30 de agosto de 2013

quando



Quando a criança era criança

Quando a criança era criança,
caminhava balançando os braços,
queria que o riacho fosse um rio,
o rio uma torrente
e que essa poça fosse o mar.
Quando a criança era criança,
não sabia que era criança,
tudo lhe parecia ter alma,
e todas as almas eram uma.
Quando a criança era criança,
não tinha opinião a respeito de nada,
 não tinha nenhum costume,
sentava-se sempre de pernas cruzadas,
saía correndo,
tinha um redemoinho no cabelo
e não fazia caretas pras fotografias.
Quando a criança era criança
era a época destas perguntas:
Por que eu sou eu e não você?
Por que estou aqui, e por que não lá?
Quando foi que o tempo começou, e onde é que o espaço termina?
Um lugar na vida sob o sol não é apenas um sonho?
Aquilo que eu vejo e ouço e cheiro
não é só a aparência de um mundo diante de um mundo?
Existe de fato o Mal e as pessoas realmente más?
Como pode ser que eu, que sou eu,
antes de ser eu mesmo não era eu,
e que algum dia, eu, que sou eu, não serei mais quem eu sou?
Quando a criança era criança,
mastigava espinafre, ervilhas, bolinhos de arroz, e couve-flor cozida,
e comia tudo isto não somente porque precisava comer.
Quando a criança era criança,
uma vez acordou numa cama estranha,
e agora faz isso de novo e de novo.
Muitas pessoas, então, pareciam lindas
e agora só algumas parecem, com alguma sorte.
Visualizava uma clara imagem do Paraíso,
e agora no máximo consegue imaginá-lo,
não podia conceber o vazio absoluto,
que hoje estremece no seu pensamento.
Quando a criança era criança,
brincava com entusiasmo,
e agora tem tanta excitação como tinha,
mas só quando pensa em trabalho.
Quando a criança era criança,
era suficiente comer uma maçã, uma laranja, pão,
E agora é a mesma coisa.
Quando criança era criança,
amoras enchiam sua mão como somente as amoras conseguem,
e também fazem agora, nozes frescas machucavam sua língua,
parecido com o que fazem agora,
tinha, em cada cume de montanha, a busca por uma montanha ainda mais alta,
e em cada cidade, a busca por uma cidade ainda maior,
e ainda é assim,
alcançava cerejas nos galhos mais altos das árvores como, com algum orgulho,
ainda consegue fazer hoje,
tinha uma timidez diante de estranhos,
como ainda tem.
Esperava a primeira neve,
como ainda espera até agora.
Quando a criança era criança,
arremessou um bastão como se fosse uma lança contra uma árvore,
e ela ainda está lá, balançando, até hoje.

Peter Handke
(não sei de quem é a tradução)

o original, em alemão:



Als das Kind Kind war,
ging es mit hängenden Armen,
wollte der Bach sei ein Fluß,
der Fluß sei ein Strom,
und diese Pfütze das Meer.

Als das Kind Kind war,
wußte es nicht, daß es Kind war,
alles war ihm beseelt,
und alle Seelen waren eins.
Als das Kind Kind war,
hatte es von nichts eine Meinung,
hatte keine Gewohnheit,
saß oft im Schneidersitz,
lief aus dem Stand,
hatte einen Wirbel im Haar
und machte kein Gesicht beim fotografieren.
Als das Kind Kind war,
war es die Zeit der folgenden Fragen:
Warum bin ich ich und warum nicht du?
Warum bin ich hier und warum nicht dort?
Wann begann die Zeit und wo endet der Raum?
Ist das Leben unter der Sonne nicht bloß ein Traum?
Ist was ich sehe und höre und rieche
nicht bloß der Schein einer Welt vor der Welt?
Gibt es tatsächlich das Böse und Leute,
die wirklich die Bösen sind?
Wie kann es sein, daß ich, der ich bin,
bevor ich wurde, nicht war,
und daß einmal ich, der ich bin,
nicht mehr der ich bin, sein werde?
Als das Kind Kind war,
würgte es am Spinat, an den Erbsen, am Milchreis,
und am gedünsteten Blumenkohl.
und ißt jetzt das alles und nicht nur zur Not.
Als das Kind Kind war,
erwachte es einmal in einem fremden Bett
und jetzt immer wieder,
erschienen ihm viele Menschen schön
und jetzt nur noch im Glücksfall,
stellte es sich klar ein Paradies vor
und kann es jetzt höchstens ahnen,
konnte es sich Nichts nicht denken
und schaudert heute davor.
Als das Kind Kind war,
spielte es mit Begeisterung
und jetzt, so ganz bei der Sache wie damals, nur noch,
wenn diese Sache seine Arbeit ist.
Als das Kind Kind war,
genügten ihm als Nahrung Apfel, Brot,
und so ist es immer noch.
Als das Kind Kind war,
fielen ihm die Beeren wie nur Beeren in die Hand
und jetzt immer noch,
machten ihm die frischen Walnüsse eine rauhe Zunge
und jetzt immer noch,
hatte es auf jedem Berg
die Sehnsucht nach dem immer höheren Berg,
und in jeden Stadt
die Sehnsucht nach der noch größeren Stadt,
und das ist immer noch so,
griff im Wipfel eines Baums nach dem Kirschen in einem Hochgefühl
wie auch heute noch,
eine Scheu vor jedem Fremden
und hat sie immer noch,
wartete es auf den ersten Schnee,
und wartet so immer noch.
Als das Kind Kind war,
warf es einen Stock als Lanze gegen den Baum,
und sie zittert da heute noch.

