relance com a camiseta da cor exata. no filme do cara que cruzo na rua ou da mulher que compra peixe na feira ou do companheiro ou do filho ou do meu gato ou da árvore, da mãe, do pai, do planeta, do cão, da tempestade, nesses filmes sou só figurante. quando muito, com muito esforço e só por um tempo tempinho, chegarei a ser coadjuvante. com muito talento, um bom coadjuvante. 
na verdade não sei se a vida fica mais tranquila. talvez seja outra coisa: essa ideia ajuda a cavar mais pequenos silêncios no dia. e ser coadjuvante de silêncios. figurante, antes.

2 de maio de 2013

exercícios

foto: adauto araujo


Às vezes me apareces à memória
como uma cidade vista desde o mar:
com a ânsia de aportar aí
ou como o mar visto entre as ruas de uma cidade:
com a ânsia de banhar-me aí.

Às vezes a sua lembrança cresce em mim
como uma cidade que derruba as muralhas
e as novas ruas que se cruzam
dizem o teu nome
e o meu.

Às vezes me esqueço que te foste
e falo contigo como um semáforo
que muda de cores
numa rua deserta.

Às vezes tenho claro
que o único lugar onde pude viver sem o mar
foi o teu corpo.

Às vezes te esqueço
como uma cidade que de noite
não vê o seu mar negro.

E tu também vais me esquecendo
como um porto cada dia com menos navios
com menos mar a cada dia.


manuel forcano - llei d´estrangeria
tradução: veronika paulics


o original, em catalão:

De vegades m´apareixes a la memória
com una ciutat vista des del mar:
amb l´ánsia d´arribar-hi,
o com el mar vist entre els carrers d´una ciutat:
amb l´ánsia de banyar-m´hi.

De vegades el teu record creix en mi
com una ciutat que enderroca les murrales
i els nous carrers que es creuen
duen el teu nom
i el meu.

De vegades oblido que vas anar-te´n
i et parlo com un semàfor
que canvia de colors
en un carrer desert.

De vegades sóc conscient
que l´unic lloc on vaig poder viure sense el mar
va ser el teu cos.

De vegades t´oblido
com una ciutat que de nit
no veu el seu mar negre.

I tu també em vas oblidant
com un port cada dia amb menys vaixells,
amb menys mar cada dia.