no momento mesmo em que me catalogaram - você é uma
mulher boa - tudo ficou perdido, todo mito, nesta definição de ponta de dedos,
boca nenhuma. e o todo se tornou fracasso: um fracasso leve aéreo, fracasso aerado, musse quase
suflê, a bondade em pequenas bolhas esparsas. dentro de cada bolha o oco. a bondade, ali, onde você não se diz. mas alguém sempre
se diz. alguém se deixa existir. no colorido das bolhas, o conflito entre ondas de luz antes
brancas que se refletem entram ressurgem na superfície, que se constroem e se destroem milhares
de tons em incidências desproporcionais ao atravessar a fina pele da
parede daquilo onde nada há.
abro o enorme catálogo, entre as últimas letras do
alfabeto, vejo a foto: eu, boa mulher que me dizem, na mão escondo uma faca, entre
os dentes, as unhas são garras, no anel, veneno, no meu olho cavo a bolha da
bondade se esfuma, se esvanece, murcha.
sem luz.
as bolhas do plástico bolha que envolve o catálogo de
fracassos me distraem dos meus horrores, da minha incapacidade de olhar o mundo e ver. o mundo. enquanto me distraio e não vejo, pequenas bolhas vazias buscam
entre sais e ácidos a menor área para tanto volume nenhum. e me esvaio - líquido pingo - entre as páginas o que não
se sabe que sou. lanço o outro aos infernos, querendo, boba, ir
direto ao céu. mas é na terra que se firma os pés e bem ali se põe as mãos, alguém diz, sem
ser iridescências nasço avessos de escuridão.