29 de agosto de 2013

exercícios


História

Um incêndio florestal é quando um bosque queima.
O calor cai sobre as copas das árvores desde o céu austral:
pacotes de luz envolta em folhas
engolem árvores como as galinhas o estúpido grão.
Naquele instante as árvores estão acabadas
mas ninguém sabe ainda. Como uma porca tragando um punho.
A chama já crepita no bolso de uma camisa, em suas
dobras, e o dia é definitivamente mais brilhante.
Agora no horizonte, em sua espinha dorsal, em seu cabelos
há dois sóis, o maior fareja nesta escuridão.
Nada retém, não vai a lugar algum.
Sem reconciliação; só se acalma quando a fumaça se arrasta
até onde permanece o grão cego. Todas as coisas recobrarão o juízo;
tudo ao meu redor logo se tornará sol,
pensa o sol enquanto conecta os ramos ao ar.
Tronco abaixo fogem para a terra esquilos e serpentes.
O calor, sem saber seu próprio nome, baixa até uma realidade
suave e o tronco pulsa, pleno de pássaros
em uma mesma loucura . Agora do tronco salta uma fera.
Devora a casca e as copas por fim rompem a superfície.
Agora a árvore, em seu profundo silêncio, grasna.
Um outro dia aponta, ansioso demais por passar.
Depois o calor reduz a marcha. Encolhe-se, imperceptível,
entre as raízes, uma cerimônia perseguida até seus começos,
até a sábia juventude. Um desejo de si mesmo inunda o fogo.
Estende-se por entre as plantas altas como o amanhecer sobre o céu
escuro, uma saudação numa sala  lotada e vazia.
Lambe as folhas, lambe a casca, lambe a raiz, lambe
um pouco de tudo. Aproxima-se disso e daquilo.
ao alto ao baixo, primeiro rapidamente,
depois segue seu árduo trabalho. Agora tudo se sacode:
nada mais entre o ar e a terra permanece em pé.
Alguns animais se foram, outros ficaram
onde estavam. À sua volta o bosque inteiro se converte em algo
intangível, água termal que limpa e drena, uma
sujeira que foge, mas não desaparece, cerra fileiras.
E tudo está em algum lugar, tudo está em nenhum lugar, e tudo está iluminado.
Um incêndio florestal é quando um bosque queima. Um incêndio
é quando queima.

Marko Pogačar 
(tradução: veronika paulics)



26 de agosto de 2013

um redondo e sonoro "ah!"

Era uma vez um homem que um dia decidiu ser escritor. E o leitor pergunta: “Que homem, exactamente?” E eu respondo: “Um homenzinho pequeno, sólido, na casa dos quarenta, com óculos de lentes grossas, dessas que tornam os olhos muito pequenos e distantes, e uma cabeça em forma de pêra, a alongar-se para o céu e a ameaçar desprender-se do corpo a qualquer momento.” E o leitor pergunta: "Em que dia precisamente decidiu ser escritor?" E eu respondo: "Precisamente no dia 28 de Julho."
Pois bem, o homem dedicou-se então a inventar uma técnica que lhe permitisse cumprir esse desejo sem grande esforço. Colocou as mãos nas têmporas, adoptou o ar meditativo de um sábio alemão (jamais esquecerei o seu ar meditativo de sábio alemão) e, duma só vez, inventou várias técnicas. A mais simples consistia em engolir grandes quantidades de palavras até soltar um redondo e sonoro "Ah!" de satisfação.
O homem recolhia esse “Ah!” e colocava-o entre as páginas de um caderno em branco. Em pouco tempo o “Ah!” transformava-se, secretamente, numa história.
E o leitor, fazendo uma pregazinha irónica com a boca, pergunta: “Mas como se passava a coisa, objectivamente?” E eu respondo, tirando dos lábios o resto de uma beata: “Objectivamente, ninguém sabe como a coisa se passava. E embora não seja muito experiente nesta matéria nem tenha a pretensão de a esgotar por completo, o que me parece é que as histórias cresciam a partir desse ‘Ah!’ como uma semente e o seu rebento. A palavrinha crescia e transformava-se numa longa e maravilhosa história.”
E eu pergunto: “A coisa passar-se-ia realmente assim?” E eu respondo: “Por um lado, talvez sim, por outro, talvez não. Mas é provável que não.”


(rui manuel amaral, daqui)

21 de agosto de 2013

herbig-haro 46/47



leio que a mil e quatrocentos anos-luz da terra, na constelação vela do hemisfério sul, uma estrela que está acabando de se formar dispara jatos de gás que alcançam velocidades de até um milhão de quilômetros por hora e brilham ao chocar com o gás do seu entorno, e penso que tudo isso, todas estas cores no universo distante, foi mesmo há mil e quatrocentos anos num lugar que nem sei onde, porque por mais que olhe o céu ou a terra e tente entender, não entendo, não reconheço as constelações mais banais, quero dizer reconheço as três marias, o cruzeiro do sul e outro dia ainda vi a cauda de escorpião­, mas não muito mais do que isso, no céu didaticamente escuro em um praia sem luz. meus avós também devem ter estranhado as constelações deste hemisfério, talvez sem nunca saberem embora pudessem intuir que as estrelas nascem e morrem e que há buracos negros e que o universo se dobra sobre si mesmo como quando sentimos uma dor muito forte no estômago, ou quando o sono é tanto que não conseguimos dormir, ou quando um pesadelo nos desperta olhos em lágrimas, ou quando quando quando. como cada um de nós se dobra universo sobre si mesmo, fazendo-se ponto, estrela, buraco negro, fazendo-se uma absurda interrogação.

13 de agosto de 2013

mistério óptico



aos vinte, era insuportável e não sabia esperar a noite das bruxas.
achava a poesia inútil para a pobreza do mundo.
hoje, espero cada noite, que me espera porque também sou bruxa. e como as bruxas, não corto cabelos nem pinto unhas. e ninguém tem nada com isso.
continuo achando a poesia inútil e por isso mesmo tão capaz de reduzir a pobreza do mundo como rosas que se abrem em tardes de chuvas.
quando me dizem: veja, é só um ponto, exercito um aproximar, um olhar bem de perto aquilo, aquele um ponto. sabê-lo orifício mínimo artifício óptico por onde a luz brinca quando do outro lado é luz, por onde a luz brinca quando do outro lado é escuro. o outro lado pode ser luz, o outro lado pode não ser.
toda poesia é um ponto. todo jardim, chuva. toda noite, bruxas.
a luz inverte os caminhos. os pontos.

16 de julho de 2013

no tempo, o amargo é um caule rugoso

em frente a la aljafería de zaragoza, as oliveiras. colher os frutos. experimentar o amargo. a consistência e a cor. é novembro. guardá-los no bolso. conhecer pep e norma e descobrir como se prepara, como se curte. por um mês, submergidas em água trocada a cada dia, trinta bolinhas roxas esperam. passou o natal. passou o ano novo. jogar fora a água pela penúltima vez e cobri-las com uma salmoura já fria, temperos, ervas. um certo instinto de mãos. esperar janeiro. viajar. esperar fevereiro. o calor. esperar março. a páscoa. esperar abril. então maio. e junho. julho e se passaram oito meses. elas estão boas, muito boas. atravessaram águas, existem como árvores. na delicadeza, são quase sementes de pedras. se.

14 de junho de 2013

montanha e mar


(os dois extremos, irreconciliáveis como a água e o fogo:  a montanha  pura e que esconde entre suas dobras os caminhos da libertação / o mar impuro e sem caminhos; o espaço da definição / o espaço da indefinição:  a montanha e sua ondulação petrificada: a permanência / o mar e suas montanhas instáveis: o movimento e suas miragens; a montanha feita à imagem do ser, manifestação sensível do princípio de identidade, imóvel como uma tautologia / o mar que se contradiz sem cessar, o mar crítico do ser e de si mesmo)

octavio paz, o mono gramático
(tradução: lenora de barros e josé simão)

3 de junho de 2013

exercícios de aprender a viver



eu dizia não chore.
depois: ao falar para multidões lembre-se também do seu pé sobre a face da terra.
ou pense no que somos todos, tubos de fazer bosta.
quando for, bata o pó. deixe água em seu lugar.
eu também dizia não demore.

e eu também me dizia não chore.
e eu também me alertava sobre o pé, o pó, a bosta.
sobre a água que ficaria no meu lugar.
quando o  cachorro late, late e seus olhos amarelos me olham muito de perto, a natureza humana se dilui na multidão viva que como uma crosta cobre a terra ferida.
e eu digo não chore, não chore agora.
não chore depois.

17 de maio de 2013

o cavalo do bandido

um figurante que aparece longe, desfocado, limpando as cacas do cavalo do bandido escreve para me contar que o universo não é infinito, que a quantidade de matéria e energia mantém-se desde a tal grande explosão primeira e que nada, nada se cria a si mesmo - delicadamente ele me lembra que tudo isso já se sabe há algum tempo - e esse figurante também me diz que as galáxias que vemos podem ser reflexos, apenas, e que o universo curvo permite à luz encurvar-se e passar por nós uma e outra vez, e ainda vir a ver-nos bilhões de anos depois, quando na verdade nós já nem estaremos, e todos pensaremos veja, esta luz, nem parece a mesma, como não parecem as mesmas as partículas que desaparecem aqui e aparecem ali e outras que nem se sabem ondas ou partículas. tudo isso para que ele possa, por fim, se dizer quase satisfeito em ser existente nesta escala nada, que vai do tamanho mínimo do átomo ao tamanho indefinido do espaço. e é o quase, este, que o livra de um harakiri.

(inspirado em mensagem de álvaro vianna)

7 de maio de 2013

estrelando


li – onde foi que eu li? – que a vida é mais tranquila se a gente se pensa dentro de um filme sobre a gente mesmo. como somos muitos, somos muitos filmes projetados em muitas telas simultaneamente. no meu filme, sou eu o personagem principal. meus medos, alegrias, aflições, descobertas, raivas, tristezas. minha noite, minha véspera, meu dia seguinte, minha memória. a trilha musical, inclusive, minha. no filme do outro, de qualquer outro, sou só um figurante, aquele que passa de relance com a camiseta da cor exata. no filme do cara que cruzo na rua ou da mulher que compra peixe na feira ou do companheiro ou do filho ou do meu gato ou da árvore, da mãe, do pai, do planeta, do cão, da tempestade, nesses filmes sou só figurante. quando muito, com muito esforço e só por um tempo tempinho, chegarei a ser coadjuvante. com muito talento, um bom coadjuvante. 
na verdade não sei se a vida fica mais tranquila. talvez seja outra coisa: essa ideia ajuda a cavar mais pequenos silêncios no dia. e ser coadjuvante de silêncios. figurante, antes.

2 de maio de 2013

exercícios

foto: adauto araujo


Às vezes me apareces à memória
como uma cidade vista desde o mar:
com a ânsia de aportar aí
ou como o mar visto entre as ruas de uma cidade:
com a ânsia de banhar-me aí.

Às vezes a sua lembrança cresce em mim
como uma cidade que derruba as muralhas
e as novas ruas que se cruzam
dizem o teu nome
e o meu.

Às vezes me esqueço que te foste
e falo contigo como um semáforo
que muda de cores
numa rua deserta.

Às vezes tenho claro
que o único lugar onde pude viver sem o mar
foi o teu corpo.

Às vezes te esqueço
como uma cidade que de noite
não vê o seu mar negro.

E tu também vais me esquecendo
como um porto cada dia com menos navios
com menos mar a cada dia.


manuel forcano - llei d´estrangeria
tradução: veronika paulics


o original, em catalão:

De vegades m´apareixes a la memória
com una ciutat vista des del mar:
amb l´ánsia d´arribar-hi,
o com el mar vist entre els carrers d´una ciutat:
amb l´ánsia de banyar-m´hi.

De vegades el teu record creix en mi
com una ciutat que enderroca les murrales
i els nous carrers que es creuen
duen el teu nom
i el meu.

De vegades oblido que vas anar-te´n
i et parlo com un semàfor
que canvia de colors
en un carrer desert.

De vegades sóc conscient
que l´unic lloc on vaig poder viure sense el mar
va ser el teu cos.

De vegades t´oblido
com una ciutat que de nit
no veu el seu mar negre.

I tu també em vas oblidant
com un port cada dia amb menys vaixells,
amb menys mar cada dia.